segunda-feira, 14 de novembro de 2011

surto 2.4

A cena era chapliniana. À frente de uma multidão, que se aglomerava nas escadarias do refeitório, descia pela calçada e alcançava o estacionamento, uma figura pequena, magra, esquálida até, gritava palavras de ordem na mais concorrida assembléia realizada naquele começo de ano, o último da década de 70 do século passado, 1980.



- A gente não pode continuar se curvando diante dos desmandos da reitoria. Senão em breve o bandejão vai estar custando 50 merrecas (não tenho mesmo como lembrar da moeda vigente). Só que aí num vai dar mais para lutar não. A gente tem que contestar este aumento no bandejão hoje, agora – fremia Noel, um baiano de bigodinho e alguma influência sobre a audiência, embora fosse notoriamente radical.



Era apenas a segunda pessoa a falar naquela assembléia que decidiria se haveria greve ou não. Mas antes que ele terminasse seu inflamado discurso, André e Flávio já tiravam o cadeado de suas bicicletas e preparavam-se para voltar ao nosso apartamento.

-- Vam’bora, Eros. Vai ser a ladainha de sempre e este bando de vagabundos vai decidir pela greve. A gente se adianta e começa a fazer as malas. Assim, amanhã a gente pode estar indo pro Voltaço – disse-me André.



Eu permaneci sentado no meio-fio, de onde ouvia bem o discurso e via as peripécias corporais de Noel, segundo muitos alunos, um estudante profissional, havia pelo menos seis anos em Viçosa.

-- Vou não, André. Vou ficar até o fim da assembléia. Aí eu conto em primeira mão se a greve foi decretada ou não – prometia.

André achou absurda minha posição:

-- Cara, cê num vai ficar aqui escutando este monte de baboseira, dita por um monte de jeca, vai?

- Vou, André. Vou ver no que vai dar – finquei pé, enquanto André e Flávio montavam em suas bicicletas.

- Então vamos logo, André. Deixa ele aí... Tô morrendo de sono – disse Flavão, referindo-se a uma prática mantida religiosamente por nós três, depois do almoço de domingo: tirar uma sesta de uma, uma hora e meia.

Flávio era um conterrâneo que só tínhamos conhecido lá em Viçosa, logo nos nossos primeiros dias de faculdade. Nos demos hiperbem e duas semanas mais tarde, ele já tinha se mudado para a pocilga, ou melhor, para a pensão onde resistimos o primeiro semestre de UFV. Ele era da mesma igreja, batista, eu acho, que o Muel, um vizinho e amigo de infância. A igreja ficava no bairro do Aterrado, em Volta Redonda, e Flávio não morava muito longe da igreja, não.



Não deu outra. Depois de uma hora e meia de falação, procedeu-se uma votação entre os presentes e tomou-se a greve como decisão majoritária. Fui voto vencido. Eu e mais uns dez manés que tiveram coragem de externar sua discordância diante de uns 500 fanáticos defensores da greve. O motivo para a paralisação imposta pelos alunos: uma elevação de três (3) merrecas no preço do bandejão. A refeição iria de oito para 11 merrecas.



Continuaria a custar porra nenhuma, ainda mais levando-se em conta a qualidade da comida.



Era excelente. Um nutricionista sempre acompanhava in loco as refeições e estava aberto a reclamações (muitas, como em qualquer serviço público) e sugestões (poucas). Tudo era anotado em folhas dispostas sobre pranchetas coloridas.



Não havia como comparar com a comida servida na Federal do Rio, por exemplo. Tá, o bandejão custava centavos, mas assemelhava-se a lavagem servida a porcos. Frequentemente eram encontrados pregos, arruelas e parafusos na comida; até um band-aids foi achado em meio aos grãos de feijão e virou foto ilustrando reportagens nos jornais cariocas.



Bem, decidida a paralisação tratei logo de me inteirar dos comitês de greve e do que cada cuidava. Estava interessado em um que era para comprovar que o aumento de três merrecas ia bagunçar a vida financeira dos alunos que dependiam do Crédito Educativo.

Era um sistema de crédito com o qual o Governo Federal subvencionava a permanência do aluno na faculdade. Três anos depois de formado – acho que era este o intervalo -- o estudante era obrigado a começar a ressarcir a União.

E em Viçosa era grande o número de alunos que dependiam do crédito. Nós conhecíamos um cara, colega de dois baianos “porretas” dos quais nós (eu, André e Flavão) nos aproximamos muito nos primeiros tempos de Viçosa.

O cara chamava-se Sérgio, morava num quarto na mesma pensão em que Artur e Boca, os baianos, moraram no primeiro semestre de 1979, primeiro ano de todos nós em Viçosa.

E o sujeito cortava um dobrado para se manter. Sua única fonte de renda era o Crédito Educativo. Os pais, moradores de Niterói, não podiam bancá-lo, mesmo numa escola pública.

E agora Serginho estava numa sinuca de bico. Tudo que não queria era uma paralisação que lhe frustrasse os planos de se formar no fim do ano. Mas não havia como ser contrário à greve. Segundo garantira para mim, André,o baiano Artur, e pra quem se aproximasse dele.



Agora, imagina o Serginho, um pusta CDF, com uma média de nota superior a 8,5, fazendo piquete no prédio de Solos, onde era monitor da matéria Solos 4?!!!!!

A bolsa do Crédito Educativo era reajustada de dois em dois meses. E naquela década, a de 1980, a inflação galopava na casa de dois dígitos mensais. Sobreviver com a grana do crédito era algo impensável para nós, filhinhos de papais da classe média.

Tudo aumentava. Era mais do que compreensível que subisse também o preço do bandejão, o que não acontecia há pelo menos três anos. Ainda que dobrasse o preço da comida, a universidade continuaria a subvencionar, com muita verba, a ótima bóia servida no restaurante central.



Estes dramas pessoais, como o do Serginho, e a sincera disposição de dar uma guinada de 180 graus na minha vida em relação à cidade, à UFV e a seus estudantes foram o que motivara a transformação de meus dias de greve num vendaval de reais e doloridas mudanças.



Na mesma noite em que foi decretada a greve, fiquei conhecendo um camarada chamado William, um dos líderes da greve. Sua estampa nem de longe lembrava um típico grevista. Nada de cabeleiras e barbas que remetiam a Che e a Fidel, a clássica figura de um revolucionário. Uma imagem limpa que contrastava com outros líderes grevistas, que faziam questão de parecer o mais sujo possível. Acho que a sujeira ajudava a consolidar o ar obscuro e o par de olhos verdes naquela cara dissipava aquele pedantismo tão arraigado àqueles que faziam política estudantil.

-- Ué, mas você não foi contrário à greve? – perguntou-me William antes de passar instruções a mim e à uma menina, que ficaria incumbida do dormitórios femininos mantidos pela universidade para quem não tinha como se bancar.

Dei-lhe a resposta mais politicamente correta possível.

-- Sou contra a greve, mas fui voto vencido. Eu quero participar agora, Ver se esta bosta de greve tem alguma razão de ser – disse-lhe, sendo sincero.



William, que era aluno de um curso não muito comum, algo parecido com técnico em laticínio olhou para mim e para Goretti, era assim que se chamava a garota que investigaria os alojamentos femininos, e disse:

-- Amanhã, lá pelas nove da manhã, cês começam. Ao longo do trabalho, se vocês sentirem dificuldades, coloco mais gente para ajudar vocês. E a gente se encontra às sete e meia da noite para vermos como foi o primeiro dia de trabalho – disse William, despedindo-se de nós.

Fiz o mesmo com Goretti e fui de bicicleta para casa.

Passava de nove da noite quando cruzei a porta dos fundos lá de casa. A da frente, de vidro e de correr, davamorto, que bem representava nossa relação com a cidade. O cômodo mais nobre da casa estava cheio de tralhas.

Encontrei Flávio e André ouvindo Queen. A primeira coisa que ouvi foi uma pergunta feita em uníssimo pelos dois:

-- Declararam greve?

-- Ham, ham – respondi.

-- E você ficou na assembleia até o final? Aquela chatura, insuportável. Cê é um pastel mesmo – disse-me André.

-- Nós já começamos a fazer as malas e zarpar amanhã cedo pro Voltaço – falou Flávio, acrescentando: -- Começa a fazer a sua ainda hoje...Se tivermos sorte, vão ser, pelo menos, duas semanas no Voltaço...Êba!



Eu tirei os tênis e mergulhei na minha cama. Disse-lhes de maneira a não deixar dúvidas quanto à minha decisão de não estender as férias recém-encerradas:

­-- Olha, eu não vou para Volta com vocês. Quero entender o porque desta greve. E já que vou passar pelo menos mais três anos aqui, vou tentar conviver com os nativos e os jecas da cidade.



Eu já sabia de cor e salteado o que o André achava dos grevistas, e até certo ponto concordava com ele. Mas, ainda assim, seguiu-se a velha cantilena enfatizando “vagabundos”, “grevistas profissionais”, “greve por umas merrecas”. Seu discurso trazia uma novidade: a surpresa por eu passar para o lado dos “vagabundos”. Flávio nada dizia, limitando-se a balançar a cabeça nos pontos mais fortes do discriminatório e recorrente discurso de André.



-- André, eu ainda tenho pelo menos três anos e meio de Viçosa. Não quero passar todo este tempo odiando a universidade e os alunos daqui, esta jecaiada , como você diz. Quero e vou me integrar, fazer novos amigos – disse.

Acho que foi nesta ocasião que o André emendou de bico, com uma frase lapidar.

-- Eros, os amigos que eu tinha que fazer eu já fiz. Daqui pra frente serão só colegas e conhecidos -- disparou, convicto, no alto de seus recém-completados 19 anos.

Confesso que a sentença, extrema e descabida de propósito (o cara era muito novo para uma afirmação tão taxativa) em vez de me alarmar, me deixou foi muito lisonjeado. Eu sabia fazer parte daquele seleto clube de eleitos por André – ainda hoje um sujeito muito seletivo.

Mas sabia que ouviria muito por minha decisão de ficar. E realmente André falou pra caramba, tentou me convencer a ir com ele e Flavão pro Voltaço. Mas eu também estava irredutível. Desta vez, iria me integrar a Viçosa.

No dia seguinte, tão logo André e Flávio seguiram para Volta Redonda, eu também deixei a casa, de bicicleta, rumo à universidade.
Fui direto para os alojamentos masculinos, que ficavam num prédio recém-construído em frente ao lago. Tão novo quanto os alojamentos, era o lago, que brotara do desvio do curso de um riacho que passava nos fundos da pensão/república/pocilga na qual resistimos o primeiro semestre em Viçosa.

Conversei com uns camaradas que conhecia e subi rapidamente para os quartos. Eram dois prédios relativamente pequenos. Tinham três andares cada um, algo entre dez e 14 quartos em cada andar e dois beliches por quarto, que ainda contavam com duas escrivaninhas e dois armários. Ou seja, o espaço para circulação era mínimo.

Obedecendo a um esquema simples e óbvio, fui primeiro ao primeiro quarto do primeiro andar, o 101. Lá, encontrei os quatro alunos que dividiam o apartamento.

Apresentei-me e fiz um inventário montado com perguntas sugeridas por Williams e outras de cunho próprio. Os dois primeiros casos o que os caras gastavam não fechavam com o crédito educativo e só com a parca grana mandada de casa conseguiam equilibrar o orçamento. Com um aumento de sete merrecas por dia, além do aumento de três no almoço e no jantar, o café da manhã aumentara de três para quatro merrecas, teriam que cortar um os maços de cigarros; o outro teria que cortar radicalmente o cineminha dos fins de semana. E olha que nem computei gastos com roupas e calçados. Ouvi os dois outros moradores do 101 e apertando muito o cinto – os pais não eram tão pobres – dava para manter os pequenos vícios (meio maço de cigarros e porres de cachaça quinzenalmente em qualquer botequim), além de fazer as duas refeições mais o café da manhã devidamente majorados.

Em questão de minutos, minha presença, ou melhor, a presença de um recenseador, se espalhou pelos alojamentos masculinos.
E a informalidade tomou conta de meu questionário de maneira indelével . Foi uma manhã e uma tarde – separadas pelo almoço, por incrível que pareça o bandejão da universidade continuava a servir café da manhã, almoço e jantar pelo preço antigo para os grevistas – atípicas. Conversei longa e amistosamente com sujeitos que em outros tempos, sequer trocaria xingamentos.
Donos de sotaques típicos do interior de Minas e São Paulo eram motivo de galhofa pelos três volta-redondenses. Mas eu quebrei a cara. Os sujeitos que falavam o dialeto da poRteira veRde do BeRnaRdo eram legais. As únicas diferenças conosco eram o sotaque e os hábitos caipiras arraigados – como a adoração àquelas fivelonas nos cintos e o uso indiscriminado de botas.

Mas tinham as mesmas inseguranças que eu, André e Flávio. Os mesmos medos, as mesmas incertezas, hoje borrões esmaecidos em personas de 50 anos ou quase.

E foi naquele recenseamento, informal, uma verdadeira festa onde conversei com muita gente e coletei opiniões congruentes e bem embasadas que virei implacável, ardoroso e intransigente defensor da greve.
Sem percorrer os 90 apartamentos dos dois prédios, conversei com quase todos moradores. A carência era grande, sim. Assim como descobri uma verve que não sabia ser minha. Tinha resposta para todo questionamento e acho que pela primeira vez na vida, me senti protagonista. Afinal, minha presença tinha catalisado a atenção de perto de 300 estudantes.

A anarquia e a espontaneidade daquele primeiro contato com os grevistas foram marcantes. Foi a minha primeira ação sem a tutela de André, até hoje meu melhor amigo, e desde aquela época um direitista com tendência a deletar posturas de esquerda. E sempre que discutíamos sobre política, ele argumentava (argumenta) muito bem, enquanto eu não conseguia expandir meus pontos de vista; era (sou) uma hesitação só.

E pela primeira vez, estava vendo Viçosa como realmente era e estava gostando do que via. Apesar de ter entrada na UFV em 1979, foi com calouros do ano seguinte que me sentia à vontade. Dois fatores contribuíram para minha integração com este povo.

Primeiro, tinha uma conterrânea entre os calouros de 1980. Uma menina chamada Patrícia Bustamante. Sorriso farto e sincero, companhia e papo agradabilíssimos. Teria me apaixonado, tivesse alguma dúvida quanto ganharia com sua amizade.

Ao mesmo tempo em que me maravilhava com a genuinidade agreste de uma menina nascida em Volta Redonda, fui me encantando com caras e meninas dispostos a vivenciar e conhecer pra valer Viçosa. Se a universidade estava em greve, não faltava o que fazer por lá.

Havia uma dezena de atividades a serem desenvolvidas pelos alunos em greve em Viçosa. Os habitantes de Viçosa eram, em sua maioria, pequenos agricultores. E embora minha experiência fosse nenhuma, assim como a dos calouros, eram mais braços e disposição para ajudar a semear, limpar terrenos e podar árvores. Ou seja, mais gente para obedecer aos aldeões. E mão-de-obra gratuita. Sem amigos entre os poucos alunos do segundo ano que ficaram na cidade, expandi exponencialmente minhas amizades. Os calouros achavam que era um deles – e eu era. Meu debut em Viçosa estava sendo no meu segundo ano de faculdade.

Nunca, em toda a minha vida, me senti tão livre. Sim, eu fugia de minha mãe e de sua maldita doença, que gradualmente reduzia sua capacidade de lutar contra aquela ferida aberta no seio da família. A doença de Machado Joseph fechava todas as rotas de fuga.

Quando bati em retirada de casa para estudar em Viçosa, minha mãe há muito já não andava, e a doença já comprometera os movimentos de braços e mãos – minha mãe já precisava que lhe déssemos comida na boca. Era difícil entender o que falava – a desfasia era outro legado da Machado Joseph – e até para mudar o corpo de lado na cama precisava de ajuda.
Meu pai, nos últimos anos de vida de minha mãe, entrara em rota de colisão com a vida e deixar minha casa foi um pusta ato de corvadia, mas não me arrependo dele. Com 18 anos incompletos, eu achava legítimo – e continuo a achar -- querer ter minha própria vida. Acho que a distância de Volta a Viçosa foi, na época – inconscientemente, é claro – uma opção para ficar o mais distante possível do caos emocional que era minha vida em Volta Redonda. Afinal, tinha uma mãe jurada de morte por uma doença degenerativa e um pai ausente por incapacidade de lidar com nossa vida de merda.
E eu estava sozinho em Viçosa. Não tinha a quem prestar qualquer tipo de satisfação: não tinha hora para comer ou dormir. Ficava acordado a noite inteira, ouvindo todo tipo de música. Ia dormir com o dia clareando, acordava no começo da tarde, comia se e quando tinha fome.

Repeti ações politicamente corretas feitas sempre por calouros como caiar uma escola estadual, fazer hortas que pudessem contribuir para a merenda escolar. Paralelamente a estas atividades, me lembro de ajudar na área de zootecnia, botando porções de capim para cavalos em baias, e ia a uma área agrícola, era um tipo de fazenda onde desenvolvíamos alguns projetos e de onde eu avistei a plantação mais linda que jamais vi na vida. Um plantio de aveia, segundo alguém da universidade. Uma mancha verde, de um verde tão escuro, tão intenso, que parecia uma ilustração.

Foi de lá que vim montado em minha bicicleta como se montasse um cavalo. É uma imagem recorrente e lembro que estava sozinho e por algum tempo “cavalguei” minha Peugeout verde, como se ela fosse/estivesse animada, tivesse vida mesmo. Era óbvio que algo estava muito errado comigo!

Mas antes da zoeira absolutamente careta – o quê chega a ser muito mais preocupante se eu tivesse feito uso de maconha, por exemplo – falemos da minha conquista de corações e mentes de uma galera que entrou em Viçosa, em 1980.
Conterrâneo, coisa rara em Viçosa – só conhecia Flávio e André, até então – me apresentei à Patrícia alguns dias antes da Marcha Nico Lopes. A marcha era como um desfile de carnaval – guiada por uma banda contratada pelo DCE. Acontecia sempre antes de completar um mês de aulas.

Todo mundo fantasiado e muita gente bêbada de tropicar nas próprias pernas. A Nico Lopes – que nunca me inteirei sobre quem foi e nem com o Google aberto me interesso – obedece, ano após ano, a um tema político. Sua finalidade maior é integrar calouros e veteranos. Há os que participam do desfile, indo atrás do trio-elétrico improvisado; e os que apenas acompanham, das calçadas, colegas pagando mico. Eu e a Patrícia fomos juntos e encontramos no desfile ou fora dele, um monte de amigos dela e alguns conhecidos meus.
Conheci Denise Formoso, um pouco mais velha – uns 29 anos – uma das companheiras de apartamento de Patrícia. Baixinha e espevitada juntava a estes atributos uma simpatia única. Fomos de cara um com o outro. Quem cumprimentou efusivamente Patrícia e a tentou levar, sem sucesso, para a Marcha, foi Maria, a mais desatinada de todas as meninas que conheci em Viçosa. Natural de Petropólis, morava em apartamento próprio – o pai dela tinha grana -
num prédio de três andares, bem em frente ao nosso apartamento na rua Olívia....—só me lembro do primeiro nome, sequer guardei o nome do bairro. Também adorei minha vizinha, dona de uma Variant branca.

Encontrei também Ricardinho, uma das boas amizades que fiz naquela pocilga onde moramos no primeiro semestre, mamadaço. E logicamente encontrei com André e Flávio, no comecinho da marcha, ainda no campus.

Cumprimentamo-nos como velhos amigos que sempre haveremos de ser, mas acho que naquela noite caíra por terra o jugo que André tinha sobre mim. Pela primeira vez me relacionava com outras pessoas que não as mesmas com as quais mantínhamos – os três, eu, André e Flávio – algum contato. E eram poucas, muito poucas...

Sei que minha amizade com Patrícia me franqueou acesso a muita gente. Vou lista-los: Kiko, Ramon, Beleza, Tiago, Pedro, Evandro, Claudio Lyra, Joanna, Denise Formoso e sua irmã, Lucinha, todos de Belo Horizonte; mais uma dezena e meia de amigos, tanto calouros como veteranos que, como eu, gravitava em torno do alto astral da turma de 80. Tinha trêsss cariocasss no grupo: o Jorjão – não fazia sentido chamá-lo de Georjão – Renata e Majo. Em minha débil lógica, achava que chamava-se Marjot, era descendente de franceses. Era linda. Uma tez queimada de sol e algumas sardinhas na altura do nariz. Uma versão aloirada de Malu Mader. Só que Majo – sem o t que imaginava gozar de ascendência francesa – era a abreviatura de seus dois nomes: Maria José.

Bem, nem preciso dizer que me apaixonei. E como andava seguro demais, disse isto a ela. Só identifiquei lisonja em seu rosto. Nem um sim, nem um não. Também seriam respostas e num perguntei nada a ela. Só evidenciei algo que estava estampado na minha cara.

A sinceridade, o bom-mocismo, a afabilidade e sobretudo, o entusiasmo, foram vitais para que ganhasse a total confiança daquelas pessoas que viam Viçosa com olhos muito mais carinhosos que os meus. Mas estes sentimentos que geraram esta empatia com o povo que entrara em 1980 era genuíno (Alcione, bem sei que eu só disse o quanto era venerado pelos calouros. Não há uma passagem sequer que mostre o quão agudo era meu senso de equipe e quão rápido era meu tirocínio. É que isso não é ficção, aconteceu mesmo comigo. E as lembranças...algumas foram-se com os meus cabelos...). Era e me sentia um herói.
Por um perigoso lapso de tempo, ignorei completamente o que era medo. Um exemplo cabal dei uns dias antes de subir no Fiat da polícia do campus. Foi durante a semana, por volta das dez da noite. Depois de um dia cheio numa universidade vazia de alunos, mas repleta de novidades para mim, estou eu entrando numa padaria para comprar pão integral e queijo. Nunca me chamou à atenção aquele séquito de bêbados atrás da monarca “branquinha”. Até porque estes eram figurinhas fáceis em Viçosa. Nunca vi cidade com tantos botequins, e consequentemente, bebuns. Assim, os pinguços se proliferavam nas esquinas feito moscas.

Mas eu não era detentor desta razão tão mesquinha que caracteriza a imensa maioria dos mortais. Ou melhor, eu não detinha, naquele momento qualquer resquício de sentimentos baixos. E me veio tão tola quanto altruísta pergunta, seguindo-se a um óbvio comentário: “Nunca levei um bêbado até a casa dele. Num é que uma boa idéia?”

Estavam fechando a padaria, os empregados já abaixavam o gradil das portas e acordavam um bêbado conhecido deles e de clientes contumazes.

-- Acorda, Adão. Vá para casa...Já estamos fechando... – disse-lhe o cara que há pouco me vendera pão e presunto.
Àquela altura, ele era o único bêbado no local, dormindo no chão do estabelecimento. E era tratado com um misto de complacência e pena pelos empregados.
Adão, um escurinho ensebado com roupas idem, acordara, mas não saíra do transe imposto aos bêbados. Com voz pastosa dirigiu-se ao sujeito que lhe acordara:
-- Que horas são, Paulinho?
-- A mesma (sic) de ontem. A gente fecha a padaria sempre 20 pras dez e toca você – respondeu-lhe o atendente, com uma vassoura na mão.
Adão só se arrastou pra fora da padaria, se esparramando na calçada em frente.
Foi quando cheguei para ele e me apresentei, como às minhas intenções.
Adão me olhou tão ressabiado quão um cara às vésperas de coma alcóolica pode olhar. De quebra, emendei:
-- E a gente leva ainda presunto e pão para a sua casa.
Adão ainda tentou ficar de pé para me encarar “olho no olho” e descobrir meus reais interesses. Afinal, por que um menino branco se interessaria por um bebum preto e sujo como ele?

Mas a tentativa de ficar em pé quase resultou em tombaço. Assim, quando, ofereci ajuda -- referia-me, agora, a algo mais imediato, a dificuldade de ficar de pé – foi suscinto.
-- Acho que bêbo como tô, num vô conseguir chegar em casa –- disse Adão, com fala pastosa e que só prestando muita e exclusiva atenção era possível compreender e, assim mesmo, não tudo.

Incapaz de ficar de pé sozinho, respondeu com um grunhido, o que entendi como um “sim” à minha proposta, formulada mais uma vez.

Tratei de pôr logo mãos à obra, primeiro passando a corrente com o cadeado prendendo a bicicleta num postinho magro e há muito esquecido pela CEMIG, a companhia de eletricidade de Minas. Sem mais me preocupar com a bicicleta, cuidei de meu objeto de atenção: o encachaçado Adão.

-- Onde você mora, companheiro?
O cara tava tão bêbado que não me respondia por absoluta surdez etílica.
Olhei em volta e o cara que o acordara, Paulinho, já tomava o rumo de casa, quando lhe abordei, perguntando se sabia onde Adão morava.
-- Sei que tem que descer esta ladeira toda – nós estávamos no alto de uma rua íngreme pacas – Mas precisar onde ele mora, não posso – disse-me Paulinho, capanga (um dos acessórios mais bregas do vestuário masculino, ainda mais brega que a pochete) presa ao pulso direito.
Emendou uma pergunta na resposta:
-- Cê num tá pensando em leva-lo em casa, não, tá?

Diante da minha confirmação com a cabeça e um vago “hum, hum”, ouvi a primeira de várias advertências sobre a inutilidade do meu ato.
-- Este sujeito é um pinguço! Amanhã ele volta a encher a cara e ficar num canto, feito um cão. Deixa ele. Amanhã quando acordar, ele toma o rumo de casa – falou Paulinho, a quem agradeci, já amparando Adão, e seguindo o caminho que o funcionário da padaria indicara.
Adão exalava aquele fedor típico de quem não via banho há dias; aquele cheiro ocre de suor
várias vezes seco, sem ver água. As roupas também estavam imundas. Adão ostentava um machucado no alto do nariz, que já tinha alguns dias, uma vez que apresentava aquela casquinha de cicatrização. Pelo local do machucado, era fruto de alguma queda do bebum.

Inicei na padaria, uma autêntica via-crúcis, com as bíblicas estações substituídas por pés-sujos. Como não sabia exatamente onde o cara morava e no caminho da casa dele tinha mais de uma dezena de botequins, de tempos em tempos, eu perguntava se conheciam Adão e se sabiam onde ele morava.

Eu me imaginei personagem de uma parábola. A “Parábola da Negação”. Pois a cada parada, só ouvia “deixa ele aí”, “ele é um vagabundo cachaceiro”, “amanhã vai estar bêbado de novo” e outras sandices semelhantes.

E enquanto levava Adão para casa, fui percebendo que o cara tinha medo! Não consegui saber de que, pois a fala era muito arrastada, incompreensível. Falamos pouco durante o trajeto, isto é, eu falei. Pedi que facilitasse a mim, que além de estar escorando um cara um pouquinho mais pesado do que eu, no meio do caminho resolvera deitar na calçada e apagar por ali mesmo.

--- Adão! Adão! Vamos embora... Já estamos perto de sua casa. Falta pouco. Vamos lá. Eu te levo na cacunda – sugestão prontamente acatada pelo neguinho cujo cheiro empesteava o ar.
Paramos para tentar localizar a casa do cara em quatro botequins, duas padarias
e um mercadinho. Isso em pouco mais de um quilômetro e cem metros – distância da padaria onde encontrara Adão e o casebre onde morav. Não podia dar chance ao azar. Não queria andar um metro a mais sequer com o bebum a tira-colo. A mesma cantilena repetiu-se em todos os lugares em que pedira informação. “Deixa o cara aí. Tá chapadaço.”, “Amanhã esse bebum volta a encher a cara e você cisma de levá-lo no casebre onde ele mora?” “Larga a mão disso, rapá! Encosta este pé-de-cana num canto qualquer!” Ouvi frases como esta em meio a outros estimulantes comentários.

Se enchesse Adão de bicudas, cobrisse o cara de porrada, acho que ninguém ia intervir; era até bem provável que me ajudassem a espancá-lo. Eles podiam não saber por que batiam, mas o bebum certamente sabia porque apanhava, deviam pensar.

Negociei com o bêbado, e só andei com ele nas costas uns 200 metros. À medida que nos aproximávamos daquilo que era o segundo lar de Adão; o primeiro, sem dúvida, era as calçadas e sarjetas imundas da cidade, onde dormia e acordava dias seguidos depois de “cachaçadas” homéricas, notara uma inquietação no rosto dele.

Pois descobri a razão da inquietação de Adão no penúltimo lugar onde paramos e perguntei se o dono ou algum atendente do pé-imundo sabia onde o cara morava.
--- Porra, Adão!! Cê num se emenda, né, seu merda!? Num é à toa que o Julião vive te enchendo de porrada! – disse-lhe o caboclo atrás do balcão, curto até mesmo para um mínimo pé-inchado, como aquele boteco xexelento.
--- Amigo, alguém aqui te xingou? – interpelei o atendente, que já desconfiou que fez besteira ao xingar Adão.
Modulando seu tom uma oitava abaixo, o sujeito tentou minimizar o que fizera:
-- Não. É que este cara vive bêbado; tá sempre caindo pelas tabelas e até obrigou o senhor a trazê-lo aqui...
-- Primeiro, ao que me consta, ele não perturba ninguém aqui. Do contrário, num estaria bebendo cachaça lá na (rua) Adamastor (Nunes), há quase um quilômetro deste pé-sujo. Segundo, ninguém sequer me pediu para trazer o cara em casa. Tô fazendo isso porque quero. E terceiro, e o mais importante: não fossem pinguços como ele, você num teria emprego.
E não parei não:
-- Ou acha que o dono deste botequim ia precisar de você só para servir média com pão com manteiga de manhã? Por isso, acho que todo dia, antes de dormir, você deveria agradecer a Deus por existir cachaceiros como ele. E rogar para que bêbados que nem o Adão continuem a encher a cara de cachaça.

Disse isso e imediatamente chamei Adão para deixarmos o pé-sujo. Já íamos descendo a rua, quando o funcionário do boteco – chamava-se Ernesto ou algo parecido – veio de dentro do botequim aos berros de Ei, Ei – obviamente tentando chamar minha atenção – enquanto tremulava freneticamente um pano
com qual ora limpava as mesas, ora enxugava o suor que escorria abundantemente do rosto gordo, agora vermelho e cansado, embora a distância que nos separava não chegasse a 20 metros.
Paramos e nos viramos para o gordo.
-- Olha, cê me desculpe. Não tive intenção.... – falou o atendente, sem completar a frase, ofegante que estava, com a corrida para nos alcançar.
Eu levantei a mão, em sinal de que estava tudo bem. E já me virava rumo onde achava ser a casa de Adão, quando Ernesto nos alcançou.
-- Peraí, moço – disse o cara do boteco, acrescentando a urgência de me contar algo.
–- Se vai levar o Adão pra casa dele, é bom se prevenir. Este caboclo tem um irmão que desce o cacete nele. É só encontrar com ele naquele barraco – e apontou para uma casinha isolada, a uns 300 metros do botequim, com o jardim, ou melhor, o capim, que a cercava, recém-aparado – que o Julião desce porrada nele.

-- E ninguém, vizinho algum, faz nada? Simplesmente, deixam o cara apanhar? E bêbado assim é alvo fácil...
-- Ninguém se mete. O irmão até bebe uma vez ou outra. Mas nunca como este aí. É trabalhador e num fosse ele, o Adão não teria onde dar com os costados. Ou comer um prato de comida. Pro povo, o cara tá certo. Também acho que tá certo. Só acho que às vezes, o cara extrapola. Tem dia que o Adão sequer consegue andar. Uma vez o sujeito quebrou uma cadeira nas costas do Adão. O bebum quebrou três costelas. E os dentes, então? Se Adão é banguela, certamente
Não é por causa dos tabacos que ele vive
tomando. A razão é outra. Os murros do Julião deixam a cara do Adão em petição de miséria – contou-me Ernesto, cessando a ladainha por breves segundos, só o tempo suficiente para tomar fôlego. E continuou: --E Julião num é o nome do cabra. É aumentativo de Júlio. Já viu, né? É um negão que mais parece um armário de Sicupira... Por isso é bom tomar cuidado. Se eu fosse o senhor, deixava o sujeito aí. Deixa ele decidir
se quer dormir na rua ou prefere entrar na porrada e dormir sobre um teto.
Agradeci ao atendente antes que ele engatasse um outro papo sobre as proezas etílicas do armário de Sicupira.
O medo estava agora estampado no rosto de Adão. A conversa ccom Ernesto teve um efeito devastador para o bebum. Mas não me abalara nem um pouco.
Pois se o que me faltava em fortaleza física (era magro e nanico -- media mais ou menos ínfimos 1,65m, hoje sou dois ou três centímetros mais baixo) me sobrava em têmpera, determinação e coragem. Nada a ver com o cara que hoje hesita até diante de um cágado -- ou do adjetivo, sem acento.

Mas Adão pelava-se de medo. Estava até mais lívido, não fossem as nódoas de sujeira que lhe conferiam, junto com a voz pastosa de bêbado, um ar abjeto, miserável.

Agora o cara queria fugir dali, ficar o mais distante possível do irmão violento, dos murros e pontapés aos quais nunca reagira e que deixavam marcas. Fiquei sabendo depois de muito insistir em compreender seus grunhidos, que fazia uns dois meses que não aparecia em casa.
--- Mas a casa não é sua também? Não foi o único bem que seu pai deixou para vocês dois? Então a casa é tanto sua quanto dele -- observei, apresentando argumentos oferecidos pelo próprio Adão, na longa marcha de pouco mais de um quilômetro, que já durava perto de duas horas.

Prometi a ele que não deixaria o irmão violento tocar nele. O encachaçado Adáo limitou-se a me olhar de cima abaixo como a dizer "e é você que vai impedí-lo de me dar porrada? rarárá...conta outra".


Não arredou o pé de onde estávamos até que o convenci a irmos até o botequim quase em frente à pequena casa caiada de branco, com borrões escuros nas partes inferiores das paredes, vindos do chão úmido. Se não ouvíssemos barulho nem víssemos luzes acesas, era sinal de que Julião não estava em casa. Afinal, era sexta-feira. E as possibilidades de seu irmão estar enchendo a cara em outro canto da cidade eram grandes.


Adão foi comigo até o pé-sujo, menos por acreditar no meu poder de defesa, mais pela chance de dormir uma noite, uma única noite sem acordar com bicudos e safanões de funcionários dos bares, gente que não se importava que bebessem até cair, desde que não tivessem que põ-los de pé no dia seguinte.

Pedi uma água sem gás; Adão um traçado com mel. Mas diante da minha negativa muda de pagar pela cachaça quando o cara que nos serviu hesitara e me olhara como que pedindo meu aval, de nada adiantaram as seguidas reclamações de Adão. Ouvi a mesma ladainha: que o cara era um bebum --- como se isso pudesse ser novidade a qualquer um que passasse a cinco metros do sujeito, quanto mais a mim, que vinha sustentando o cachaçeiro com seu cheiro azedo há duas horas; que já estava acostumado a dormir na calçada; e pasmem!, antes de ser um aviso a minha integridade física, a existência do irmão violento era a justiça encarnada, quase uma lei bíblica tão arcaica quanto a dantesca '"olho por olho, dente por dente".

Bem, mas eu e Adão permánecemos dez, 15 minutos observando atentos se havia alguma movimentação na casa , e nada! Barulho nenhum; na casinha reinava uma escuridão só. Isso era sinal de que Julião passaria a noite fora e na manhã seguinte chegaria tão cansado que só notaria a presença do irmão inúti quando acordasse, geralmente, no meio da tarde seguinte. Segundo Adão, quando o irmão acordasse, há muito ele estaria longe da casinha.

Seguros de que não encontraríamos com Julião na casa, atravessamos a rua e fomos logo invadindo o capinzal/jardim da casinha caiada de branco. Uma dúvida me fez parar antes mesmo de divisar a porta da casa.

--- Ih!! Me diz uma coisa: cumé que a gente vai entrar na casa? Duvido que você carregue uma chave consigo...-- falei, enquanto freiava bruscamente o quase galope que nos conduzia rumo á porta.



Nisso, vislumbrei, graças a um relâmpago que a todo escuro iluminou, um tanque em frente à porta da modesta casinha. Havia um amontoado de panelas e pratos sujos. Imundos, ainda com resto de comida mixado a um filete de água que insistia em pingar, embora a torneira exibisse um pano preso à guiza de contenção do vazamento. Diante da minha súbita brecagem, Adão seguiu em frente e estabacou-se. Mas agarrando-se a mim, ergueu-se e respondeu minha pergunta:
--- Tem erro não. Nas sextas, ele deixa sempre a chave num vaso de guiné e comigo-ninguém-pode -- disse, procurando a chave num dos vasos que ladeiavam a porta da casa.

Nisso, esbarrei na porta, que não dispunha de maçaneta, e ela se escancarrou toda, emitindo um gincho à medida que se abria.

Mal notou que a porta da casa abrira, Adão tratou de entrar, tropeçando em mim e se esborrachando no chão averrmelhado. Mas não se machucou. Rapidamente, levantou-se, apoiando-se na porta semi-aberta e procurou o interruptor.Click, click e necas de luz.

-- Caramba, será que cortaram a luz? -- falou em tom normal, Adão, nem baixo nem alto.

Estava um bréu dentro da casa. Minhas pupilas não se acostumaram rapidamente à escuridão, de modo que quando percebi que diante de mim tinha uma esteira, chamei Adão, ainda confuso diante da falta de luz, mantendo a porta semi-aberta.

-- Deita aqui logo e encosta este treco -- um aquecedor a gás, também conhecido como 'rabo-quente' -- na porta. Pesa o suficiente para manter a porta encostada, e não impedirá seu irmão de entrar -- disse, enquanto Adão se aninhava na esteira.

Estava me preparando para deixar a casa, quando ouço uma voz tonitruante berrar comigo, me cortando a saída.

-- Que porra é essa?Agora este cachaceiro precisa que playboys tragam ele em casa? -- perguntou, Julião, já esculachando nós dois.

Apesar da estrondosa voz, ainda era impossível divisar a silhueta de quem emitira a ofensa no bréu do quarto. Mesmo sem conseguir vê-lo, fui bem direto e ousado:

-- Você deve ser o Julião, o irmão que desce porrada no bebum do Adão. E só espanca o caboclo quando ele sequer pode reagir... Bonito... e covarde.

--- Você num sabe da missa a metade. Este puto que deve estar todo cagado de medo atrás de você só faz encher a cara, num bota um vintém sequer em casa -- a voz agora era esganiçada, contrastando com o tom gutural da primeira vez.
--- Desculpe, senhora, sequer podia imaginar que estivesse aqui... --- disse, sendo bruscamente interrompido pela "gentil dama":

--- Senhora é o caralho!! Sou puta mesmo e só estou debaixo
do Julião porque depois ele me paga.

Diaante de tamanha finura, senti que seria perda de tempo tentar catequizá-los e fui na canela.

-- Me faz um favor, Julião? Num desce o braço no seu irmão hoje não, tá? -- e concluí: -- E quando ele acordar, dê um café da manhã decente pra ele, sim? Tô deixando 40 paus. Compra pão, manteiga, leite e dá pra ele, beleza?

E antes que o armário de Sicupira viesse até mim -- o cara devia estar pelado -- encostei a porta da casinha caiada de branco, dei-lhes um audível "Boa noite"
e parti de minha aventura mundo-cão.


Antes do terceiro passo rumo ao meu universo -- aquilo ali nada tinha a ver comigo, pensei e agradeci -- Julião pôs a cabeça -- encimada por uma carapinha curta -- e com voz que nada lembrava a tonicidade de dois minutos atrás.

-- Pode deixar que não vou bater nele, não. Adeus e muito obrigado. Vai com Deus -- disse num "gutural suave". Olhei para trás, vi o rosto do irmão que espancava porque se achava dentro do sistema, sorri para ele e bati continência com dois dedos em riste.


Isso aconteceu sexta à noite. Portanto, não era de se espantar que no dia seguinte eu pulasse em cima de um fiat da polícia do czmpuss.
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Filhos de Machado Joseph

terça-feira, 8 de novembro de 2011
surto 2.4
A cena era chapliniana. À frente de uma multidão, que se aglomerava nas escadarias do refeitório, descia pela calçada e alcançava o estacionamento, uma figura pequena, magra, esquálida até, gritava palavras de ordem na mais concorrida assembléia realizada naquele começo de ano, o último da década de 70 do século passado, 1980.



- A gente não pode continuar se curvando diante dos desmandos da reitoria. Senão em breve o bandejão vai estar custando 50 merrecas (não tenho mesmo como lembrar da moeda vigente). Só que aí num vai dar mais para lutar não. A gente tem que contestar este aumento no bandejão hoje, agora – fremia Noel, um baiano de bigodinho e alguma influência sobre a audiência, embora fosse notoriamente radical.



Era apenas a segunda pessoa a falar naquela assembléia que decidiria se haveria greve ou não. Mas antes que ele terminasse seu inflamado discurso, André e Flávio já tiravam o cadeado de suas bicicletas e preparavam-se para voltar ao nosso apartamento.

-- Vam’bora, Eros. Vai ser a ladainha de sempre e este bando de vagabundos vai decidir pela greve. A gente se adianta e começa a fazer as malas. Assim, amanhã a gente pode estar indo pro Voltaço – disse-me André.



Eu permaneci sentado no meio-fio, de onde ouvia bem o discurso e via as peripécias corporais de Noel, segundo muitos alunos, um estudante profissional, havia pelo menos seis anos em Viçosa.

-- Vou não, André. Vou ficar até o fim da assembléia. Aí eu conto em primeira mão se a greve foi decretada ou não – prometia.

André achou absurda minha posição:

-- Cara, cê num vai ficar aqui escutando este monte de baboseira, dita por um monte de jeca, vai?

- Vou, André. Vou ver no que vai dar – finquei pé, enquanto André e Flávio montavam em suas bicicletas.

- Então vamos logo, André. Deixa ele aí... Tô morrendo de sono – disse Flavão, referindo-se a uma prática mantida religiosamente por nós três, depois do almoço de domingo: tirar uma sesta de uma, uma hora e meia.

Flávio era um conterrâneo que só tínhamos conhecido lá em Viçosa, logo nos nossos primeiros dias de faculdade. Nos demos hiperbem e duas semanas mais tarde, ele já tinha se mudado para a pocilga, ou melhor, para a pensão onde resistimos o primeiro semestre de UFV. Ele era da mesma igreja, batista, eu acho, que o Muel, um vizinho e amigo de infância. A igreja ficava no bairro do Aterrado, em Volta Redonda, e Flávio não morava muito longe da igreja, não.



Não deu outra. Depois de uma hora e meia de falação, procedeu-se uma votação entre os presentes e tomou-se a greve como decisão majoritária. Fui voto vencido. Eu e mais uns dez manés que tiveram coragem de externar sua discordância diante de uns 500 fanáticos defensores da greve. O motivo para a paralisação imposta pelos alunos: uma elevação de três (3) merrecas no preço do bandejão. A refeição iria de oito para 11 merrecas.



Continuaria a custar porra nenhuma, ainda mais levando-se em conta a qualidade da comida.



Era excelente. Um nutricionista sempre acompanhava in loco as refeições e estava aberto a reclamações (muitas, como em qualquer serviço público) e sugestões (poucas). Tudo era anotado em folhas dispostas sobre pranchetas coloridas.



Não havia como comparar com a comida servida na Federal do Rio, por exemplo. Tá, o bandejão custava centavos, mas assemelhava-se a lavagem servida a porcos. Frequentemente eram encontrados pregos, arruelas e parafusos na comida; até um band-aids foi achado em meio aos grãos de feijão e virou foto ilustrando reportagens nos jornais cariocas.



Bem, decidida a paralisação tratei logo de me inteirar dos comitês de greve e do que cada cuidava. Estava interessado em um que era para comprovar que o aumento de três merrecas ia bagunçar a vida financeira dos alunos que dependiam do Crédito Educativo.

Era um sistema de crédito com o qual o Governo Federal subvencionava a permanência do aluno na faculdade. Três anos depois de formado – acho que era este o intervalo -- o estudante era obrigado a começar a ressarcir a União.

E em Viçosa era grande o número de alunos que dependiam do crédito. Nós conhecíamos um cara, colega de dois baianos “porretas” dos quais nós (eu, André e Flavão) nos aproximamos muito nos primeiros tempos de Viçosa.

O cara chamava-se Sérgio, morava num quarto na mesma pensão em que Artur e Boca, os baianos, moraram no primeiro semestre de 1979, primeiro ano de todos nós em Viçosa.

E o sujeito cortava um dobrado para se manter. Sua única fonte de renda era o Crédito Educativo. Os pais, moradores de Niterói, não podiam bancá-lo, mesmo numa escola pública.

E agora Serginho estava numa sinuca de bico. Tudo que não queria era uma paralisação que lhe frustrasse os planos de se formar no fim do ano. Mas não havia como ser contrário à greve. Segundo garantira para mim, André,o baiano Artur, e pra quem se aproximasse dele.



Agora, imagina o Serginho, um pusta CDF, com uma média de nota superior a 8,5, fazendo piquete no prédio de Solos, onde era monitor da matéria Solos 4?!!!!!

A bolsa do Crédito Educativo era reajustada de dois em dois meses. E naquela década, a de 1980, a inflação galopava na casa de dois dígitos mensais. Sobreviver com a grana do crédito era algo impensável para nós, filhinhos de papais da classe média.

Tudo aumentava. Era mais do que compreensível que subisse também o preço do bandejão, o que não acontecia há pelo menos três anos. Ainda que dobrasse o preço da comida, a universidade continuaria a subvencionar, com muita verba, a ótima bóia servida no restaurante central.



Estes dramas pessoais, como o do Serginho, e a sincera disposição de dar uma guinada de 180 graus na minha vida em relação à cidade, à UFV e a seus estudantes foram o que motivara a transformação de meus dias de greve num vendaval de reais e doloridas mudanças.



Na mesma noite em que foi decretada a greve, fiquei conhecendo um camarada chamado William, um dos líderes da greve. Sua estampa nem de longe lembrava um típico grevista. Nada de cabeleiras e barbas que remetiam a Che e a Fidel, a clássica figura de um revolucionário. Uma imagem limpa que contrastava com outros líderes grevistas, que faziam questão de parecer o mais sujo possível. Acho que a sujeira ajudava a consolidar o ar obscuro e o par de olhos verdes naquela cara dissipava aquele pedantismo tão arraigado àqueles que faziam política estudantil.

-- Ué, mas você não foi contrário à greve? – perguntou-me William antes de passar instruções a mim e à uma menina, que ficaria incumbida do dormitórios femininos mantidos pela universidade para quem não tinha como se bancar.

Dei-lhe a resposta mais politicamente correta possível.

-- Sou contra a greve, mas fui voto vencido. Eu quero participar agora, Ver se esta bosta de greve tem alguma razão de ser – disse-lhe, sendo sincero.



William, que era aluno de um curso não muito comum, algo parecido com técnico em laticínio olhou para mim e para Goretti, era assim que se chamava a garota que investigaria os alojamentos femininos, e disse:

-- Amanhã, lá pelas nove da manhã, cês começam. Ao longo do trabalho, se vocês sentirem dificuldades, coloco mais gente para ajudar vocês. E a gente se encontra às sete e meia da noite para vermos como foi o primeiro dia de trabalho – disse William, despedindo-se de nós.

Fiz o mesmo com Goretti e fui de bicicleta para casa.

Passava de nove da noite quando cruzei a porta dos fundos lá de casa. A da frente, de vidro e de correr, davamorto, que bem representava nossa relação com a cidade. O cômodo mais nobre da casa estava cheio de tralhas.

Encontrei Flávio e André ouvindo Queen. A primeira coisa que ouvi foi uma pergunta feita em uníssimo pelos dois:

-- Declararam greve?

-- Ham, ham – respondi.

-- E você ficou na assembleia até o final? Aquela chatura, insuportável. Cê é um pastel mesmo – disse-me André.

-- Nós já começamos a fazer as malas e zarpar amanhã cedo pro Voltaço – falou Flávio, acrescentando: -- Começa a fazer a sua ainda hoje...Se tivermos sorte, vão ser, pelo menos, duas semanas no Voltaço...Êba!



Eu tirei os tênis e mergulhei na minha cama. Disse-lhes de maneira a não deixar dúvidas quanto à minha decisão de não estender as férias recém-encerradas:

­-- Olha, eu não vou para Volta com vocês. Quero entender o porque desta greve. E já que vou passar pelo menos mais três anos aqui, vou tentar conviver com os nativos e os jecas da cidade.



Eu já sabia de cor e salteado o que o André achava dos grevistas, e até certo ponto concordava com ele. Mas, ainda assim, seguiu-se a velha cantilena enfatizando “vagabundos”, “grevistas profissionais”, “greve por umas merrecas”. Seu discurso trazia uma novidade: a surpresa por eu passar para o lado dos “vagabundos”. Flávio nada dizia, limitando-se a balançar a cabeça nos pontos mais fortes do discriminatório e recorrente discurso de André.



-- André, eu ainda tenho pelo menos três anos e meio de Viçosa. Não quero passar todo este tempo odiando a universidade e os alunos daqui, esta jecaiada , como você diz. Quero e vou me integrar, fazer novos amigos – disse.

Acho que foi nesta ocasião que o André emendou de bico, com uma frase lapidar.

-- Eros, os amigos que eu tinha que fazer eu já fiz. Daqui pra frente serão só colegas e conhecidos -- disparou, convicto, no alto de seus recém-completados 19 anos.

Confesso que a sentença, extrema e descabida de propósito (o cara era muito novo para uma afirmação tão taxativa) em vez de me alarmar, me deixou foi muito lisonjeado. Eu sabia fazer parte daquele seleto clube de eleitos por André – ainda hoje um sujeito muito seletivo.

Mas sabia que ouviria muito por minha decisão de ficar. E realmente André falou pra caramba, tentou me convencer a ir com ele e Flavão pro Voltaço. Mas eu também estava irredutível. Desta vez, iria me integrar a Viçosa.

No dia seguinte, tão logo André e Flávio seguiram para Volta Redonda, eu também deixei a casa, de bicicleta, rumo à universidade.
Fui direto para os alojamentos masculinos, que ficavam num prédio recém-construído em frente ao lago. Tão novo quanto os alojamentos, era o lago, que brotara do desvio do curso de um riacho que passava nos fundos da pensão/república/pocilga na qual resistimos o primeiro semestre em Viçosa.

Conversei com uns camaradas que conhecia e subi rapidamente para os quartos. Eram dois prédios relativamente pequenos. Tinham três andares cada um, algo entre dez e 14 quartos em cada andar e dois beliches por quarto, que ainda contavam com duas escrivaninhas e dois armários. Ou seja, o espaço para circulação era mínimo.

Obedecendo a um esquema simples e óbvio, fui primeiro ao primeiro quarto do primeiro andar, o 101. Lá, encontrei os quatro alunos que dividiam o apartamento.

Apresentei-me e fiz um inventário montado com perguntas sugeridas por Williams e outras de cunho próprio. Os dois primeiros casos o que os caras gastavam não fechavam com o crédito educativo e só com a parca grana mandada de casa conseguiam equilibrar o orçamento. Com um aumento de sete merrecas por dia, além do aumento de três no almoço e no jantar, o café da manhã aumentara de três para quatro merrecas, teriam que cortar um os maços de cigarros; o outro teria que cortar radicalmente o cineminha dos fins de semana. E olha que nem computei gastos com roupas e calçados. Ouvi os dois outros moradores do 101 e apertando muito o cinto – os pais não eram tão pobres – dava para manter os pequenos vícios (meio maço de cigarros e porres de cachaça quinzenalmente em qualquer botequim), além de fazer as duas refeições mais o café da manhã devidamente majorados.

Em questão de minutos, minha presença, ou melhor, a presença de um recenseador, se espalhou pelos alojamentos masculinos.
E a informalidade tomou conta de meu questionário de maneira indelével . Foi uma manhã e uma tarde – separadas pelo almoço, por incrível que pareça o bandejão da universidade continuava a servir café da manhã, almoço e jantar pelo preço antigo para os grevistas – atípicas. Conversei longa e amistosamente com sujeitos que em outros tempos, sequer trocaria xingamentos.
Donos de sotaques típicos do interior de Minas e São Paulo eram motivo de galhofa pelos três volta-redondenses. Mas eu quebrei a cara. Os sujeitos que falavam o dialeto da poRteira veRde do BeRnaRdo eram legais. As únicas diferenças conosco eram o sotaque e os hábitos caipiras arraigados – como a adoração àquelas fivelonas nos cintos e o uso indiscriminado de botas.

Mas tinham as mesmas inseguranças que eu, André e Flávio. Os mesmos medos, as mesmas incertezas, hoje borrões esmaecidos em personas de 50 anos ou quase.

E foi naquele recenseamento, informal, uma verdadeira festa onde conversei com muita gente e coletei opiniões congruentes e bem embasadas que virei implacável, ardoroso e intransigente defensor da greve.
Sem percorrer os 90 apartamentos dos dois prédios, conversei com quase todos moradores. A carência era grande, sim. Assim como descobri uma verve que não sabia ser minha. Tinha resposta para todo questionamento e acho que pela primeira vez na vida, me senti protagonista. Afinal, minha presença tinha catalisado a atenção de perto de 300 estudantes.

A anarquia e a espontaneidade daquele primeiro contato com os grevistas foram marcantes. Foi a minha primeira ação sem a tutela de André, até hoje meu melhor amigo, e desde aquela época um direitista com tendência a deletar posturas de esquerda. E sempre que discutíamos sobre política, ele argumentava (argumenta) muito bem, enquanto eu não conseguia expandir meus pontos de vista; era (sou) uma hesitação só.

E pela primeira vez, estava vendo Viçosa como realmente era e estava gostando do que via. Apesar de ter entrada na UFV em 1979, foi com calouros do ano seguinte que me sentia à vontade. Dois fatores contribuíram para minha integração com este povo.

Primeiro, tinha uma conterrânea entre os calouros de 1980. Uma menina chamada Patrícia Bustamante. Sorriso farto e sincero, companhia e papo agradabilíssimos. Teria me apaixonado, tivesse alguma dúvida quanto ganharia com sua amizade.

Ao mesmo tempo em que me maravilhava com a genuinidade agreste de uma menina nascida em Volta Redonda, fui me encantando com caras e meninas dispostos a vivenciar e conhecer pra valer Viçosa. Se a universidade estava em greve, não faltava o que fazer por lá.

Havia uma dezena de atividades a serem desenvolvidas pelos alunos em greve em Viçosa. Os habitantes de Viçosa eram, em sua maioria, pequenos agricultores. E embora minha experiência fosse nenhuma, assim como a dos calouros, eram mais braços e disposição para ajudar a semear, limpar terrenos e podar árvores. Ou seja, mais gente para obedecer aos aldeões. E mão-de-obra gratuita. Sem amigos entre os poucos alunos do segundo ano que ficaram na cidade, expandi exponencialmente minhas amizades. Os calouros achavam que era um deles – e eu era. Meu debut em Viçosa estava sendo no meu segundo ano de faculdade.

Nunca, em toda a minha vida, me senti tão livre. Sim, eu fugia de minha mãe e de sua maldita doença, que gradualmente reduzia sua capacidade de lutar contra aquela ferida aberta no seio da família. A doença de Machado Joseph fechava todas as rotas de fuga.

Quando bati em retirada de casa para estudar em Viçosa, minha mãe há muito já não andava, e a doença já comprometera os movimentos de braços e mãos – minha mãe já precisava que lhe déssemos comida na boca. Era difícil entender o que falava – a desfasia era outro legado da Machado Joseph – e até para mudar o corpo de lado na cama precisava de ajuda.
Meu pai, nos últimos anos de vida de minha mãe, entrara em rota de colisão com a vida e deixar minha casa foi um pusta ato de corvadia, mas não me arrependo dele. Com 18 anos incompletos, eu achava legítimo – e continuo a achar -- querer ter minha própria vida. Acho que a distância de Volta a Viçosa foi, na época – inconscientemente, é claro – uma opção para ficar o mais distante possível do caos emocional que era minha vida em Volta Redonda. Afinal, tinha uma mãe jurada de morte por uma doença degenerativa e um pai ausente por incapacidade de lidar com nossa vida de merda.
E eu estava sozinho em Viçosa. Não tinha a quem prestar qualquer tipo de satisfação: não tinha hora para comer ou dormir. Ficava acordado a noite inteira, ouvindo todo tipo de música. Ia dormir com o dia clareando, acordava no começo da tarde, comia se e quando tinha fome.

Repeti ações politicamente corretas feitas sempre por calouros como caiar uma escola estadual, fazer hortas que pudessem contribuir para a merenda escolar. Paralelamente a estas atividades, me lembro de ajudar na área de zootecnia, botando porções de capim para cavalos em baias, e ia a uma área agrícola, era um tipo de fazenda onde desenvolvíamos alguns projetos e de onde eu avistei a plantação mais linda que jamais vi na vida. Um plantio de aveia, segundo alguém da universidade. Uma mancha verde, de um verde tão escuro, tão intenso, que parecia uma ilustração.

Foi de lá que vim montado em minha bicicleta como se montasse um cavalo. É uma imagem recorrente e lembro que estava sozinho e por algum tempo “cavalguei” minha Peugeout verde, como se ela fosse/estivesse animada, tivesse vida mesmo. Era óbvio que algo estava muito errado comigo!

Mas antes da zoeira absolutamente careta – o quê chega a ser muito mais preocupante se eu tivesse feito uso de maconha, por exemplo – falemos da minha conquista de corações e mentes de uma galera que entrou em Viçosa, em 1980.
Conterrâneo, coisa rara em Viçosa – só conhecia Flávio e André, até então – me apresentei à Patrícia alguns dias antes da Marcha Nico Lopes. A marcha era como um desfile de carnaval – era guiada por uma banda contratada pelo DCE. Acontecia sempre antes de completar um mês de aulas.

Todo mundo fantasiado e muita gente bêbada de tropicar nas próprias pernas. A Nico Lopes – que nunca me inteirei sobre quem foi e nem com o Google aberto me interesso – obedece, ano após ano, a um tema político. Sua finalidade maior é integrar calouros e veteranos. Há os que participam do desfile, indo atrás do trio-elétrico improvisado; e os que apenas acompanham, das calçadas, colegas pagando mico. Eu e a Patrícia fomos juntos e encontramos no desfile ou fora dele, um monte de amigos dela e alguns conhecidos meus.
Conheci Denise Formoso, um pouco mais velha – uns 29 anos – uma das companheiras de apartamento de Patrícia. Baixinha e nada bonita compensava estes indesejáveis atributos com uma simpatia única. Fomos de cara um com o outro. Quem cumprimentou efusivamente Patrícia e a tentou levar, sem sucesso, para a Marcha, foi Maria, a mais desatinada de todas as meninas que conheci em Viçosa. Natural de Petropólis, morava em apartamento próprio – o pai dela tinha grana -
num prédio de três andares, bem em frente ao nosso apartamento na rua Olívia....—só me lembro do primeiro nome, sequer guardei o nome do bairro. Também adorei minha vizinha, dona de uma Variant branca.

Encontrei também Ricardinho, uma das boas amizades que fiz naquela pocilga onde moramos no primeiro semestre, mamadaço. E logicamente encontrei com André e Flávio, no comecinho da marcha, ainda no campus.

Cumprimentamo-nos como velhos amigos que sempre haveremos de ser, mas acho que naquela noite caíra por terra o jugo que André tinha sobre mim. Pela primeira vez me relacionava com outras pessoas que não as mesmas com as quais mantínhamos – os três, eu, André e Flávio – algum contato. E eram poucas, muito poucas...

Sei que minha amizade com Patrícia me franqueou acesso a muita gente. Vou lista-los: Kiko, Ramon, Beleza, Tiago, Pedro, Evandro, Claudio Lyra, Joanna, Denise Formoso e sua irmã, Lucinha, todos de Belo Horizonte; mais uma dezena e meia de amigos, tanto calouros como veteranos que, como eu, gravitava em torno do alto astral da turma de 80. Tinha trêsss cariocasss no grupo: o Jorjão – não fazia sentido chamá-lo de Georjão – Renata e Majo. Em minha débil lógica, achava que chamava-se Marjot, era descendente de franceses. Era linda. Uma tez queimada de sol e algumas sardinhas na altura do nariz. Uma versão aloirada de Malu Mader. Só que Majo – sem o t que imaginava gozar de ascendência francesa – era a abreviatura de seus dois nomes: Maria José.

Bem, nem preciso dizer que me apaixonei. E como andava seguro demais, disse isto a ela. Só identifiquei lisonja em seu rosto. Nem um sim, nem um não. Também seriam respostas e num perguntei nada a ela. Só evidenciei algo que estava estampado na minha cara.

A sinceridade, o bom-mocismo, a afabilidade e sobretudo, o entusiasmo, foram vitais para que ganhasse a total confiança daquelas pessoas que viam Viçosa com olhos muito mais carinhosos que os meus. Mas estes sentimentos que geraram esta empatia com o povo que entrara em 1980 era genuíno (Alcione, bem sei que eu só disse o quanto era venerado pelos calouros. Não há uma passagem sequer que mostre o quão agudo era meu senso de equipe e quão rápido era meu tirocínio. É que isso não é ficção, aconteceu mesmo comigo. E as lembranças...algumas foram-se com os meus cabelos...). Era e me sentia um herói.
Por um perigoso lapso de tempo, ignorei completamente o que era medo. Um exemplo cabal dei uns dias antes de subir no Fiat da polícia do campus. Foi durante a semana, por volta das dez da noite. Depois de um dia cheio numa universidade vazia de alunos, mas repleta de novidades para mim, estou eu entrando numa padaria para comprar pão integral e queijo. Nunca me chamou à atenção aquele séquito de bêbados atrás da monarca “branquinha”. Até porque estes eram figurinhas fáceis em Viçosa. Nunca vi cidade com tantos botequins, e consequentemente, bebuns. Assim, os pinguços se proliferavam nas esquinas feito moscas.

Mas eu não era detentor desta razão tão mesquinha que caracteriza a imensa maioria dos mortais. Ou melhor, eu não detinha, naquele momento qualquer resquício de sentimentos baixos. E me veio tão tola quanto altruísta pergunta, seguindo-se a um óbvio comentário: “Nunca levei um bêbado até a casa dele. Num é que uma boa idéia?”

Estavam fechando a padaria, os empregados já abaixavam o gradil das portas e acordavam um bêbado conhecido deles e de clientes contumazes.

-- Acorda, Adão. Vá para casa...Já estamos fechando... – disse-lhe o cara que há pouco me vendera pão e presunto.
Àquela altura, ele era o único bêbado no local, dormindo no chão do estabelecimento. E era tratado com um misto de complacência e pena pelos empregados.
Adão, um escurinho ensebado com roupas idem, acordara, mas não saíra do transe imposto aos bêbados. Com voz pastosa dirigiu-se ao sujeito que lhe acordara:
-- Que horas são, Paulinho?
-- A mesma (sic) de ontem. A gente fecha a padaria sempre 20 pras dez e toca você – respondeu-lhe o atendente, com uma vassoura na mão.
Adão só se arrastou pra fora da padaria, se esparramando na calçada em frente.
Foi quando cheguei para ele e me apresentei, como às minhas intenções.
Adão me olhou tão ressabiado quão um cara às vésperas de coma alcóolica pode olhar. De quebra, emendei:
-- E a gente leva ainda presunto e pão para a sua casa.
Adão ainda tentou ficar de pé para me encarar “olho no olho” e descobrir meus reais interesses. Afinal, por que um menino branco se interessaria por um bebum preto e sujo como ele?

Mas a tentativa de ficar em pé quase resultou em tombaço. Assim, quando, ofereci ajuda -- referia-me, agora, a algo mais imediato, a dificuldade de ficar de pé – foi suscinto.
-- Acho que bêbo como tô, num vô conseguir chegar em casa –- disse Adão, com fala pastosa e que só prestando muita e exclusiva atenção era possível compreender e, assim mesmo, não tudo.

Incapaz de ficar de pé sozinho, respondeu com um grunhido, o que entendi como um “sim” à minha proposta, formulada mais uma vez.

Tratei de pôr logo mãos à obra, primeiro passando a corrente com o cadeado prendendo a bicicleta num postinho magro e há muito esquecido pela CEMIG, a companhia de eletricidade de Minas. Sem mais me preocupar com a bicicleta, cuidei de meu objeto de atenção: o encachaçado Adão.

-- Onde você mora, companheiro?
O cara tava tão bêbado que não me respondia por absoluta surdez etílica.
Olhei em volta e o cara que o acordara, Paulinho, já tomava o rumo de casa, quando lhe abordei, perguntando se sabia onde Adão morava.
-- Sei que tem que descer esta ladeira toda – nós estávamos no alto de uma rua íngreme pacas – Mas precisar onde ele mora, não posso – disse-me Paulinho, capanga (um dos acessórios mais bregas do vestuário masculino, ainda mais brega que a pochete) presa ao pulso direito.
Emendou uma pergunta na resposta:
-- Cê num tá pensando em leva-lo em casa, não, tá?

Diante da minha confirmação com a cabeça e um vago “hum, hum”, ouvi a primeira de várias advertências sobre a inutilidade do meu ato.
-- Este sujeito é um pinguço! Amanhã ele volta a encher a cara e ficar num canto, feito um cão. Deixa ele. Amanhã quando acordar, ele toma o rumo de casa – falou Paulinho, a quem agradeci, já amparando Adão, e seguindo o caminho que o funcionário da padaria indicara.
Adão exalava aquele fedor típico de quem não via banho há dias; aquele cheiro ocre de suor
várias vezes seco, sem ver água. As roupas também estavam imundas. Adão ostentava um machucado no alto do nariz, que já tinha alguns dias, uma vez que apresentava aquela casquinha de cicatrização. Pelo local do machucado, era fruto de alguma queda do bebum.

Inicei na padaria, uma autêntica via-crúcis, com as bíblicas estações substituídas por pés-sujos. Como não sabia exatamente onde o cara morava e no caminho da casa dele tinha mais de uma dezena de botequins, de tempos em tempos, eu perguntava se conheciam Adão e se sabiam onde ele morava.

Eu me imaginei personagem de uma parábola. A “Parábola da Negação”. Pois a cada parada, só ouvia “deixa ele aí”, “ele é um vagabundo cachaceiro”, “amanhã vai estar bêbado de novo” e outras sandices semelhantes.

E enquanto levava Adão para casa, fui percebendo que o cara tinha medo! Não consegui saber de que, pois a fala era muito arrastada, incompreensível. Falamos pouco durante o trajeto, isto é, eu falei. Pedi que facilitasse a mim, que além de estar escorando um cara um pouquinho mais pesado do que eu, no meio do caminho resolvera deitar na calçada e apagar por ali mesmo.

--- Adão! Adão! Vamos embora... Já estamos perto de sua casa. Falta pouco. Vamos lá. Eu te levo na cacunda – sugestão prontamente acatada pelo neguinho cujo cheiro empesteava o ar.
Paramos para tentar localizar a casa do cara em quatro botequins, duas padarias
e um mercadinho. Isso em pouco mais de um quilômetro e cem metros – distância da padaria onde encontrara Adão e o casebre onde morav. Não podia dar chance ao azar. Não queria andar um metro a mais sequer com o bebum a tira-colo. A mesma cantilena repetiu-se em todos os lugares em que pedira informação. “Deixa o cara aí. Tá chapadaço.”, “Amanhã esse bebum volta a encher a cara e você cisma de levá-lo no casebre onde ele mora?” “Larga a mão disso, rapá! Encosta este pé-de-cana num canto qualquer!” Ouvi frases como esta em meio a outros estimulantes comentários.

Se enchesse Adão de bicudas, cobrisse o cara de porrada, acho que ninguém ia intervir; era até bem provável que me ajudassem a espancá-lo. Eles podiam não saber por que batiam, mas o bebum certamente sabia porque apanhava, deviam pensar.

Negociei com o bêbado, e só andei com ele nas costas uns 200 metros. À medida que nos aproximávamos daquilo que era o segundo lar de Adão; o primeiro, sem dúvida, era as calçadas e sarjetas imundas da cidade, onde dormia e acordava dias seguidos depois de “cachaçadas” homéricas, notara uma inquietação no rosto dele.

Pois descobri a razão da inquietação de Adão no penúltimo lugar onde paramos e perguntei se o dono ou algum atendente do pé-imundo sabia onde o cara morava.
--- Porra, Adão!! Cê num se emenda, né, seu merda!? Num é à toa que o Julião vive te enchendo de porrada! – disse-lhe o caboclo atrás do balcão, curto até mesmo para um mínimo pé-inchado, como aquele boteco xexelento.
--- Amigo, alguém aqui te xingou? – interpelei o atendente, que já desconfiou que fez besteira ao xingar Adão.
Modulando seu tom uma oitava abaixo, o sujeito tentou minimizar o que fizera:
-- Não. É que este cara vive bêbado; tá sempre caindo pelas tabelas e até obrigou o senhor a trazê-lo aqui...
-- Primeiro, ao que me consta, ele não perturba ninguém aqui. Do contrário, num estaria bebendo cachaça lá na (rua) Adamastor (Nunes), há quase um quilômetro deste pé-sujo. Segundo, ninguém sequer me pediu para trazer o cara em casa. Tô fazendo isso porque quero. E terceiro, e o mais importante: não fossem pinguços como ele, você num teria emprego.
E não parei não:
-- Ou acha que o dono deste botequim ia precisar de você só para servir média com pão com manteiga de manhã? Por isso, acho que todo dia, antes de dormir, você deveria agradecer a Deus por existir cachaceiros como ele. E rogar para que bêbados que nem o Adão continuem a encher a cara de cachaça.

Disse isso e imediatamente chamei Adão para deixarmos o pé-sujo. Já íamos descendo a rua, quando o funcionário do boteco – chamava-se Ernesto ou algo parecido – veio de dentro do botequim aos berros de Ei, Ei – obviamente tentando chamar minha atenção – enquanto tremulava freneticamente um pano
com qual ora limpava as mesas, ora enxugava o suor que escorria abundantemente do rosto gordo, agora vermelho e cansado, embora a distância que nos separava não chegasse a 20 metros.
Paramos e nos viramos para o gordo.
-- Olha, cê me desculpe. Não tive intenção.... – falou o atendente, sem completar a frase, ofegante que estava, com a corrida para nos alcançar.
Eu levantei a mão, em sinal de que estava tudo bem. E já me virava rumo onde achava ser a casa de Adão, quando Ernesto nos alcançou.
-- Peraí, moço – disse o cara do boteco, acrescentando a urgência de me contar algo.
–- Se vai levar o Adão pra casa dele, é bom se prevenir. Este caboclo tem um irmão que desce o cacete nele. É só encontrar com ele naquele barraco – e apontou para uma casinha isolada, a uns 300 metros do botequim, com o jardim, ou melhor, o capim, que a cercava, recém-aparado – que o Julião desce porrada nele.

-- E ninguém, vizinho algum, faz nada? Simplesmente, deixam o cara apanhar? E bêbado assim é alvo fácil...
-- Ninguém se mete. O irmão até bebe uma vez ou outra. Mas nunca como este aí. É trabalhador e num fosse ele, o Adão não teria onde dar com os costados. Ou comer um prato de comida. Pro povo, o cara tá certo. Também acho que tá certo. Só acho que às vezes, o cara extrapola. Tem dia que o Adão sequer consegue andar. Uma vez o sujeito quebrou uma cadeira nas costas do Adão. O bebum quebrou três costelas. E os dentes, então? Se Adão é banguela, certamente
Não é por causa dos tabacos que ele vive
tomando. A razão é outra. Os murros do Julião deixam a cara do Adão em petição de miséria – contou-me Ernesto, cessando a ladainha por breves segundos, só o tempo suficiente para tomar fôlego. E continuou: --E Julião num é o nome do cabra. É aumentativo de Júlio. Já viu, né? É um negão que mais parece um armário de Sicupira... Por isso é bom tomar cuidado. Se eu fosse o senhor, deixava o sujeito aí. Deixa ele decidir
se quer dormir na rua ou prefere entrar na porrada e dormir sobre um teto.
Agradeci ao atendente antes que ele engatasse um outro papo sobre as proezas etílicas do armário de Sicupira.
O medo estava agora estampado no rosto de Adão. A conversa ccom Ernesto teve um efeito devastador para o bebum. Mas não me abalara nem um pouco.
Pois se o que me faltava em fortaleza física (era magro e nanico -- media mais ou menos ínfimos 1,65m, hoje sou dois ou três centímetros mais baixo) me sobrava em têmpera, determinação e coragem. Nada a ver com o cara que hoje hesita até diante de um cágado -- ou do adjetivo, sem acento.

Mas Adão pelava-se de medo. Estava até mais lívido, não fossem as nódoas de sujeira que lhe conferiam, junto com a voz pastosa de bêbado, um ar abjeto, miserável.

Agora o cara queria fugir dali, ficar o mais distante possível do irmão violento, dos murros e pontapés aos quais nunca reagira e que deixavam marcas. Fiquei sabendo depois de muito insistir em compreender seus grunhidos, que fazia uns dois meses que não aparecia em casa.
--- Mas a casa não é sua também? Não foi o único bem que seu pai deixou para vocês dois? Então a casa é tanto sua quanto dele -- observei, apresentando argumentos oferecidos pelo próprio Adão, na longa marcha de pouco mais de um quilômetro, que já durava perto de duas horas.

Prometi a ele que não deixaria o irmão violento tocar nele. O encachaçado Adáo limitou-se a me olhar de cima abaixo como a dizer "e é você que vai impedí-lo de me dar porrada? rarárá...conta outra".


Não arredou o pé de onde estávamos até que o convenci a irmos até o botequim quase em frente à pequena casa caiada de branco, com borrões escuros nas partes inferiores das paredes, vindos do chão úmido. Se não ouvíssemos barulho nem víssemos luzes acesas, era sinal de que Julião não estava em casa. Afinal, era sexta-feira. E as possibilidades de seu irmão estar enchendo a cara em outro canto da cidade eram grandes.


Adão foi comigo até o pé-sujo, menos por acreditar no meu poder de defesa, mais pela chance de dormir uma noite, uma única noite sem acordar com bicudos e safanões de funcionários dos bares, gente que não se importava que bebessem até cair, desde que não tivessem que põ-los de pé no dia seguinte.

Pedi uma água sem gás; Adão um traçado com mel. Mas diante da minha negativa muda de pagar pela cachaça quando o cara que nos serviu hesitara e me olhara como que pedindo meu aval, de nada adiantaram as seguidas reclamações de Adão. Ouvi a mesma ladainha: que o cara era um bebum --- como se isso pudesse ser novidade a qualquer um que passasse a cinco metros do sujeito, quanto mais a mim, que vinha sustentando o cachaçeiro com seu cheiro azedo há duas horas; que já estava acostumado a dormir na calçada; e pasmem!, antes de ser um aviso a minha integridade física, a existência do irmão violento era a justiça encarnada, quase uma lei bíblica tão arcaica quanto a dantesca '"olho por olho, dente por dente".

Bem, mas eu e Adão permánecemos dez, 15 minutos observando atentos se havia alguma movimentação na casa , e nada! Barulho nenhum; na casinha reinava uma escuridão só. Isso era sinal de que Julião passaria a noite fora e na manhã seguinte chegaria tão cansado que só notaria a presença do irmão inúti quando acordasse, geralmente, no meio da tarde seguinte. Segundo Adão, quando o irmão acordasse, há muito ele estaria longe da casinha.

Seguros de que não encontraríamos com Julião na casa, atravessamos a rua e fomos logo invadindo o capinzal/jardim da casinha caiada de branco. Uma dúvida me fez parar antes mesmo de divisar a porta da casa.

--- Ih!! Me diz uma coisa: cumé que a gente vai entrar na casa? Duvido que você carregue uma chave consigo...-- falei, enquanto freiava bruscamente o quase galope que nos conduzia rumo á porta.



Nisso, vislumbrei, graças a um relâmpago que a todo escuro iluminou, um tanque em frente à porta da modesta casinha. Havia um amontoado de panelas e pratos sujos. Imundos, ainda com resto de comida mixado a um filete de água que insistia em pingar, embora a torneira exibisse um pano preso à guiza de contenção do vazamento. Diante da minha súbita brecagem, Adão seguiu em frente e estabacou-se. Mas agarrando-se a mim, ergueu-se e respondeu minha pergunta:
--- Tem erro não. Nas sextas, ele deixa sempre a chave num vaso de guiné e comigo-ninguém-pode -- disse, procurando a chave num dos vasos que ladeiavam a porta da casa.

Nisso, esbarrei na porta, que não dispunha de maçaneta, e ela se escancarrou toda, emitindo um gincho à medida que se abria.

Mal notou que a porta da casa abrira, Adão tratou de entrar, tropeçando em mim e se esborrachando no chão averrmelhado. Mas não se machucou. Rapidamente, levantou-se, apoiando-se na porta semi-aberta e procurou o interruptor.Click, click e necas de luz.

-- Caramba, será que cortaram a luz? -- falou em tom normal, Adão, nem baixo nem alto.

Estava um bréu dentro da casa. Minhas pupilas não se acostumaram rapidamente à escuridão, de modo que quando percebi que diante de mim tinha uma esteira, chamei Adão, ainda confuso diante da falta de luz, mantendo a porta semi-aberta.

-- Deita aqui logo e encosta este treco -- um aquecedor a gás, também conhecido como 'rabo-quente' -- na porta. Pesa o suficiente para manter a porta encostada, e não impedirá seu irmão de entrar -- disse, enquanto Adão se aninhava na esteira.

Estava me preparando para deixar a casa, quando ouço uma voz tonitruante berrar comigo, me cortando a saída.

-- Que porra é essa?Agora este cachaceiro precisa que playboys tragam ele em casa? -- perguntou, Julião, já esculachando nós dois.

Apesar da estrondosa voz, ainda era impossível divisar a silhueta de quem emitira a ofensa no bréu do quarto. Mesmo sem conseguir vê-lo, fui bem direto e ousado:

-- Você deve ser o Julião, o irmão que desce porrada no bebum do Adão. E só espanca o caboclo quando ele sequer pode reagir... Bonito... e covarde.

--- Você num sabe da missa a metade. Este puto que deve estar todo cagado de medo atrás de você só faz encher a cara, num bota um vintém sequer em casa -- a voz agora era esganiçada, contrastando com o tom gutural da primeira vez.
--- Desculpe, senhora, sequer podia imaginar que estivesse aqui... --- disse, sendo bruscamente interrompido pela "gentil dama":

--- Senhora é o caralho!! Sou puta mesmo e só estou debaixo
do Julião porque depois ele me paga.

Diaante de tamanha finura, senti que seria perda de tempo tentar catequizá-los e fui na canela.

-- Me faz um favor, Julião? Num desce o braço no seu irmão hoje não, tá? -- e concluí: -- E quando ele acordar, dê um café da manhã decente pra ele, sim? Tô deixando 40 paus. Compra pão, manteiga, leite e dá pra ele, beleza?

E antes que o armário de Sicupira viesse até mim -- o cara devia estar pelado -- encostei a porta da casinha caiada de branco, dei-lhes um audível "Boa noite"
e parti de minha aventura mundo-cão.


Antes do terceiro passo rumo ao meu universo -- aquilo ali nada tinha a ver comigo, pensei e agradeci -- Julião pôs a cabeça -- encimada por uma carapinha curta -- e com voz que nada lembrava a tonicidade de dois minutos atrás.

-- Pode deixar que não vou bater nele, não. Adeus e muito obrigado. Vai com Deus -- disse num "gutural suave". Olhei para trás, vi o rosto do irmão que espancava porque se achava dentro do sistema, sorri para ele e bati continência com dois dedos em riste.


Isso aconteceu sexta à noite. Portanto, não era de se espantar que no dia seguinte eu pulasse em cima de um fiat da polícia do czmpuss.
A cena era chapliniana. À frente de uma multidão, que se aglomerava nas escadarias do refeitório, descia pela calçada e alcançava o estacionamento, uma figura pequena, magra, esquálida até, gritava palavras de ordem na mais concorrida assembléia realizada naquele começo de ano, o último da década de 70 do século passado, 1980.



- A gente não pode continuar se curvando diante dos desmandos da reitoria. Senão em breve o bandejão vai estar custando 50 merrecas (não tenho mesmo como lembrar da moeda vigente). Só que aí num vai dar mais para lutar não. A gente tem que contestar este aumento no bandejão hoje, agora – fremia Noel, um baiano de bigodinho e alguma influência sobre a audiência, embora fosse notoriamente radical.



Era apenas a segunda pessoa a falar naquela assembléia que decidiria se haveria greve ou não. Mas antes que ele terminasse seu inflamado discurso, André e Flávio já tiravam o cadeado de suas bicicletas e preparavam-se para voltar ao nosso apartamento.

-- Vam’bora, Eros. Vai ser a ladainha de sempre e este bando de vagabundos vai decidir pela greve. A gente se adianta e começa a fazer as malas. Assim, amanhã a gente pode estar indo pro Voltaço – disse-me André.



Eu permaneci sentado no meio-fio, de onde ouvia bem o discurso e via as peripécias corporais de Noel, segundo muitos alunos, um estudante profissional, havia pelo menos seis anos em Viçosa.

-- Vou não, André. Vou ficar até o fim da assembléia. Aí eu conto em primeira mão se a greve foi decretada ou não – prometia.

André achou absurda minha posição:

-- Cara, cê num vai ficar aqui escutando este monte de baboseira, dita por um monte de jeca, vai?

- Vou, André. Vou ver no que vai dar – finquei pé, enquanto André e Flávio montavam em suas bicicletas.

- Então vamos logo, André. Deixa ele aí... Tô morrendo de sono – disse Flavão, referindo-se a uma prática mantida religiosamente por nós três, depois do almoço de domingo: tirar uma sesta de uma, uma hora e meia.

Flávio era um conterrâneo que só tínhamos conhecido lá em Viçosa, logo nos nossos primeiros dias de faculdade. Nos demos hiperbem e duas semanas mais tarde, ele já tinha se mudado para a pocilga, ou melhor, para a pensão onde resistimos o primeiro semestre de UFV. Ele era da mesma igreja, batista, eu acho, que o Muel, um vizinho e amigo de infância. A igreja ficava no bairro do Aterrado, em Volta Redonda, e Flávio não morava muito longe da igreja, não.



Não deu outra. Depois de uma hora e meia de falação, procedeu-se uma votação entre os presentes e tomou-se a greve como decisão majoritária. Fui voto vencido. Eu e mais uns dez manés que tiveram coragem de externar sua discordância diante de uns 500 fanáticos defensores da greve. O motivo para a paralisação imposta pelos alunos: uma elevação de três (3) merrecas no preço do bandejão. A refeição iria de oito para 11 merrecas.



Continuaria a custar porra nenhuma, ainda mais levando-se em conta a qualidade da comida.



Era excelente. Um nutricionista sempre acompanhava in loco as refeições e estava aberto a reclamações (muitas, como em qualquer serviço público) e sugestões (poucas). Tudo era anotado em folhas dispostas sobre pranchetas coloridas.



Não havia como comparar com a comida servida na Federal do Rio, por exemplo. Tá, o bandejão custava centavos, mas assemelhava-se a lavagem servida a porcos. Frequentemente eram encontrados pregos, arruelas e parafusos na comida; até um band-aids foi achado em meio aos grãos de feijão e virou foto ilustrando reportagens nos jornais cariocas.



Bem, decidida a paralisação tratei logo de me inteirar dos comitês de greve e do que cada cuidava. Estava interessado em um que era para comprovar que o aumento de três merrecas ia bagunçar a vida financeira dos alunos que dependiam do Crédito Educativo.

Era um sistema de crédito com o qual o Governo Federal subvencionava a permanência do aluno na faculdade. Três anos depois de formado – acho que era este o intervalo -- o estudante era obrigado a começar a ressarcir a União.

E em Viçosa era grande o número de alunos que dependiam do crédito. Nós conhecíamos um cara, colega de dois baianos “porretas” dos quais nós (eu, André e Flavão) nos aproximamos muito nos primeiros tempos de Viçosa.

O cara chamava-se Sérgio, morava num quarto na mesma pensão em que Artur e Boca, os baianos, moraram no primeiro semestre de 1979, primeiro ano de todos nós em Viçosa.

E o sujeito cortava um dobrado para se manter. Sua única fonte de renda era o Crédito Educativo. Os pais, moradores de Niterói, não podiam bancá-lo, mesmo numa escola pública.

E agora Serginho estava numa sinuca de bico. Tudo que não queria era uma paralisação que lhe frustrasse os planos de se formar no fim do ano. Mas não havia como ser contrário à greve. Segundo garantira para mim, André,o baiano Artur, e pra quem se aproximasse dele.



Agora, imagina o Serginho, um pusta CDF, com uma média de nota superior a 8,5, fazendo piquete no prédio de Solos, onde era monitor da matéria Solos 4?!!!!!

A bolsa do Crédito Educativo era reajustada de dois em dois meses. E naquela década, a de 1980, a inflação galopava na casa de dois dígitos mensais. Sobreviver com a grana do crédito era algo impensável para nós, filhinhos de papais da classe média.

Tudo aumentava. Era mais do que compreensível que subisse também o preço do bandejão, o que não acontecia há pelo menos três anos. Ainda que dobrasse o preço da comida, a universidade continuaria a subvencionar, com muita verba, a ótima bóia servida no restaurante central.



Estes dramas pessoais, como o do Serginho, e a sincera disposição de dar uma guinada de 180 graus na minha vida em relação à cidade, à UFV e a seus estudantes foram o que motivara a transformação de meus dias de greve num vendaval de reais e doloridas mudanças.



Na mesma noite em que foi decretada a greve, fiquei conhecendo um camarada chamado William, um dos líderes da greve. Sua estampa nem de longe lembrava um típico grevista. Nada de cabeleiras e barbas que remetiam a Che e a Fidel, a clássica figura de um revolucionário. Uma imagem limpa que contrastava com outros líderes grevistas, que faziam questão de parecer o mais sujo possível. Acho que a sujeira ajudava a consolidar o ar obscuro e o par de olhos verdes naquela cara dissipava aquele pedantismo tão arraigado àqueles que faziam política estudantil.

-- Ué, mas você não foi contrário à greve? – perguntou-me William antes de passar instruções a mim e à uma menina, que ficaria incumbida do dormitórios femininos mantidos pela universidade para quem não tinha como se bancar.

Dei-lhe a resposta mais politicamente correta possível.

-- Sou contra a greve, mas fui voto vencido. Eu quero participar agora, Ver se esta bosta de greve tem alguma razão de ser – disse-lhe, sendo sincero.



William, que era aluno de um curso não muito comum, algo parecido com técnico em laticínio olhou para mim e para Goretti, era assim que se chamava a garota que investigaria os alojamentos femininos, e disse:

-- Amanhã, lá pelas nove da manhã, cês começam. Ao longo do trabalho, se vocês sentirem dificuldades, coloco mais gente para ajudar vocês. E a gente se encontra às sete e meia da noite para vermos como foi o primeiro dia de trabalho – disse William, despedindo-se de nós.

Fiz o mesmo com Goretti e fui de bicicleta para casa.

Passava de nove da noite quando cruzei a porta dos fundos lá de casa. A da frente, de vidro e de correr, davamorto, que bem representava nossa relação com a cidade. O cômodo mais nobre da casa estava cheio de tralhas.

Encontrei Flávio e André ouvindo Queen. A primeira coisa que ouvi foi uma pergunta feita em uníssimo pelos dois:

-- Declararam greve?

-- Ham, ham – respondi.

-- E você ficou na assembleia até o final? Aquela chatura, insuportável. Cê é um pastel mesmo – disse-me André.

-- Nós já começamos a fazer as malas e zarpar amanhã cedo pro Voltaço – falou Flávio, acrescentando: -- Começa a fazer a sua ainda hoje...Se tivermos sorte, vão ser, pelo menos, duas semanas no Voltaço...Êba!



Eu tirei os tênis e mergulhei na minha cama. Disse-lhes de maneira a não deixar dúvidas quanto à minha decisão de não estender as férias recém-encerradas:

­-- Olha, eu não vou para Volta com vocês. Quero entender o porque desta greve. E já que vou passar pelo menos mais três anos aqui, vou tentar conviver com os nativos e os jecas da cidade.



Eu já sabia de cor e salteado o que o André achava dos grevistas, e até certo ponto concordava com ele. Mas, ainda assim, seguiu-se a velha cantilena enfatizando “vagabundos”, “grevistas profissionais”, “greve por umas merrecas”. Seu discurso trazia uma novidade: a surpresa por eu passar para o lado dos “vagabundos”. Flávio nada dizia, limitando-se a balançar a cabeça nos pontos mais fortes do discriminatório e recorrente discurso de André.



-- André, eu ainda tenho pelo menos três anos e meio de Viçosa. Não quero passar todo este tempo odiando a universidade e os alunos daqui, esta jecaiada , como você diz. Quero e vou me integrar, fazer novos amigos – disse.

Acho que foi nesta ocasião que o André emendou de bico, com uma frase lapidar.

-- Eros, os amigos que eu tinha que fazer eu já fiz. Daqui pra frente serão só colegas e conhecidos -- disparou, convicto, no alto de seus recém-completados 19 anos.

Confesso que a sentença, extrema e descabida de propósito (o cara era muito novo para uma afirmação tão taxativa) em vez de me alarmar, me deixou foi muito lisonjeado. Eu sabia fazer parte daquele seleto clube de eleitos por André – ainda hoje um sujeito muito seletivo.

Mas sabia que ouviria muito por minha decisão de ficar. E realmente André falou pra caramba, tentou me convencer a ir com ele e Flavão pro Voltaço. Mas eu também estava irredutível. Desta vez, iria me integrar a Viçosa.

No dia seguinte, tão logo André e Flávio seguiram para Volta Redonda, eu também deixei a casa, de bicicleta, rumo à universidade.
Fui direto para os alojamentos masculinos, que ficavam num prédio recém-construído em frente ao lago. Tão novo quanto os alojamentos, era o lago, que brotara do desvio do curso de um riacho que passava nos fundos da pensão/república/pocilga na qual resistimos o primeiro semestre em Viçosa.

Conversei com uns camaradas que conhecia e subi rapidamente para os quartos. Eram dois prédios relativamente pequenos. Tinham três andares cada um, algo entre dez e 14 quartos em cada andar e dois beliches por quarto, que ainda contavam com duas escrivaninhas e dois armários. Ou seja, o espaço para circulação era mínimo.

Obedecendo a um esquema simples e óbvio, fui primeiro ao primeiro quarto do primeiro andar, o 101. Lá, encontrei os quatro alunos que dividiam o apartamento.

Apresentei-me e fiz um inventário montado com perguntas sugeridas por Williams e outras de cunho próprio. Os dois primeiros casos o que os caras gastavam não fechavam com o crédito educativo e só com a parca grana mandada de casa conseguiam equilibrar o orçamento. Com um aumento de sete merrecas por dia, além do aumento de três no almoço e no jantar, o café da manhã aumentara de três para quatro merrecas, teriam que cortar um os maços de cigarros; o outro teria que cortar radicalmente o cineminha dos fins de semana. E olha que nem computei gastos com roupas e calçados. Ouvi os dois outros moradores do 101 e apertando muito o cinto – os pais não eram tão pobres – dava para manter os pequenos vícios (meio maço de cigarros e porres de cachaça quinzenalmente em qualquer botequim), além de fazer as duas refeições mais o café da manhã devidamente majorados.

Em questão de minutos, minha presença, ou melhor, a presença de um recenseador, se espalhou pelos alojamentos masculinos.
E a informalidade tomou conta de meu questionário de maneira indelével . Foi uma manhã e uma tarde – separadas pelo almoço, por incrível que pareça o bandejão da universidade continuava a servir café da manhã, almoço e jantar pelo preço antigo para os grevistas – atípicas. Conversei longa e amistosamente com sujeitos que em outros tempos, sequer trocaria xingamentos.
Donos de sotaques típicos do interior de Minas e São Paulo eram motivo de galhofa pelos três volta-redondenses. Mas eu quebrei a cara. Os sujeitos que falavam o dialeto da poRteira veRde do BeRnaRdo eram legais. As únicas diferenças conosco eram o sotaque e os hábitos caipiras arraigados – como a adoração àquelas fivelonas nos cintos e o uso indiscriminado de botas.

Mas tinham as mesmas inseguranças que eu, André e Flávio. Os mesmos medos, as mesmas incertezas, hoje borrões esmaecidos em personas de 50 anos ou quase.

E foi naquele recenseamento, informal, uma verdadeira festa onde conversei com muita gente e coletei opiniões congruentes e bem embasadas que virei implacável, ardoroso e intransigente defensor da greve.
Sem percorrer os 90 apartamentos dos dois prédios, conversei com quase todos moradores. A carência era grande, sim. Assim como descobri uma verve que não sabia ser minha. Tinha resposta para todo questionamento e acho que pela primeira vez na vida, me senti protagonista. Afinal, minha presença tinha catalisado a atenção de perto de 300 estudantes.

A anarquia e a espontaneidade daquele primeiro contato com os grevistas foram marcantes. Foi a minha primeira ação sem a tutela de André, até hoje meu melhor amigo, e desde aquela época um direitista com tendência a deletar posturas de esquerda. E sempre que discutíamos sobre política, ele argumentava (argumenta) muito bem, enquanto eu não conseguia expandir meus pontos de vista; era (sou) uma hesitação só.

E pela primeira vez, estava vendo Viçosa como realmente era e estava gostando do que via. Apesar de ter entrada na UFV em 1979, foi com calouros do ano seguinte que me sentia à vontade. Dois fatores contribuíram para minha integração com este povo.

Primeiro, tinha uma conterrânea entre os calouros de 1980. Uma menina chamada Patrícia Bustamante. Sorriso farto e sincero, companhia e papo agradabilíssimos. Teria me apaixonado, tivesse alguma dúvida quanto ganharia com sua amizade.

Ao mesmo tempo em que me maravilhava com a genuinidade agreste de uma menina nascida em Volta Redonda, fui me encantando com caras e meninas dispostos a vivenciar e conhecer pra valer Viçosa. Se a universidade estava em greve, não faltava o que fazer por lá.

Havia uma dezena de atividades a serem desenvolvidas pelos alunos em greve em Viçosa. Os habitantes de Viçosa eram, em sua maioria, pequenos agricultores. E embora minha experiência fosse nenhuma, assim como a dos calouros, eram mais braços e disposição para ajudar a semear, limpar terrenos e podar árvores. Ou seja, mais gente para obedecer aos aldeões. E mão-de-obra gratuita. Sem amigos entre os poucos alunos do segundo ano que ficaram na cidade, expandi exponencialmente minhas amizades. Os calouros achavam que era um deles – e eu era. Meu debut em Viçosa estava sendo no meu segundo ano de faculdade.

Nunca, em toda a minha vida, me senti tão livre. Sim, eu fugia de minha mãe e de sua maldita doença, que gradualmente reduzia sua capacidade de lutar contra aquela ferida aberta no seio da família. A doença de Machado Joseph fechava todas as rotas de fuga.

Quando bati em retirada de casa para estudar em Viçosa, minha mãe há muito já não andava, e a doença já comprometera os movimentos de braços e mãos – minha mãe já precisava que lhe déssemos comida na boca. Era difícil entender o que falava – a desfasia era outro legado da Machado Joseph – e até para mudar o corpo de lado na cama precisava de ajuda.
Meu pai, nos últimos anos de vida de minha mãe, entrara em rota de colisão com a vida e deixar minha casa foi um pusta ato de corvadia, mas não me arrependo dele. Com 18 anos incompletos, eu achava legítimo – e continuo a achar -- querer ter minha própria vida. Acho que a distância de Volta a Viçosa foi, na época – inconscientemente, é claro – uma opção para ficar o mais distante possível do caos emocional que era minha vida em Volta Redonda. Afinal, tinha uma mãe jurada de morte por uma doença degenerativa e um pai ausente por incapacidade de lidar com nossa vida de merda.
E eu estava sozinho em Viçosa. Não tinha a quem prestar qualquer tipo de satisfação: não tinha hora para comer ou dormir. Ficava acordado a noite inteira, ouvindo todo tipo de música. Ia dormir com o dia clareando, acordava no começo da tarde, comia se e quando tinha fome.

Repeti ações politicamente corretas feitas sempre por calouros como caiar uma escola estadual, fazer hortas que pudessem contribuir para a merenda escolar. Paralelamente a estas atividades, me lembro de ajudar na área de zootecnia, botando porções de capim para cavalos em baias, e ia a uma área agrícola, era um tipo de fazenda onde desenvolvíamos alguns projetos e de onde eu avistei a plantação mais linda que jamais vi na vida. Um plantio de aveia, segundo alguém da universidade. Uma mancha verde, de um verde tão escuro, tão intenso, que parecia uma ilustração.

Foi de lá que vim montado em minha bicicleta como se montasse um cavalo. É uma imagem recorrente e lembro que estava sozinho e por algum tempo “cavalguei” minha Peugeout verde, como se ela fosse/estivesse animada, tivesse vida mesmo. Era óbvio que algo estava muito errado comigo!

Mas antes da zoeira absolutamente careta – o quê chega a ser muito mais preocupante se eu tivesse feito uso de maconha, por exemplo – falemos da minha conquista de corações e mentes de uma galera que entrou em Viçosa, em 1980.
Conterrâneo, coisa rara em Viçosa – só conhecia Flávio e André, até então – me apresentei à Patrícia alguns dias antes da Marcha Nico Lopes. A marcha era como um desfile de carnaval – era guiada por uma banda contratada pelo DCE. Acontecia sempre antes de completar um mês de aulas.

Todo mundo fantasiado e muita gente bêbada de tropicar nas próprias pernas. A Nico Lopes – que nunca me inteirei sobre quem foi e nem com o Google aberto me interesso – obedece, ano após ano, a um tema político. Sua finalidade maior é integrar calouros e veteranos. Há os que participam do desfile, indo atrás do trio-elétrico improvisado; e os que apenas acompanham, das calçadas, colegas pagando mico. Eu e a Patrícia fomos juntos e encontramos no desfile ou fora dele, um monte de amigos dela e alguns conhecidos meus.
Conheci Denise Formoso, um pouco mais velha – uns 29 anos – uma das companheiras de apartamento de Patrícia. Baixinha e nada bonita compensava estes indesejáveis atributos com uma simpatia única. Fomos de cara um com o outro. Quem cumprimentou efusivamente Patrícia e a tentou levar, sem sucesso, para a Marcha, foi Maria, a mais desatinada de todas as meninas que conheci em Viçosa. Natural de Petropólis, morava em apartamento próprio – o pai dela tinha grana -
num prédio de três andares, bem em frente ao nosso apartamento na rua Olívia....—só me lembro do primeiro nome, sequer guardei o nome do bairro. Também adorei minha vizinha, dona de uma Variant branca.

Encontrei também Ricardinho, uma das boas amizades que fiz naquela pocilga onde moramos no primeiro semestre, mamadaço. E logicamente encontrei com André e Flávio, no comecinho da marcha, ainda no campus.

Cumprimentamo-nos como velhos amigos que sempre haveremos de ser, mas acho que naquela noite caíra por terra o jugo que André tinha sobre mim. Pela primeira vez me relacionava com outras pessoas que não as mesmas com as quais mantínhamos – os três, eu, André e Flávio – algum contato. E eram poucas, muito poucas...

Sei que minha amizade com Patrícia me franqueou acesso a muita gente. Vou lista-los: Kiko, Ramon, Beleza, Tiago, Pedro, Evandro, Claudio Lyra, Joanna, Denise Formoso e sua irmã, Lucinha, todos de Belo Horizonte; mais uma dezena e meia de amigos, tanto calouros como veteranos que, como eu, gravitava em torno do alto astral da turma de 80. Tinha trêsss cariocasss no grupo: o Jorjão – não fazia sentido chamá-lo de Georjão – Renata e Majo. Em minha débil lógica, achava que chamava-se Marjot, era descendente de franceses. Era linda. Uma tez queimada de sol e algumas sardinhas na altura do nariz. Uma versão aloirada de Malu Mader. Só que Majo – sem o t que imaginava gozar de ascendência francesa – era a abreviatura de seus dois nomes: Maria José.

Bem, nem preciso dizer que me apaixonei. E como andava seguro demais, disse isto a ela. Só identifiquei lisonja em seu rosto. Nem um sim, nem um não. Também seriam respostas e num perguntei nada a ela. Só evidenciei algo que estava estampado na minha cara.

A sinceridade, o bom-mocismo, a afabilidade e sobretudo, o entusiasmo, foram vitais para que ganhasse a total confiança daquelas pessoas que viam Viçosa com olhos muito mais carinhosos que os meus. Mas estes sentimentos que geraram esta empatia com o povo que entrara em 1980 era genuíno (Alcione, bem sei que eu só disse o quanto era venerado pelos calouros. Não há uma passagem sequer que mostre o quão agudo era meu senso de equipe e quão rápido era meu tirocínio. É que isso não é ficção, aconteceu mesmo comigo. E as lembranças...algumas foram-se com os meus cabelos...). Era e me sentia um herói.
Por um perigoso lapso de tempo, ignorei completamente o que era medo. Um exemplo cabal dei uns dias antes de subir no Fiat da polícia do campus. Foi durante a semana, por volta das dez da noite. Depois de um dia cheio numa universidade vazia de alunos, mas repleta de novidades para mim, estou eu entrando numa padaria para comprar pão integral e queijo. Nunca me chamou à atenção aquele séquito de bêbados atrás da monarca “branquinha”. Até porque estes eram figurinhas fáceis em Viçosa. Nunca vi cidade com tantos botequins, e consequentemente, bebuns. Assim, os pinguços se proliferavam nas esquinas feito moscas.

Mas eu não era detentor desta razão tão mesquinha que caracteriza a imensa maioria dos mortais. Ou melhor, eu não detinha, naquele momento qualquer resquício de sentimentos baixos. E me veio tão tola quanto altruísta pergunta, seguindo-se a um óbvio comentário: “Nunca levei um bêbado até a casa dele. Num é que uma boa idéia?”

Estavam fechando a padaria, os empregados já abaixavam o gradil das portas e acordavam um bêbado conhecido deles e de clientes contumazes.

-- Acorda, Adão. Vá para casa...Já estamos fechando... – disse-lhe o cara que há pouco me vendera pão e presunto.
Àquela altura, ele era o único bêbado no local, dormindo no chão do estabelecimento. E era tratado com um misto de complacência e pena pelos empregados.
Adão, um escurinho ensebado com roupas idem, acordara, mas não saíra do transe imposto aos bêbados. Com voz pastosa dirigiu-se ao sujeito que lhe acordara:
-- Que horas são, Paulinho?
-- A mesma (sic) de ontem. A gente fecha a padaria sempre 20 pras dez e toca você – respondeu-lhe o atendente, com uma vassoura na mão.
Adão só se arrastou pra fora da padaria, se esparramando na calçada em frente.
Foi quando cheguei para ele e me apresentei, como às minhas intenções.
Adão me olhou tão ressabiado quão um cara às vésperas de coma alcóolica pode olhar. De quebra, emendei:
-- E a gente leva ainda presunto e pão para a sua casa.
Adão ainda tentou ficar de pé para me encarar “olho no olho” e descobrir meus reais interesses. Afinal, por que um menino branco se interessaria por um bebum preto e sujo como ele?

Mas a tentativa de ficar em pé quase resultou em tombaço. Assim, quando, ofereci ajuda -- referia-me, agora, a algo mais imediato, a dificuldade de ficar de pé – foi suscinto.
-- Acho que bêbo como tô, num vô conseguir chegar em casa –- disse Adão, com fala pastosa e que só prestando muita e exclusiva atenção era possível compreender e, assim mesmo, não tudo.

Incapaz de ficar de pé sozinho, respondeu com um grunhido, o que entendi como um “sim” à minha proposta, formulada mais uma vez.

Tratei de pôr logo mãos à obra, primeiro passando a corrente com o cadeado prendendo a bicicleta num postinho magro e há muito esquecido pela CEMIG, a companhia de eletricidade de Minas. Sem mais me preocupar com a bicicleta, cuidei de meu objeto de atenção: o encachaçado Adão.

-- Onde você mora, companheiro?
O cara tava tão bêbado que não me respondia por absoluta surdez etílica.
Olhei em volta e o cara que o acordara, Paulinho, já tomava o rumo de casa, quando lhe abordei, perguntando se sabia onde Adão morava.
-- Sei que tem que descer esta ladeira toda – nós estávamos no alto de uma rua íngreme pacas – Mas precisar onde ele mora, não posso – disse-me Paulinho, capanga (um dos acessórios mais bregas do vestuário masculino, ainda mais brega que a pochete) presa ao pulso direito.
Emendou uma pergunta na resposta:
-- Cê num tá pensando em leva-lo em casa, não, tá?

Diante da minha confirmação com a cabeça e um vago “hum, hum”, ouvi a primeira de várias advertências sobre a inutilidade do meu ato.
-- Este sujeito é um pinguço! Amanhã ele volta a encher a cara e ficar num canto, feito um cão. Deixa ele. Amanhã quando acordar, ele toma o rumo de casa – falou Paulinho, a quem agradeci, já amparando Adão, e seguindo o caminho que o funcionário da padaria indicara.
Adão exalava aquele fedor típico de quem não via banho há dias; aquele cheiro ocre de suor
várias vezes seco, sem ver água. As roupas também estavam imundas. Adão ostentava um machucado no alto do nariz, que já tinha alguns dias, uma vez que apresentava aquela casquinha de cicatrização. Pelo local do machucado, era fruto de alguma queda do bebum.

Inicei na padaria, uma autêntica via-crúcis, com as bíblicas estações substituídas por pés-sujos. Como não sabia exatamente onde o cara morava e no caminho da casa dele tinha mais de uma dezena de botequins, de tempos em tempos, eu perguntava se conheciam Adão e se sabiam onde ele morava.

Eu me imaginei personagem de uma parábola. A “Parábola da Negação”. Pois a cada parada, só ouvia “deixa ele aí”, “ele é um vagabundo cachaceiro”, “amanhã vai estar bêbado de novo” e outras sandices semelhantes.

E enquanto levava Adão para casa, fui percebendo que o cara tinha medo! Não consegui saber de que, pois a fala era muito arrastada, incompreensível. Falamos pouco durante o trajeto, isto é, eu falei. Pedi que facilitasse a mim, que além de estar escorando um cara um pouquinho mais pesado do que eu, no meio do caminho resolvera deitar na calçada e apagar por ali mesmo.

--- Adão! Adão! Vamos embora... Já estamos perto de sua casa. Falta pouco. Vamos lá. Eu te levo na cacunda – sugestão prontamente acatada pelo neguinho cujo cheiro empesteava o ar.
Paramos para tentar localizar a casa do cara em quatro botequins, duas padarias
e um mercadinho. Isso em pouco mais de um quilômetro e cem metros – distância da padaria onde encontrara Adão e o casebre onde morav. Não podia dar chance ao azar. Não queria andar um metro a mais sequer com o bebum a tira-colo. A mesma cantilena repetiu-se em todos os lugares em que pedira informação. “Deixa o cara aí. Tá chapadaço.”, “Amanhã esse bebum volta a encher a cara e você cisma de levá-lo no casebre onde ele mora?” “Larga a mão disso, rapá! Encosta este pé-de-cana num canto qualquer!” Ouvi frases como esta em meio a outros estimulantes comentários.

Se enchesse Adão de bicudas, cobrisse o cara de porrada, acho que ninguém ia intervir; era até bem provável que me ajudassem a espancá-lo. Eles podiam não saber por que batiam, mas o bebum certamente sabia porque apanhava, deviam pensar.

Negociei com o bêbado, e só andei com ele nas costas uns 200 metros. À medida que nos aproximávamos daquilo que era o segundo lar de Adão; o primeiro, sem dúvida, era as calçadas e sarjetas imundas da cidade, onde dormia e acordava dias seguidos depois de “cachaçadas” homéricas, notara uma inquietação no rosto dele.

Pois descobri a razão da inquietação de Adão no penúltimo lugar onde paramos e perguntei se o dono ou algum atendente do pé-imundo sabia onde o cara morava.
--- Porra, Adão!! Cê num se emenda, né, seu merda!? Num é à toa que o Julião vive te enchendo de porrada! – disse-lhe o caboclo atrás do balcão, curto até mesmo para um mínimo pé-inchado, como aquele boteco xexelento.
--- Amigo, alguém aqui te xingou? – interpelei o atendente, que já desconfiou que fez besteira ao xingar Adão.
Modulando seu tom uma oitava abaixo, o sujeito tentou minimizar o que fizera:
-- Não. É que este cara vive bêbado; tá sempre caindo pelas tabelas e até obrigou o senhor a trazê-lo aqui...
-- Primeiro, ao que me consta, ele não perturba ninguém aqui. Do contrário, num estaria bebendo cachaça lá na (rua) Adamastor (Nunes), há quase um quilômetro deste pé-sujo. Segundo, ninguém sequer me pediu para trazer o cara em casa. Tô fazendo isso porque quero. E terceiro, e o mais importante: não fossem pinguços como ele, você num teria emprego.
E não parei não:
-- Ou acha que o dono deste botequim ia precisar de você só para servir média com pão com manteiga de manhã? Por isso, acho que todo dia, antes de dormir, você deveria agradecer a Deus por existir cachaceiros como ele. E rogar para que bêbados que nem o Adão continuem a encher a cara de cachaça.

Disse isso e imediatamente chamei Adão para deixarmos o pé-sujo. Já íamos descendo a rua, quando o funcionário do boteco – chamava-se Ernesto ou algo parecido – veio de dentro do botequim aos berros de Ei, Ei – obviamente tentando chamar minha atenção – enquanto tremulava freneticamente um pano
com qual ora limpava as mesas, ora enxugava o suor que escorria abundantemente do rosto gordo, agora vermelho e cansado, embora a distância que nos separava não chegasse a 20 metros.
Paramos e nos viramos para o gordo.
-- Olha, cê me desculpe. Não tive intenção.... – falou o atendente, sem completar a frase, ofegante que estava, com a corrida para nos alcançar.
Eu levantei a mão, em sinal de que estava tudo bem. E já me virava rumo onde achava ser a casa de Adão, quando Ernesto nos alcançou.
-- Peraí, moço – disse o cara do boteco, acrescentando a urgência de me contar algo.
–- Se vai levar o Adão pra casa dele, é bom se prevenir. Este caboclo tem um irmão que desce o cacete nele. É só encontrar com ele naquele barraco – e apontou para uma casinha isolada, a uns 300 metros do botequim, com o jardim, ou melhor, o capim, que a cercava, recém-aparado – que o Julião desce porrada nele.

-- E ninguém, vizinho algum, faz nada? Simplesmente, deixam o cara apanhar? E bêbado assim é alvo fácil...
-- Ninguém se mete. O irmão até bebe uma vez ou outra. Mas nunca como este aí. É trabalhador e num fosse ele, o Adão não teria onde dar com os costados. Ou comer um prato de comida. Pro povo, o cara tá certo. Também acho que tá certo. Só acho que às vezes, o cara extrapola. Tem dia que o Adão sequer consegue andar. Uma vez o sujeito quebrou uma cadeira nas costas do Adão. O bebum quebrou três costelas. E os dentes, então? Se Adão é banguela, certamente
Não é por causa dos tabacos que ele vive
tomando. A razão é outra. Os murros do Julião deixam a cara do Adão em petição de miséria – contou-me Ernesto, cessando a ladainha por breves segundos, só o tempo suficiente para tomar fôlego. E continuou: --E Julião num é o nome do cabra. É aumentativo de Júlio. Já viu, né? É um negão que mais parece um armário de Sicupira... Por isso é bom tomar cuidado. Se eu fosse o senhor, deixava o sujeito aí. Deixa ele decidir
se quer dormir na rua ou prefere entrar na porrada e dormir sobre um teto.
Agradeci ao atendente antes que ele engatasse um outro papo sobre as proezas etílicas do armário de Sicupira.
O medo estava agora estampado no rosto de Adão. A conversa ccom Ernesto teve um efeito devastador para o bebum. Mas não me abalara nem um pouco.
Pois se o que me faltava em fortaleza física (era magro e nanico -- media mais ou menos ínfimos 1,65m, hoje sou dois ou três centímetros mais baixo) me sobrava em têmpera, determinação e coragem. Nada a ver com o cara que hoje hesita até diante de um cágado -- ou do adjetivo, sem acento.

Mas Adão pelava-se de medo. Estava até mais lívido, não fossem as nódoas de sujeira que lhe conferiam, junto com a voz pastosa de bêbado, um ar abjeto, miserável.

Agora o cara queria fugir dali, ficar o mais distante possível do irmão violento, dos murros e pontapés aos quais nunca reagira e que deixavam marcas. Fiquei sabendo depois de muito insistir em compreender seus grunhidos, que fazia uns dois meses que não aparecia em casa.
--- Mas a casa não é sua também? Não foi o único bem que seu pai deixou para vocês dois? Então a casa é tanto sua quanto dele -- observei, apresentando argumentos oferecidos pelo próprio Adão, na longa marcha de pouco mais de um quilômetro, que já durava perto de duas horas.

Prometi a ele que não deixaria o irmão violento tocar nele. O encachaçado Adáo limitou-se a me olhar de cima abaixo como a dizer "e é você que vai impedí-lo de me dar porrada? rarárá...conta outra".


Não arredou o pé de onde estávamos até que o convenci a irmos até o botequim quase em frente à pequena casa caiada de branco, com borrões escuros nas partes inferiores das paredes, vindos do chão úmido. Se não ouvíssemos barulho nem víssemos luzes acesas, era sinal de que Julião não estava em casa. Afinal, era sexta-feira. E as possibilidades de seu irmão estar enchendo a cara em outro canto da cidade eram grandes.


Adão foi comigo até o pé-sujo, menos por acreditar no meu poder de defesa, mais pela chance de dormir uma noite, uma única noite sem acordar com bicudos e safanões de funcionários dos bares, gente que não se importava que bebessem até cair, desde que não tivessem que põ-los de pé no dia seguinte.

Pedi uma água sem gás; Adão um traçado com mel. Mas diante da minha negativa muda de pagar pela cachaça quando o cara que nos serviu hesitara e me olhara como que pedindo meu aval, de nada adiantaram as seguidas reclamações de Adão. Ouvi a mesma ladainha: que o cara era um bebum --- como se isso pudesse ser novidade a qualquer um que passasse a cinco metros do sujeito, quanto mais a mim, que vinha sustentando o cachaçeiro com seu cheiro azedo há duas horas; que já estava acostumado a dormir na calçada; e pasmem!, antes de ser um aviso a minha integridade física, a existência do irmão violento era a justiça encarnada, quase uma lei bíblica tão arcaica quanto a dantesca '"olho por olho, dente por dente".

Bem, mas eu e Adão permánecemos dez, 15 minutos observando atentos se havia alguma movimentação na casa , e nada! Barulho nenhum; na casinha reinava uma escuridão só. Isso era sinal de que Julião passaria a noite fora e na manhã seguinte chegaria tão cansado que só notaria a presença do irmão inúti quando acordasse, geralmente, no meio da tarde seguinte. Segundo Adão, quando o irmão acordasse, há muito ele estaria longe da casinha.

Seguros de que não encontraríamos com Julião na casa, atravessamos a rua e fomos logo invadindo o capinzal/jardim da casinha caiada de branco. Uma dúvida me fez parar antes mesmo de divisar a porta da casa.

--- Ih!! Me diz uma coisa: cumé que a gente vai entrar na casa? Duvido que você carregue uma chave consigo...-- falei, enquanto freiava bruscamente o quase galope que nos conduzia rumo á porta.



Nisso, vislumbrei, graças a um relâmpago que a todo escuro iluminou, um tanque em frente à porta da modesta casinha. Havia um amontoado de panelas e pratos sujos. Imundos, ainda com resto de comida mixado a um filete de água que insistia em pingar, embora a torneira exibisse um pano preso à guiza de contenção do vazamento. Diante da minha súbita brecagem, Adão seguiu em frente e estabacou-se. Mas agarrando-se a mim, ergueu-se e respondeu minha pergunta:
--- Tem erro não. Nas sextas, ele deixa sempre a chave num vaso de guiné e comigo-ninguém-pode -- disse, procurando a chave num dos vasos que ladeiavam a porta da casa.

Nisso, esbarrei na porta, que não dispunha de maçaneta, e ela se escancarrou toda, emitindo um gincho à medida que se abria.

Mal notou que a porta da casa abrira, Adão tratou de entrar, tropeçando em mim e se esborrachando no chão averrmelhado. Mas não se machucou. Rapidamente, levantou-se, apoiando-se na porta semi-aberta e procurou o interruptor.Click, click e necas de luz.

-- Caramba, será que cortaram a luz? -- falou em tom normal, Adão, nem baixo nem alto.

Estava um bréu dentro da casa. Minhas pupilas não se acostumaram rapidamente à escuridão, de modo que quando percebi que diante de mim tinha uma esteira, chamei Adão, ainda confuso diante da falta de luz, mantendo a porta semi-aberta.

-- Deita aqui logo e encosta este treco -- um aquecedor a gás, também conhecido como 'rabo-quente' -- na porta. Pesa o suficiente para manter a porta encostada, e não impedirá seu irmão de entrar -- disse, enquanto Adão se aninhava na esteira.

Estava me preparando para deixar a casa, quando ouço uma voz tonitruante berrar comigo, me cortando a saída.

-- Que porra é essa?Agora este cachaceiro precisa que playboys tragam ele em casa? -- perguntou, Julião, já esculachando nós dois.

Apesar da estrondosa voz, ainda era impossível divisar a silhueta de quem emitira a ofensa no bréu do quarto. Mesmo sem conseguir vê-lo, fui bem direto e ousado:

-- Você deve ser o Julião, o irmão que desce porrada no bebum do Adão. E só espanca o caboclo quando ele sequer pode reagir... Bonito... e covarde.

--- Você num sabe da missa a metade. Este puto que deve estar todo cagado de medo atrás de você só faz encher a cara, num bota um vintém sequer em casa -- a voz agora era esganiçada, contrastando com o tom gutural da primeira vez.
--- Desculpe, senhora, sequer podia imaginar que estivesse aqui... --- disse, sendo bruscamente interrompido pela "gentil dama":

--- Senhora é o caralho!! Sou puta mesmo e só estou debaixo
do Julião porque depois ele me paga.

Diaante de tamanha finura, senti que seria perda de tempo tentar catequizá-los e fui na canela.

-- Me faz um favor, Julião? Num desce o braço no seu irmão hoje não, tá? -- e concluí: -- E quando ele acordar, dê um café da manhã decente pra ele, sim? Tô deixando 40 paus. Compra pão, manteiga, leite e dá pra ele, beleza?

E antes que o armário de Sicupira viesse até mim -- o cara devia estar pelado -- encostei a porta da casinha caiada de branco, dei-lhes um audível "Boa noite"
e parti de minha aventura mundo-cão.


Antes do terceiro passo rumo ao meu universo -- aquilo ali nada tinha a ver comigo, pensei e agradeci -- Julião pôs a cabeça -- encimada por uma carapinha curta -- e com voz que nada lembrava a tonicidade de dois minutos atrás.

-- Pode deixar que não vou bater nele, não. Adeus e muito obrigado. Vai com Deus -- disse num "gutural suave". Olhei para trás, vi o rosto do irmão que espancava porque se achava dentro do sistema, sorri para ele e bati continência com dois dedos em riste.


Isso aconteceu sexta à noite. Portanto, não era de se espantar que no dia seguinte eu pulasse em cima de um fiat da polícia do czmpuss.
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Filhos de Machado Joseph

terça-feira, 8 de novembro de 2011
surto 2.4
A cena era chapliniana. À frente de uma multidão, que se aglomerava nas escadarias do refeitório, descia pela calçada e alcançava o estacionamento, uma figura pequena, magra, esquálida até, gritava palavras de ordem na mais concorrida assembléia realizada naquele começo de ano, o último da década de 70 do século passado, 1980.



- A gente não pode continuar se curvando diante dos desmandos da reitoria. Senão em breve o bandejão vai estar custando 50 merrecas (não tenho mesmo como lembrar da moeda vigente). Só que aí num vai dar mais para lutar não. A gente tem que contestar este aumento no bandejão hoje, agora – fremia Noel, um baiano de bigodinho e alguma influência sobre a audiência, embora fosse notoriamente radical.



Era apenas a segunda pessoa a falar naquela assembléia que decidiria se haveria greve ou não. Mas antes que ele terminasse seu inflamado discurso, André e Flávio já tiravam o cadeado de suas bicicletas e preparavam-se para voltar ao nosso apartamento.

-- Vam’bora, Eros. Vai ser a ladainha de sempre e este bando de vagabundos vai decidir pela greve. A gente se adianta e começa a fazer as malas. Assim, amanhã a gente pode estar indo pro Voltaço – disse-me André.



Eu permaneci sentado no meio-fio, de onde ouvia bem o discurso e via as peripécias corporais de Noel, segundo muitos alunos, um estudante profissional, havia pelo menos seis anos em Viçosa.

-- Vou não, André. Vou ficar até o fim da assembléia. Aí eu conto em primeira mão se a greve foi decretada ou não – prometia.

André achou absurda minha posição:

-- Cara, cê num vai ficar aqui escutando este monte de baboseira, dita por um monte de jeca, vai?

- Vou, André. Vou ver no que vai dar – finquei pé, enquanto André e Flávio montavam em suas bicicletas.

- Então vamos logo, André. Deixa ele aí... Tô morrendo de sono – disse Flavão, referindo-se a uma prática mantida religiosamente por nós três, depois do almoço de domingo: tirar uma sesta de uma, uma hora e meia.

Flávio era um conterrâneo que só tínhamos conhecido lá em Viçosa, logo nos nossos primeiros dias de faculdade. Nos demos hiperbem e duas semanas mais tarde, ele já tinha se mudado para a pocilga, ou melhor, para a pensão onde resistimos o primeiro semestre de UFV. Ele era da mesma igreja, batista, eu acho, que o Muel, um vizinho e amigo de infância. A igreja ficava no bairro do Aterrado, em Volta Redonda, e Flávio não morava muito longe da igreja, não.



Não deu outra. Depois de uma hora e meia de falação, procedeu-se uma votação entre os presentes e tomou-se a greve como decisão majoritária. Fui voto vencido. Eu e mais uns dez manés que tiveram coragem de externar sua discordância diante de uns 500 fanáticos defensores da greve. O motivo para a paralisação imposta pelos alunos: uma elevação de três (3) merrecas no preço do bandejão. A refeição iria de oito para 11 merrecas.



Continuaria a custar porra nenhuma, ainda mais levando-se em conta a qualidade da comida.



Era excelente. Um nutricionista sempre acompanhava in loco as refeições e estava aberto a reclamações (muitas, como em qualquer serviço público) e sugestões (poucas). Tudo era anotado em folhas dispostas sobre pranchetas coloridas.



Não havia como comparar com a comida servida na Federal do Rio, por exemplo. Tá, o bandejão custava centavos, mas assemelhava-se a lavagem servida a porcos. Frequentemente eram encontrados pregos, arruelas e parafusos na comida; até um band-aids foi achado em meio aos grãos de feijão e virou foto ilustrando reportagens nos jornais cariocas.



Bem, decidida a paralisação tratei logo de me inteirar dos comitês de greve e do que cada cuidava. Estava interessado em um que era para comprovar que o aumento de três merrecas ia bagunçar a vida financeira dos alunos que dependiam do Crédito Educativo.

Era um sistema de crédito com o qual o Governo Federal subvencionava a permanência do aluno na faculdade. Três anos depois de formado – acho que era este o intervalo -- o estudante era obrigado a começar a ressarcir a União.

E em Viçosa era grande o número de alunos que dependiam do crédito. Nós conhecíamos um cara, colega de dois baianos “porretas” dos quais nós (eu, André e Flavão) nos aproximamos muito nos primeiros tempos de Viçosa.

O cara chamava-se Sérgio, morava num quarto na mesma pensão em que Artur e Boca, os baianos, moraram no primeiro semestre de 1979, primeiro ano de todos nós em Viçosa.

E o sujeito cortava um dobrado para se manter. Sua única fonte de renda era o Crédito Educativo. Os pais, moradores de Niterói, não podiam bancá-lo, mesmo numa escola pública.

E agora Serginho estava numa sinuca de bico. Tudo que não queria era uma paralisação que lhe frustrasse os planos de se formar no fim do ano. Mas não havia como ser contrário à greve. Segundo garantira para mim, André,o baiano Artur, e pra quem se aproximasse dele.



Agora, imagina o Serginho, um pusta CDF, com uma média de nota superior a 8,5, fazendo piquete no prédio de Solos, onde era monitor da matéria Solos 4?!!!!!

A bolsa do Crédito Educativo era reajustada de dois em dois meses. E naquela década, a de 1980, a inflação galopava na casa de dois dígitos mensais. Sobreviver com a grana do crédito era algo impensável para nós, filhinhos de papais da classe média.

Tudo aumentava. Era mais do que compreensível que subisse também o preço do bandejão, o que não acontecia há pelo menos três anos. Ainda que dobrasse o preço da comida, a universidade continuaria a subvencionar, com muita verba, a ótima bóia servida no restaurante central.



Estes dramas pessoais, como o do Serginho, e a sincera disposição de dar uma guinada de 180 graus na minha vida em relação à cidade, à UFV e a seus estudantes foram o que motivara a transformação de meus dias de greve num vendaval de reais e doloridas mudanças.



Na mesma noite em que foi decretada a greve, fiquei conhecendo um camarada chamado William, um dos líderes da greve. Sua estampa nem de longe lembrava um típico grevista. Nada de cabeleiras e barbas que remetiam a Che e a Fidel, a clássica figura de um revolucionário. Uma imagem limpa que contrastava com outros líderes grevistas, que faziam questão de parecer o mais sujo possível. Acho que a sujeira ajudava a consolidar o ar obscuro e o par de olhos verdes naquela cara dissipava aquele pedantismo tão arraigado àqueles que faziam política estudantil.

-- Ué, mas você não foi contrário à greve? – perguntou-me William antes de passar instruções a mim e à uma menina, que ficaria incumbida do dormitórios femininos mantidos pela universidade para quem não tinha como se bancar.

Dei-lhe a resposta mais politicamente correta possível.

-- Sou contra a greve, mas fui voto vencido. Eu quero participar agora, Ver se esta bosta de greve tem alguma razão de ser – disse-lhe, sendo sincero.



William, que era aluno de um curso não muito comum, algo parecido com técnico em laticínio olhou para mim e para Goretti, era assim que se chamava a garota que investigaria os alojamentos femininos, e disse:

-- Amanhã, lá pelas nove da manhã, cês começam. Ao longo do trabalho, se vocês sentirem dificuldades, coloco mais gente para ajudar vocês. E a gente se encontra às sete e meia da noite para vermos como foi o primeiro dia de trabalho – disse William, despedindo-se de nós.

Fiz o mesmo com Goretti e fui de bicicleta para casa.

Passava de nove da noite quando cruzei a porta dos fundos lá de casa. A da frente, de vidro e de correr, davamorto, que bem representava nossa relação com a cidade. O cômodo mais nobre da casa estava cheio de tralhas.

Encontrei Flávio e André ouvindo Queen. A primeira coisa que ouvi foi uma pergunta feita em uníssimo pelos dois:

-- Declararam greve?

-- Ham, ham – respondi.

-- E você ficou na assembleia até o final? Aquela chatura, insuportável. Cê é um pastel mesmo – disse-me André.

-- Nós já começamos a fazer as malas e zarpar amanhã cedo pro Voltaço – falou Flávio, acrescentando: -- Começa a fazer a sua ainda hoje...Se tivermos sorte, vão ser, pelo menos, duas semanas no Voltaço...Êba!



Eu tirei os tênis e mergulhei na minha cama. Disse-lhes de maneira a não deixar dúvidas quanto à minha decisão de não estender as férias recém-encerradas:

­-- Olha, eu não vou para Volta com vocês. Quero entender o porque desta greve. E já que vou passar pelo menos mais três anos aqui, vou tentar conviver com os nativos e os jecas da cidade.



Eu já sabia de cor e salteado o que o André achava dos grevistas, e até certo ponto concordava com ele. Mas, ainda assim, seguiu-se a velha cantilena enfatizando “vagabundos”, “grevistas profissionais”, “greve por umas merrecas”. Seu discurso trazia uma novidade: a surpresa por eu passar para o lado dos “vagabundos”. Flávio nada dizia, limitando-se a balançar a cabeça nos pontos mais fortes do discriminatório e recorrente discurso de André.



-- André, eu ainda tenho pelo menos três anos e meio de Viçosa. Não quero passar todo este tempo odiando a universidade e os alunos daqui, esta jecaiada , como você diz. Quero e vou me integrar, fazer novos amigos – disse.

Acho que foi nesta ocasião que o André emendou de bico, com uma frase lapidar.

-- Eros, os amigos que eu tinha que fazer eu já fiz. Daqui pra frente serão só colegas e conhecidos -- disparou, convicto, no alto de seus recém-completados 19 anos.

Confesso que a sentença, extrema e descabida de propósito (o cara era muito novo para uma afirmação tão taxativa) em vez de me alarmar, me deixou foi muito lisonjeado. Eu sabia fazer parte daquele seleto clube de eleitos por André – ainda hoje um sujeito muito seletivo.

Mas sabia que ouviria muito por minha decisão de ficar. E realmente André falou pra caramba, tentou me convencer a ir com ele e Flavão pro Voltaço. Mas eu também estava irredutível. Desta vez, iria me integrar a Viçosa.

No dia seguinte, tão logo André e Flávio seguiram para Volta Redonda, eu também deixei a casa, de bicicleta, rumo à universidade.
Fui direto para os alojamentos masculinos, que ficavam num prédio recém-construído em frente ao lago. Tão novo quanto os alojamentos, era o lago, que brotara do desvio do curso de um riacho que passava nos fundos da pensão/república/pocilga na qual resistimos o primeiro semestre em Viçosa.

Conversei com uns camaradas que conhecia e subi rapidamente para os quartos. Eram dois prédios relativamente pequenos. Tinham três andares cada um, algo entre dez e 14 quartos em cada andar e dois beliches por quarto, que ainda contavam com duas escrivaninhas e dois armários. Ou seja, o espaço para circulação era mínimo.

Obedecendo a um esquema simples e óbvio, fui primeiro ao primeiro quarto do primeiro andar, o 101. Lá, encontrei os quatro alunos que dividiam o apartamento.

Apresentei-me e fiz um inventário montado com perguntas sugeridas por Williams e outras de cunho próprio. Os dois primeiros casos o que os caras gastavam não fechavam com o crédito educativo e só com a parca grana mandada de casa conseguiam equilibrar o orçamento. Com um aumento de sete merrecas por dia, além do aumento de três no almoço e no jantar, o café da manhã aumentara de três para quatro merrecas, teriam que cortar um os maços de cigarros; o outro teria que cortar radicalmente o cineminha dos fins de semana. E olha que nem computei gastos com roupas e calçados. Ouvi os dois outros moradores do 101 e apertando muito o cinto – os pais não eram tão pobres – dava para manter os pequenos vícios (meio maço de cigarros e porres de cachaça quinzenalmente em qualquer botequim), além de fazer as duas refeições mais o café da manhã devidamente majorados.

Em questão de minutos, minha presença, ou melhor, a presença de um recenseador, se espalhou pelos alojamentos masculinos.
E a informalidade tomou conta de meu questionário de maneira indelével . Foi uma manhã e uma tarde – separadas pelo almoço, por incrível que pareça o bandejão da universidade continuava a servir café da manhã, almoço e jantar pelo preço antigo para os grevistas – atípicas. Conversei longa e amistosamente com sujeitos que em outros tempos, sequer trocaria xingamentos.
Donos de sotaques típicos do interior de Minas e São Paulo eram motivo de galhofa pelos três volta-redondenses. Mas eu quebrei a cara. Os sujeitos que falavam o dialeto da poRteira veRde do BeRnaRdo eram legais. As únicas diferenças conosco eram o sotaque e os hábitos caipiras arraigados – como a adoração àquelas fivelonas nos cintos e o uso indiscriminado de botas.

Mas tinham as mesmas inseguranças que eu, André e Flávio. Os mesmos medos, as mesmas incertezas, hoje borrões esmaecidos em personas de 50 anos ou quase.

E foi naquele recenseamento, informal, uma verdadeira festa onde conversei com muita gente e coletei opiniões congruentes e bem embasadas que virei implacável, ardoroso e intransigente defensor da greve.
Sem percorrer os 90 apartamentos dos dois prédios, conversei com quase todos moradores. A carência era grande, sim. Assim como descobri uma verve que não sabia ser minha. Tinha resposta para todo questionamento e acho que pela primeira vez na vida, me senti protagonista. Afinal, minha presença tinha catalisado a atenção de perto de 300 estudantes.

A anarquia e a espontaneidade daquele primeiro contato com os grevistas foram marcantes. Foi a minha primeira ação sem a tutela de André, até hoje meu melhor amigo, e desde aquela época um direitista com tendência a deletar posturas de esquerda. E sempre que discutíamos sobre política, ele argumentava (argumenta) muito bem, enquanto eu não conseguia expandir meus pontos de vista; era (sou) uma hesitação só.

E pela primeira vez, estava vendo Viçosa como realmente era e estava gostando do que via. Apesar de ter entrada na UFV em 1979, foi com calouros do ano seguinte que me sentia à vontade. Dois fatores contribuíram para minha integração com este povo.

Primeiro, tinha uma conterrânea entre os calouros de 1980. Uma menina chamada Patrícia Bustamante. Sorriso farto e sincero, companhia e papo agradabilíssimos. Teria me apaixonado, tivesse alguma dúvida quanto ganharia com sua amizade.

Ao mesmo tempo em que me maravilhava com a genuinidade agreste de uma menina nascida em Volta Redonda, fui me encantando com caras e meninas dispostos a vivenciar e conhecer pra valer Viçosa. Se a universidade estava em greve, não faltava o que fazer por lá.

Havia uma dezena de atividades a serem desenvolvidas pelos alunos em greve em Viçosa. Os habitantes de Viçosa eram, em sua maioria, pequenos agricultores. E embora minha experiência fosse nenhuma, assim como a dos calouros, eram mais braços e disposição para ajudar a semear, limpar terrenos e podar árvores. Ou seja, mais gente para obedecer aos aldeões. E mão-de-obra gratuita. Sem amigos entre os poucos alunos do segundo ano que ficaram na cidade, expandi exponencialmente minhas amizades. Os calouros achavam que era um deles – e eu era. Meu debut em Viçosa estava sendo no meu segundo ano de faculdade.

Nunca, em toda a minha vida, me senti tão livre. Sim, eu fugia de minha mãe e de sua maldita doença, que gradualmente reduzia sua capacidade de lutar contra aquela ferida aberta no seio da família. A doença de Machado Joseph fechava todas as rotas de fuga.

Quando bati em retirada de casa para estudar em Viçosa, minha mãe há muito já não andava, e a doença já comprometera os movimentos de braços e mãos – minha mãe já precisava que lhe déssemos comida na boca. Era difícil entender o que falava – a desfasia era outro legado da Machado Joseph – e até para mudar o corpo de lado na cama precisava de ajuda.
Meu pai, nos últimos anos de vida de minha mãe, entrara em rota de colisão com a vida e deixar minha casa foi um pusta ato de corvadia, mas não me arrependo dele. Com 18 anos incompletos, eu achava legítimo – e continuo a achar -- querer ter minha própria vida. Acho que a distância de Volta a Viçosa foi, na época – inconscientemente, é claro – uma opção para ficar o mais distante possível do caos emocional que era minha vida em Volta Redonda. Afinal, tinha uma mãe jurada de morte por uma doença degenerativa e um pai ausente por incapacidade de lidar com nossa vida de merda.
E eu estava sozinho em Viçosa. Não tinha a quem prestar qualquer tipo de satisfação: não tinha hora para comer ou dormir. Ficava acordado a noite inteira, ouvindo todo tipo de música. Ia dormir com o dia clareando, acordava no começo da tarde, comia se e quando tinha fome.

Repeti ações politicamente corretas feitas sempre por calouros como caiar uma escola estadual, fazer hortas que pudessem contribuir para a merenda escolar. Paralelamente a estas atividades, me lembro de ajudar na área de zootecnia, botando porções de capim para cavalos em baias, e ia a uma área agrícola, era um tipo de fazenda onde desenvolvíamos alguns projetos e de onde eu avistei a plantação mais linda que jamais vi na vida. Um plantio de aveia, segundo alguém da universidade. Uma mancha verde, de um verde tão escuro, tão intenso, que parecia uma ilustração.

Foi de lá que vim montado em minha bicicleta como se montasse um cavalo. É uma imagem recorrente e lembro que estava sozinho e por algum tempo “cavalguei” minha Peugeout verde, como se ela fosse/estivesse animada, tivesse vida mesmo. Era óbvio que algo estava muito errado comigo!

Mas antes da zoeira absolutamente careta – o quê chega a ser muito mais preocupante se eu tivesse feito uso de maconha, por exemplo – falemos da minha conquista de corações e mentes de uma galera que entrou em Viçosa, em 1980.
Conterrâneo, coisa rara em Viçosa – só conhecia Flávio e André, até então – me apresentei à Patrícia alguns dias antes da Marcha Nico Lopes. A marcha era como um desfile de carnaval – era guiada por uma banda contratada pelo DCE. Acontecia sempre antes de completar um mês de aulas.

Todo mundo fantasiado e muita gente bêbada de tropicar nas próprias pernas. A Nico Lopes – que nunca me inteirei sobre quem foi e nem com o Google aberto me interesso – obedece, ano após ano, a um tema político. Sua finalidade maior é integrar calouros e veteranos. Há os que participam do desfile, indo atrás do trio-elétrico improvisado; e os que apenas acompanham, das calçadas, colegas pagando mico. Eu e a Patrícia fomos juntos e encontramos no desfile ou fora dele, um monte de amigos dela e alguns conhecidos meus.
Conheci Denise Formoso, um pouco mais velha – uns 29 anos – uma das companheiras de apartamento de Patrícia. Baixinha e nada bonita compensava estes indesejáveis atributos com uma simpatia única. Fomos de cara um com o outro. Quem cumprimentou efusivamente Patrícia e a tentou levar, sem sucesso, para a Marcha, foi Maria, a mais desatinada de todas as meninas que conheci em Viçosa. Natural de Petropólis, morava em apartamento próprio – o pai dela tinha grana -
num prédio de três andares, bem em frente ao nosso apartamento na rua Olívia....—só me lembro do primeiro nome, sequer guardei o nome do bairro. Também adorei minha vizinha, dona de uma Variant branca.

Encontrei também Ricardinho, uma das boas amizades que fiz naquela pocilga onde moramos no primeiro semestre, mamadaço. E logicamente encontrei com André e Flávio, no comecinho da marcha, ainda no campus.

Cumprimentamo-nos como velhos amigos que sempre haveremos de ser, mas acho que naquela noite caíra por terra o jugo que André tinha sobre mim. Pela primeira vez me relacionava com outras pessoas que não as mesmas com as quais mantínhamos – os três, eu, André e Flávio – algum contato. E eram poucas, muito poucas...

Sei que minha amizade com Patrícia me franqueou acesso a muita gente. Vou lista-los: Kiko, Ramon, Beleza, Tiago, Pedro, Evandro, Claudio Lyra, Joanna, Denise Formoso e sua irmã, Lucinha, todos de Belo Horizonte; mais uma dezena e meia de amigos, tanto calouros como veteranos que, como eu, gravitava em torno do alto astral da turma de 80. Tinha trêsss cariocasss no grupo: o Jorjão – não fazia sentido chamá-lo de Georjão – Renata e Majo. Em minha débil lógica, achava que chamava-se Marjot, era descendente de franceses. Era linda. Uma tez queimada de sol e algumas sardinhas na altura do nariz. Uma versão aloirada de Malu Mader. Só que Majo – sem o t que imaginava gozar de ascendência francesa – era a abreviatura de seus dois nomes: Maria José.

Bem, nem preciso dizer que me apaixonei. E como andava seguro demais, disse isto a ela. Só identifiquei lisonja em seu rosto. Nem um sim, nem um não. Também seriam respostas e num perguntei nada a ela. Só evidenciei algo que estava estampado na minha cara.

A sinceridade, o bom-mocismo, a afabilidade e sobretudo, o entusiasmo, foram vitais para que ganhasse a total confiança daquelas pessoas que viam Viçosa com olhos muito mais carinhosos que os meus. Mas estes sentimentos que geraram esta empatia com o povo que entrara em 1980 era genuíno (Alcione, bem sei que eu só disse o quanto era venerado pelos calouros. Não há uma passagem sequer que mostre o quão agudo era meu senso de equipe e quão rápido era meu tirocínio. É que isso não é ficção, aconteceu mesmo comigo. E as lembranças...algumas foram-se com os meus cabelos...). Era e me sentia um herói.
Por um perigoso lapso de tempo, ignorei completamente o que era medo. Um exemplo cabal dei uns dias antes de subir no Fiat da polícia do campus. Foi durante a semana, por volta das dez da noite. Depois de um dia cheio numa universidade vazia de alunos, mas repleta de novidades para mim, estou eu entrando numa padaria para comprar pão integral e queijo. Nunca me chamou à atenção aquele séquito de bêbados atrás da monarca “branquinha”. Até porque estes eram figurinhas fáceis em Viçosa. Nunca vi cidade com tantos botequins, e consequentemente, bebuns. Assim, os pinguços se proliferavam nas esquinas feito moscas.

Mas eu não era detentor desta razão tão mesquinha que caracteriza a imensa maioria dos mortais. Ou melhor, eu não detinha, naquele momento qualquer resquício de sentimentos baixos. E me veio tão tola quanto altruísta pergunta, seguindo-se a um óbvio comentário: “Nunca levei um bêbado até a casa dele. Num é que uma boa idéia?”

Estavam fechando a padaria, os empregados já abaixavam o gradil das portas e acordavam um bêbado conhecido deles e de clientes contumazes.

-- Acorda, Adão. Vá para casa...Já estamos fechando... – disse-lhe o cara que há pouco me vendera pão e presunto.
Àquela altura, ele era o único bêbado no local, dormindo no chão do estabelecimento. E era tratado com um misto de complacência e pena pelos empregados.
Adão, um escurinho ensebado com roupas idem, acordara, mas não saíra do transe imposto aos bêbados. Com voz pastosa dirigiu-se ao sujeito que lhe acordara:
-- Que horas são, Paulinho?
-- A mesma (sic) de ontem. A gente fecha a padaria sempre 20 pras dez e toca você – respondeu-lhe o atendente, com uma vassoura na mão.
Adão só se arrastou pra fora da padaria, se esparramando na calçada em frente.
Foi quando cheguei para ele e me apresentei, como às minhas intenções.
Adão me olhou tão ressabiado quão um cara às vésperas de coma alcóolica pode olhar. De quebra, emendei:
-- E a gente leva ainda presunto e pão para a sua casa.
Adão ainda tentou ficar de pé para me encarar “olho no olho” e descobrir meus reais interesses. Afinal, por que um menino branco se interessaria por um bebum preto e sujo como ele?

Mas a tentativa de ficar em pé quase resultou em tombaço. Assim, quando, ofereci ajuda -- referia-me, agora, a algo mais imediato, a dificuldade de ficar de pé – foi suscinto.
-- Acho que bêbo como tô, num vô conseguir chegar em casa –- disse Adão, com fala pastosa e que só prestando muita e exclusiva atenção era possível compreender e, assim mesmo, não tudo.

Incapaz de ficar de pé sozinho, respondeu com um grunhido, o que entendi como um “sim” à minha proposta, formulada mais uma vez.

Tratei de pôr logo mãos à obra, primeiro passando a corrente com o cadeado prendendo a bicicleta num postinho magro e há muito esquecido pela CEMIG, a companhia de eletricidade de Minas. Sem mais me preocupar com a bicicleta, cuidei de meu objeto de atenção: o encachaçado Adão.

-- Onde você mora, companheiro?
O cara tava tão bêbado que não me respondia por absoluta surdez etílica.
Olhei em volta e o cara que o acordara, Paulinho, já tomava o rumo de casa, quando lhe abordei, perguntando se sabia onde Adão morava.
-- Sei que tem que descer esta ladeira toda – nós estávamos no alto de uma rua íngreme pacas – Mas precisar onde ele mora, não posso – disse-me Paulinho, capanga (um dos acessórios mais bregas do vestuário masculino, ainda mais brega que a pochete) presa ao pulso direito.
Emendou uma pergunta na resposta:
-- Cê num tá pensando em leva-lo em casa, não, tá?

Diante da minha confirmação com a cabeça e um vago “hum, hum”, ouvi a primeira de várias advertências sobre a inutilidade do meu ato.
-- Este sujeito é um pinguço! Amanhã ele volta a encher a cara e ficar num canto, feito um cão. Deixa ele. Amanhã quando acordar, ele toma o rumo de casa – falou Paulinho, a quem agradeci, já amparando Adão, e seguindo o caminho que o funcionário da padaria indicara.
Adão exalava aquele fedor típico de quem não via banho há dias; aquele cheiro ocre de suor
várias vezes seco, sem ver água. As roupas também estavam imundas. Adão ostentava um machucado no alto do nariz, que já tinha alguns dias, uma vez que apresentava aquela casquinha de cicatrização. Pelo local do machucado, era fruto de alguma queda do bebum.

Inicei na padaria, uma autêntica via-crúcis, com as bíblicas estações substituídas por pés-sujos. Como não sabia exatamente onde o cara morava e no caminho da casa dele tinha mais de uma dezena de botequins, de tempos em tempos, eu perguntava se conheciam Adão e se sabiam onde ele morava.

Eu me imaginei personagem de uma parábola. A “Parábola da Negação”. Pois a cada parada, só ouvia “deixa ele aí”, “ele é um vagabundo cachaceiro”, “amanhã vai estar bêbado de novo” e outras sandices semelhantes.

E enquanto levava Adão para casa, fui percebendo que o cara tinha medo! Não consegui saber de que, pois a fala era muito arrastada, incompreensível. Falamos pouco durante o trajeto, isto é, eu falei. Pedi que facilitasse a mim, que além de estar escorando um cara um pouquinho mais pesado do que eu, no meio do caminho resolvera deitar na calçada e apagar por ali mesmo.

--- Adão! Adão! Vamos embora... Já estamos perto de sua casa. Falta pouco. Vamos lá. Eu te levo na cacunda – sugestão prontamente acatada pelo neguinho cujo cheiro empesteava o ar.
Paramos para tentar localizar a casa do cara em quatro botequins, duas padarias
e um mercadinho. Isso em pouco mais de um quilômetro e cem metros – distância da padaria onde encontrara Adão e o casebre onde morav. Não podia dar chance ao azar. Não queria andar um metro a mais sequer com o bebum a tira-colo. A mesma cantilena repetiu-se em todos os lugares em que pedira informação. “Deixa o cara aí. Tá chapadaço.”, “Amanhã esse bebum volta a encher a cara e você cisma de levá-lo no casebre onde ele mora?” “Larga a mão disso, rapá! Encosta este pé-de-cana num canto qualquer!” Ouvi frases como esta em meio a outros estimulantes comentários.

Se enchesse Adão de bicudas, cobrisse o cara de porrada, acho que ninguém ia intervir; era até bem provável que me ajudassem a espancá-lo. Eles podiam não saber por que batiam, mas o bebum certamente sabia porque apanhava, deviam pensar.

Negociei com o bêbado, e só andei com ele nas costas uns 200 metros. À medida que nos aproximávamos daquilo que era o segundo lar de Adão; o primeiro, sem dúvida, era as calçadas e sarjetas imundas da cidade, onde dormia e acordava dias seguidos depois de “cachaçadas” homéricas, notara uma inquietação no rosto dele.

Pois descobri a razão da inquietação de Adão no penúltimo lugar onde paramos e perguntei se o dono ou algum atendente do pé-imundo sabia onde o cara morava.
--- Porra, Adão!! Cê num se emenda, né, seu merda!? Num é à toa que o Julião vive te enchendo de porrada! – disse-lhe o caboclo atrás do balcão, curto até mesmo para um mínimo pé-inchado, como aquele boteco xexelento.
--- Amigo, alguém aqui te xingou? – interpelei o atendente, que já desconfiou que fez besteira ao xingar Adão.
Modulando seu tom uma oitava abaixo, o sujeito tentou minimizar o que fizera:
-- Não. É que este cara vive bêbado; tá sempre caindo pelas tabelas e até obrigou o senhor a trazê-lo aqui...
-- Primeiro, ao que me consta, ele não perturba ninguém aqui. Do contrário, num estaria bebendo cachaça lá na (rua) Adamastor (Nunes), há quase um quilômetro deste pé-sujo. Segundo, ninguém sequer me pediu para trazer o cara em casa. Tô fazendo isso porque quero. E terceiro, e o mais importante: não fossem pinguços como ele, você num teria emprego.
E não parei não:
-- Ou acha que o dono deste botequim ia precisar de você só para servir média com pão com manteiga de manhã? Por isso, acho que todo dia, antes de dormir, você deveria agradecer a Deus por existir cachaceiros como ele. E rogar para que bêbados que nem o Adão continuem a encher a cara de cachaça.

Disse isso e imediatamente chamei Adão para deixarmos o pé-sujo. Já íamos descendo a rua, quando o funcionário do boteco – chamava-se Ernesto ou algo parecido – veio de dentro do botequim aos berros de Ei, Ei – obviamente tentando chamar minha atenção – enquanto tremulava freneticamente um pano
com qual ora limpava as mesas, ora enxugava o suor que escorria abundantemente do rosto gordo, agora vermelho e cansado, embora a distância que nos separava não chegasse a 20 metros.
Paramos e nos viramos para o gordo.
-- Olha, cê me desculpe. Não tive intenção.... – falou o atendente, sem completar a frase, ofegante que estava, com a corrida para nos alcançar.
Eu levantei a mão, em sinal de que estava tudo bem. E já me virava rumo onde achava ser a casa de Adão, quando Ernesto nos alcançou.
-- Peraí, moço – disse o cara do boteco, acrescentando a urgência de me contar algo.
–- Se vai levar o Adão pra casa dele, é bom se prevenir. Este caboclo tem um irmão que desce o cacete nele. É só encontrar com ele naquele barraco – e apontou para uma casinha isolada, a uns 300 metros do botequim, com o jardim, ou melhor, o capim, que a cercava, recém-aparado – que o Julião desce porrada nele.

-- E ninguém, vizinho algum, faz nada? Simplesmente, deixam o cara apanhar? E bêbado assim é alvo fácil...
-- Ninguém se mete. O irmão até bebe uma vez ou outra. Mas nunca como este aí. É trabalhador e num fosse ele, o Adão não teria onde dar com os costados. Ou comer um prato de comida. Pro povo, o cara tá certo. Também acho que tá certo. Só acho que às vezes, o cara extrapola. Tem dia que o Adão sequer consegue andar. Uma vez o sujeito quebrou uma cadeira nas costas do Adão. O bebum quebrou três costelas. E os dentes, então? Se Adão é banguela, certamente
Não é por causa dos tabacos que ele vive
tomando. A razão é outra. Os murros do Julião deixam a cara do Adão em petição de miséria – contou-me Ernesto, cessando a ladainha por breves segundos, só o tempo suficiente para tomar fôlego. E continuou: --E Julião num é o nome do cabra. É aumentativo de Júlio. Já viu, né? É um negão que mais parece um armário de Sicupira... Por isso é bom tomar cuidado. Se eu fosse o senhor, deixava o sujeito aí. Deixa ele decidir
se quer dormir na rua ou prefere entrar na porrada e dormir sobre um teto.
Agradeci ao atendente antes que ele engatasse um outro papo sobre as proezas etílicas do armário de Sicupira.
O medo estava agora estampado no rosto de Adão. A conversa ccom Ernesto teve um efeito devastador para o bebum. Mas não me abalara nem um pouco.
Pois se o que me faltava em fortaleza física (era magro e nanico -- media mais ou menos ínfimos 1,65m, hoje sou dois ou três centímetros mais baixo) me sobrava em têmpera, determinação e coragem. Nada a ver com o cara que hoje hesita até diante de um cágado -- ou do adjetivo, sem acento.

Mas Adão pelava-se de medo. Estava até mais lívido, não fossem as nódoas de sujeira que lhe conferiam, junto com a voz pastosa de bêbado, um ar abjeto, miserável.

Agora o cara queria fugir dali, ficar o mais distante possível do irmão violento, dos murros e pontapés aos quais nunca reagira e que deixavam marcas. Fiquei sabendo depois de muito insistir em compreender seus grunhidos, que fazia uns dois meses que não aparecia em casa.
--- Mas a casa não é sua também? Não foi o único bem que seu pai deixou para vocês dois? Então a casa é tanto sua quanto dele -- observei, apresentando argumentos oferecidos pelo próprio Adão, na longa marcha de pouco mais de um quilômetro, que já durava perto de duas horas.

Prometi a ele que não deixaria o irmão violento tocar nele. O encachaçado Adáo limitou-se a me olhar de cima abaixo como a dizer "e é você que vai impedí-lo de me dar porrada? rarárá...conta outra".


Não arredou o pé de onde estávamos até que o convenci a irmos até o botequim quase em frente à pequena casa caiada de branco, com borrões escuros nas partes inferiores das paredes, vindos do chão úmido. Se não ouvíssemos barulho nem víssemos luzes acesas, era sinal de que Julião não estava em casa. Afinal, era sexta-feira. E as possibilidades de seu irmão estar enchendo a cara em outro canto da cidade eram grandes.


Adão foi comigo até o pé-sujo, menos por acreditar no meu poder de defesa, mais pela chance de dormir uma noite, uma única noite sem acordar com bicudos e safanões de funcionários dos bares, gente que não se importava que bebessem até cair, desde que não tivessem que põ-los de pé no dia seguinte.

Pedi uma água sem gás; Adão um traçado com mel. Mas diante da minha negativa muda de pagar pela cachaça quando o cara que nos serviu hesitara e me olhara como que pedindo meu aval, de nada adiantaram as seguidas reclamações de Adão. Ouvi a mesma ladainha: que o cara era um bebum --- como se isso pudesse ser novidade a qualquer um que passasse a cinco metros do sujeito, quanto mais a mim, que vinha sustentando o cachaçeiro com seu cheiro azedo há duas horas; que já estava acostumado a dormir na calçada; e pasmem!, antes de ser um aviso a minha integridade física, a existência do irmão violento era a justiça encarnada, quase uma lei bíblica tão arcaica quanto a dantesca '"olho por olho, dente por dente".

Bem, mas eu e Adão permánecemos dez, 15 minutos observando atentos se havia alguma movimentação na casa , e nada! Barulho nenhum; na casinha reinava uma escuridão só. Isso era sinal de que Julião passaria a noite fora e na manhã seguinte chegaria tão cansado que só notaria a presença do irmão inúti quando acordasse, geralmente, no meio da tarde seguinte. Segundo Adão, quando o irmão acordasse, há muito ele estaria longe da casinha.

Seguros de que não encontraríamos com Julião na casa, atravessamos a rua e fomos logo invadindo o capinzal/jardim da casinha caiada de branco. Uma dúvida me fez parar antes mesmo de divisar a porta da casa.

--- Ih!! Me diz uma coisa: cumé que a gente vai entrar na casa? Duvido que você carregue uma chave consigo...-- falei, enquanto freiava bruscamente o quase galope que nos conduzia rumo á porta.



Nisso, vislumbrei, graças a um relâmpago que a todo escuro iluminou, um tanque em frente à porta da modesta casinha. Havia um amontoado de panelas e pratos sujos. Imundos, ainda com resto de comida mixado a um filete de água que insistia em pingar, embora a torneira exibisse um pano preso à guiza de contenção do vazamento. Diante da minha súbita brecagem, Adão seguiu em frente e estabacou-se. Mas agarrando-se a mim, ergueu-se e respondeu minha pergunta:
--- Tem erro não. Nas sextas, ele deixa sempre a chave num vaso de guiné e comigo-ninguém-pode -- disse, procurando a chave num dos vasos que ladeiavam a porta da casa.

Nisso, esbarrei na porta, que não dispunha de maçaneta, e ela se escancarrou toda, emitindo um gincho à medida que se abria.

Mal notou que a porta da casa abrira, Adão tratou de entrar, tropeçando em mim e se esborrachando no chão averrmelhado. Mas não se machucou. Rapidamente, levantou-se, apoiando-se na porta semi-aberta e procurou o interruptor.Click, click e necas de luz.

-- Caramba, será que cortaram a luz? -- falou em tom normal, Adão, nem baixo nem alto.

Estava um bréu dentro da casa. Minhas pupilas não se acostumaram rapidamente à escuridão, de modo que quando percebi que diante de mim tinha uma esteira, chamei Adão, ainda confuso diante da falta de luz, mantendo a porta semi-aberta.

-- Deita aqui logo e encosta este treco -- um aquecedor a gás, também conhecido como 'rabo-quente' -- na porta. Pesa o suficiente para manter a porta encostada, e não impedirá seu irmão de entrar -- disse, enquanto Adão se aninhava na esteira.

Estava me preparando para deixar a casa, quando ouço uma voz tonitruante berrar comigo, me cortando a saída.

-- Que porra é essa?Agora este cachaceiro precisa que playboys tragam ele em casa? -- perguntou, Julião, já esculachando nós dois.

Apesar da estrondosa voz, ainda era impossível divisar a silhueta de quem emitira a ofensa no bréu do quarto. Mesmo sem conseguir vê-lo, fui bem direto e ousado:

-- Você deve ser o Julião, o irmão que desce porrada no bebum do Adão. E só espanca o caboclo quando ele sequer pode reagir... Bonito... e covarde.

--- Você num sabe da missa a metade. Este puto que deve estar todo cagado de medo atrás de você só faz encher a cara, num bota um vintém sequer em casa -- a voz agora era esganiçada, contrastando com o tom gutural da primeira vez.
--- Desculpe, senhora, sequer podia imaginar que estivesse aqui... --- disse, sendo bruscamente interrompido pela "gentil dama":

--- Senhora é o caralho!! Sou puta mesmo e só estou debaixo
do Julião porque depois ele me paga.

Diaante de tamanha finura, senti que seria perda de tempo tentar catequizá-los e fui na canela.

-- Me faz um favor, Julião? Num desce o braço no seu irmão hoje não, tá? -- e concluí: -- E quando ele acordar, dê um café da manhã decente pra ele, sim? Tô deixando 40 paus. Compra pão, manteiga, leite e dá pra ele, beleza?

E antes que o armário de Sicupira viesse até mim -- o cara devia estar pelado -- encostei a porta da casinha caiada de branco, dei-lhes um audível "Boa noite"
e parti de minha aventura mundo-cão.


Antes do terceiro passo rumo ao meu universo -- aquilo ali nada tinha a ver comigo, pensei e agradeci -- Julião pôs a cabeça -- encimada por uma carapinha curta -- e com voz que nada lembrava a tonicidade de dois minutos atrás.

-- Pode deixar que não vou bater nele, não. Adeus e muito obrigado. Vai com Deus -- disse num "gutural suave". Olhei para trás, vi o rosto do irmão que espancava porque se achava dentro do sistema, sorri para ele e bati continência com dois dedos em riste.


Isso aconteceu sexta à noite. Portanto, não era de se espantar que no dia seguinte eu pulasse em cima de um fiat da polícia do czmpuss.
A cena era chapliniana. À frente de uma multidão, que se aglomerava nas escadarias do refeitório, descia pela calçada e alcançava o estacionamento, uma figura pequena, magra, esquálida até, gritava palavras de ordem na mais concorrida assembléia realizada naquele começo de ano, o último da década de 70 do século passado, 1980.



- A gente não pode continuar se curvando diante dos desmandos da reitoria. Senão em breve o bandejão vai estar custando 50 merrecas (não tenho mesmo como lembrar da moeda vigente). Só que aí num vai dar mais para lutar não. A gente tem que contestar este aumento no bandejão hoje, agora – fremia Noel, um baiano de bigodinho e alguma influência sobre a audiência, embora fosse notoriamente radical.



Era apenas a segunda pessoa a falar naquela assembléia que decidiria se haveria greve ou não. Mas antes que ele terminasse seu inflamado discurso, André e Flávio já tiravam o cadeado de suas bicicletas e preparavam-se para voltar ao nosso apartamento.

-- Vam’bora, Eros. Vai ser a ladainha de sempre e este bando de vagabundos vai decidir pela greve. A gente se adianta e começa a fazer as malas. Assim, amanhã a gente pode estar indo pro Voltaço – disse-me André.



Eu permaneci sentado no meio-fio, de onde ouvia bem o discurso e via as peripécias corporais de Noel, segundo muitos alunos, um estudante profissional, havia pelo menos seis anos em Viçosa.

-- Vou não, André. Vou ficar até o fim da assembléia. Aí eu conto em primeira mão se a greve foi decretada ou não – prometia.

André achou absurda minha posição:

-- Cara, cê num vai ficar aqui escutando este monte de baboseira, dita por um monte de jeca, vai?

- Vou, André. Vou ver no que vai dar – finquei pé, enquanto André e Flávio montavam em suas bicicletas.

- Então vamos logo, André. Deixa ele aí... Tô morrendo de sono – disse Flavão, referindo-se a uma prática mantida religiosamente por nós três, depois do almoço de domingo: tirar uma sesta de uma, uma hora e meia.

Flávio era um conterrâneo que só tínhamos conhecido lá em Viçosa, logo nos nossos primeiros dias de faculdade. Nos demos hiperbem e duas semanas mais tarde, ele já tinha se mudado para a pocilga, ou melhor, para a pensão onde resistimos o primeiro semestre de UFV. Ele era da mesma igreja, batista, eu acho, que o Muel, um vizinho e amigo de infância. A igreja ficava no bairro do Aterrado, em Volta Redonda, e Flávio não morava muito longe da igreja, não.



Não deu outra. Depois de uma hora e meia de falação, procedeu-se uma votação entre os presentes e tomou-se a greve como decisão majoritária. Fui voto vencido. Eu e mais uns dez manés que tiveram coragem de externar sua discordância diante de uns 500 fanáticos defensores da greve. O motivo para a paralisação imposta pelos alunos: uma elevação de três (3) merrecas no preço do bandejão. A refeição iria de oito para 11 merrecas.



Continuaria a custar porra nenhuma, ainda mais levando-se em conta a qualidade da comida.



Era excelente. Um nutricionista sempre acompanhava in loco as refeições e estava aberto a reclamações (muitas, como em qualquer serviço público) e sugestões (poucas). Tudo era anotado em folhas dispostas sobre pranchetas coloridas.



Não havia como comparar com a comida servida na Federal do Rio, por exemplo. Tá, o bandejão custava centavos, mas assemelhava-se a lavagem servida a porcos. Frequentemente eram encontrados pregos, arruelas e parafusos na comida; até um band-aids foi achado em meio aos grãos de feijão e virou foto ilustrando reportagens nos jornais cariocas.



Bem, decidida a paralisação tratei logo de me inteirar dos comitês de greve e do que cada cuidava. Estava interessado em um que era para comprovar que o aumento de três merrecas ia bagunçar a vida financeira dos alunos que dependiam do Crédito Educativo.

Era um sistema de crédito com o qual o Governo Federal subvencionava a permanência do aluno na faculdade. Três anos depois de formado – acho que era este o intervalo -- o estudante era obrigado a começar a ressarcir a União.

E em Viçosa era grande o número de alunos que dependiam do crédito. Nós conhecíamos um cara, colega de dois baianos “porretas” dos quais nós (eu, André e Flavão) nos aproximamos muito nos primeiros tempos de Viçosa.

O cara chamava-se Sérgio, morava num quarto na mesma pensão em que Artur e Boca, os baianos, moraram no primeiro semestre de 1979, primeiro ano de todos nós em Viçosa.

E o sujeito cortava um dobrado para se manter. Sua única fonte de renda era o Crédito Educativo. Os pais, moradores de Niterói, não podiam bancá-lo, mesmo numa escola pública.

E agora Serginho estava numa sinuca de bico. Tudo que não queria era uma paralisação que lhe frustrasse os planos de se formar no fim do ano. Mas não havia como ser contrário à greve. Segundo garantira para mim, André,o baiano Artur, e pra quem se aproximasse dele.



Agora, imagina o Serginho, um pusta CDF, com uma média de nota superior a 8,5, fazendo piquete no prédio de Solos, onde era monitor da matéria Solos 4?!!!!!

A bolsa do Crédito Educativo era reajustada de dois em dois meses. E naquela década, a de 1980, a inflação galopava na casa de dois dígitos mensais. Sobreviver com a grana do crédito era algo impensável para nós, filhinhos de papais da classe média.

Tudo aumentava. Era mais do que compreensível que subisse também o preço do bandejão, o que não acontecia há pelo menos três anos. Ainda que dobrasse o preço da comida, a universidade continuaria a subvencionar, com muita verba, a ótima bóia servida no restaurante central.



Estes dramas pessoais, como o do Serginho, e a sincera disposição de dar uma guinada de 180 graus na minha vida em relação à cidade, à UFV e a seus estudantes foram o que motivara a transformação de meus dias de greve num vendaval de reais e doloridas mudanças.



Na mesma noite em que foi decretada a greve, fiquei conhecendo um camarada chamado William, um dos líderes da greve. Sua estampa nem de longe lembrava um típico grevista. Nada de cabeleiras e barbas que remetiam a Che e a Fidel, a clássica figura de um revolucionário. Uma imagem limpa que contrastava com outros líderes grevistas, que faziam questão de parecer o mais sujo possível. Acho que a sujeira ajudava a consolidar o ar obscuro e o par de olhos verdes naquela cara dissipava aquele pedantismo tão arraigado àqueles que faziam política estudantil.

-- Ué, mas você não foi contrário à greve? – perguntou-me William antes de passar instruções a mim e à uma menina, que ficaria incumbida do dormitórios femininos mantidos pela universidade para quem não tinha como se bancar.

Dei-lhe a resposta mais politicamente correta possível.

-- Sou contra a greve, mas fui voto vencido. Eu quero participar agora, Ver se esta bosta de greve tem alguma razão de ser – disse-lhe, sendo sincero.



William, que era aluno de um curso não muito comum, algo parecido com técnico em laticínio olhou para mim e para Goretti, era assim que se chamava a garota que investigaria os alojamentos femininos, e disse:

-- Amanhã, lá pelas nove da manhã, cês começam. Ao longo do trabalho, se vocês sentirem dificuldades, coloco mais gente para ajudar vocês. E a gente se encontra às sete e meia da noite para vermos como foi o primeiro dia de trabalho – disse William, despedindo-se de nós.

Fiz o mesmo com Goretti e fui de bicicleta para casa.

Passava de nove da noite quando cruzei a porta dos fundos lá de casa. A da frente, de vidro e de correr, davamorto, que bem representava nossa relação com a cidade. O cômodo mais nobre da casa estava cheio de tralhas.

Encontrei Flávio e André ouvindo Queen. A primeira coisa que ouvi foi uma pergunta feita em uníssimo pelos dois:

-- Declararam greve?

-- Ham, ham – respondi.

-- E você ficou na assembleia até o final? Aquela chatura, insuportável. Cê é um pastel mesmo – disse-me André.

-- Nós já começamos a fazer as malas e zarpar amanhã cedo pro Voltaço – falou Flávio, acrescentando: -- Começa a fazer a sua ainda hoje...Se tivermos sorte, vão ser, pelo menos, duas semanas no Voltaço...Êba!



Eu tirei os tênis e mergulhei na minha cama. Disse-lhes de maneira a não deixar dúvidas quanto à minha decisão de não estender as férias recém-encerradas:

­-- Olha, eu não vou para Volta com vocês. Quero entender o porque desta greve. E já que vou passar pelo menos mais três anos aqui, vou tentar conviver com os nativos e os jecas da cidade.



Eu já sabia de cor e salteado o que o André achava dos grevistas, e até certo ponto concordava com ele. Mas, ainda assim, seguiu-se a velha cantilena enfatizando “vagabundos”, “grevistas profissionais”, “greve por umas merrecas”. Seu discurso trazia uma novidade: a surpresa por eu passar para o lado dos “vagabundos”. Flávio nada dizia, limitando-se a balançar a cabeça nos pontos mais fortes do discriminatório e recorrente discurso de André.



-- André, eu ainda tenho pelo menos três anos e meio de Viçosa. Não quero passar todo este tempo odiando a universidade e os alunos daqui, esta jecaiada , como você diz. Quero e vou me integrar, fazer novos amigos – disse.

Acho que foi nesta ocasião que o André emendou de bico, com uma frase lapidar.

-- Eros, os amigos que eu tinha que fazer eu já fiz. Daqui pra frente serão só colegas e conhecidos -- disparou, convicto, no alto de seus recém-completados 19 anos.

Confesso que a sentença, extrema e descabida de propósito (o cara era muito novo para uma afirmação tão taxativa) em vez de me alarmar, me deixou foi muito lisonjeado. Eu sabia fazer parte daquele seleto clube de eleitos por André – ainda hoje um sujeito muito seletivo.

Mas sabia que ouviria muito por minha decisão de ficar. E realmente André falou pra caramba, tentou me convencer a ir com ele e Flavão pro Voltaço. Mas eu também estava irredutível. Desta vez, iria me integrar a Viçosa.

No dia seguinte, tão logo André e Flávio seguiram para Volta Redonda, eu também deixei a casa, de bicicleta, rumo à universidade.
Fui direto para os alojamentos masculinos, que ficavam num prédio recém-construído em frente ao lago. Tão novo quanto os alojamentos, era o lago, que brotara do desvio do curso de um riacho que passava nos fundos da pensão/república/pocilga na qual resistimos o primeiro semestre em Viçosa.

Conversei com uns camaradas que conhecia e subi rapidamente para os quartos. Eram dois prédios relativamente pequenos. Tinham três andares cada um, algo entre dez e 14 quartos em cada andar e dois beliches por quarto, que ainda contavam com duas escrivaninhas e dois armários. Ou seja, o espaço para circulação era mínimo.

Obedecendo a um esquema simples e óbvio, fui primeiro ao primeiro quarto do primeiro andar, o 101. Lá, encontrei os quatro alunos que dividiam o apartamento.

Apresentei-me e fiz um inventário montado com perguntas sugeridas por Williams e outras de cunho próprio. Os dois primeiros casos o que os caras gastavam não fechavam com o crédito educativo e só com a parca grana mandada de casa conseguiam equilibrar o orçamento. Com um aumento de sete merrecas por dia, além do aumento de três no almoço e no jantar, o café da manhã aumentara de três para quatro merrecas, teriam que cortar um os maços de cigarros; o outro teria que cortar radicalmente o cineminha dos fins de semana. E olha que nem computei gastos com roupas e calçados. Ouvi os dois outros moradores do 101 e apertando muito o cinto – os pais não eram tão pobres – dava para manter os pequenos vícios (meio maço de cigarros e porres de cachaça quinzenalmente em qualquer botequim), além de fazer as duas refeições mais o café da manhã devidamente majorados.

Em questão de minutos, minha presença, ou melhor, a presença de um recenseador, se espalhou pelos alojamentos masculinos.
E a informalidade tomou conta de meu questionário de maneira indelével . Foi uma manhã e uma tarde – separadas pelo almoço, por incrível que pareça o bandejão da universidade continuava a servir café da manhã, almoço e jantar pelo preço antigo para os grevistas – atípicas. Conversei longa e amistosamente com sujeitos que em outros tempos, sequer trocaria xingamentos.
Donos de sotaques típicos do interior de Minas e São Paulo eram motivo de galhofa pelos três volta-redondenses. Mas eu quebrei a cara. Os sujeitos que falavam o dialeto da poRteira veRde do BeRnaRdo eram legais. As únicas diferenças conosco eram o sotaque e os hábitos caipiras arraigados – como a adoração àquelas fivelonas nos cintos e o uso indiscriminado de botas.

Mas tinham as mesmas inseguranças que eu, André e Flávio. Os mesmos medos, as mesmas incertezas, hoje borrões esmaecidos em personas de 50 anos ou quase.

E foi naquele recenseamento, informal, uma verdadeira festa onde conversei com muita gente e coletei opiniões congruentes e bem embasadas que virei implacável, ardoroso e intransigente defensor da greve.
Sem percorrer os 90 apartamentos dos dois prédios, conversei com quase todos moradores. A carência era grande, sim. Assim como descobri uma verve que não sabia ser minha. Tinha resposta para todo questionamento e acho que pela primeira vez na vida, me senti protagonista. Afinal, minha presença tinha catalisado a atenção de perto de 300 estudantes.

A anarquia e a espontaneidade daquele primeiro contato com os grevistas foram marcantes. Foi a minha primeira ação sem a tutela de André, até hoje meu melhor amigo, e desde aquela época um direitista com tendência a deletar posturas de esquerda. E sempre que discutíamos sobre política, ele argumentava (argumenta) muito bem, enquanto eu não conseguia expandir meus pontos de vista; era (sou) uma hesitação só.

E pela primeira vez, estava vendo Viçosa como realmente era e estava gostando do que via. Apesar de ter entrada na UFV em 1979, foi com calouros do ano seguinte que me sentia à vontade. Dois fatores contribuíram para minha integração com este povo.

Primeiro, tinha uma conterrânea entre os calouros de 1980. Uma menina chamada Patrícia Bustamante. Sorriso farto e sincero, companhia e papo agradabilíssimos. Teria me apaixonado, tivesse alguma dúvida quanto ganharia com sua amizade.

Ao mesmo tempo em que me maravilhava com a genuinidade agreste de uma menina nascida em Volta Redonda, fui me encantando com caras e meninas dispostos a vivenciar e conhecer pra valer Viçosa. Se a universidade estava em greve, não faltava o que fazer por lá.

Havia uma dezena de atividades a serem desenvolvidas pelos alunos em greve em Viçosa. Os habitantes de Viçosa eram, em sua maioria, pequenos agricultores. E embora minha experiência fosse nenhuma, assim como a dos calouros, eram mais braços e disposição para ajudar a semear, limpar terrenos e podar árvores. Ou seja, mais gente para obedecer aos aldeões. E mão-de-obra gratuita. Sem amigos entre os poucos alunos do segundo ano que ficaram na cidade, expandi exponencialmente minhas amizades. Os calouros achavam que era um deles – e eu era. Meu debut em Viçosa estava sendo no meu segundo ano de faculdade.

Nunca, em toda a minha vida, me senti tão livre. Sim, eu fugia de minha mãe e de sua maldita doença, que gradualmente reduzia sua capacidade de lutar contra aquela ferida aberta no seio da família. A doença de Machado Joseph fechava todas as rotas de fuga.

Quando bati em retirada de casa para estudar em Viçosa, minha mãe há muito já não andava, e a doença já comprometera os movimentos de braços e mãos – minha mãe já precisava que lhe déssemos comida na boca. Era difícil entender o que falava – a desfasia era outro legado da Machado Joseph – e até para mudar o corpo de lado na cama precisava de ajuda.
Meu pai, nos últimos anos de vida de minha mãe, entrara em rota de colisão com a vida e deixar minha casa foi um pusta ato de corvadia, mas não me arrependo dele. Com 18 anos incompletos, eu achava legítimo – e continuo a achar -- querer ter minha própria vida. Acho que a distância de Volta a Viçosa foi, na época – inconscientemente, é claro – uma opção para ficar o mais distante possível do caos emocional que era minha vida em Volta Redonda. Afinal, tinha uma mãe jurada de morte por uma doença degenerativa e um pai ausente por incapacidade de lidar com nossa vida de merda.
E eu estava sozinho em Viçosa. Não tinha a quem prestar qualquer tipo de satisfação: não tinha hora para comer ou dormir. Ficava acordado a noite inteira, ouvindo todo tipo de música. Ia dormir com o dia clareando, acordava no começo da tarde, comia se e quando tinha fome.

Repeti ações politicamente corretas feitas sempre por calouros como caiar uma escola estadual, fazer hortas que pudessem contribuir para a merenda escolar. Paralelamente a estas atividades, me lembro de ajudar na área de zootecnia, botando porções de capim para cavalos em baias, e ia a uma área agrícola, era um tipo de fazenda onde desenvolvíamos alguns projetos e de onde eu avistei a plantação mais linda que jamais vi na vida. Um plantio de aveia, segundo alguém da universidade. Uma mancha verde, de um verde tão escuro, tão intenso, que parecia uma ilustração.

Foi de lá que vim montado em minha bicicleta como se montasse um cavalo. É uma imagem recorrente e lembro que estava sozinho e por algum tempo “cavalguei” minha Peugeout verde, como se ela fosse/estivesse animada, tivesse vida mesmo. Era óbvio que algo estava muito errado comigo!

Mas antes da zoeira absolutamente careta – o quê chega a ser muito mais preocupante se eu tivesse feito uso de maconha, por exemplo – falemos da minha conquista de corações e mentes de uma galera que entrou em Viçosa, em 1980.
Conterrâneo, coisa rara em Viçosa – só conhecia Flávio e André, até então – me apresentei à Patrícia alguns dias antes da Marcha Nico Lopes. A marcha era como um desfile de carnaval – era guiada por uma banda contratada pelo DCE. Acontecia sempre antes de completar um mês de aulas.

Todo mundo fantasiado e muita gente bêbada de tropicar nas próprias pernas. A Nico Lopes – que nunca me inteirei sobre quem foi e nem com o Google aberto me interesso – obedece, ano após ano, a um tema político. Sua finalidade maior é integrar calouros e veteranos. Há os que participam do desfile, indo atrás do trio-elétrico improvisado; e os que apenas acompanham, das calçadas, colegas pagando mico. Eu e a Patrícia fomos juntos e encontramos no desfile ou fora dele, um monte de amigos dela e alguns conhecidos meus.
Conheci Denise Formoso, um pouco mais velha – uns 29 anos – uma das companheiras de apartamento de Patrícia. Baixinha e nada bonita compensava estes indesejáveis atributos com uma simpatia única. Fomos de cara um com o outro. Quem cumprimentou efusivamente Patrícia e a tentou levar, sem sucesso, para a Marcha, foi Maria, a mais desatinada de todas as meninas que conheci em Viçosa. Natural de Petropólis, morava em apartamento próprio – o pai dela tinha grana -
num prédio de três andares, bem em frente ao nosso apartamento na rua Olívia....—só me lembro do primeiro nome, sequer guardei o nome do bairro. Também adorei minha vizinha, dona de uma Variant branca.

Encontrei também Ricardinho, uma das boas amizades que fiz naquela pocilga onde moramos no primeiro semestre, mamadaço. E logicamente encontrei com André e Flávio, no comecinho da marcha, ainda no campus.

Cumprimentamo-nos como velhos amigos que sempre haveremos de ser, mas acho que naquela noite caíra por terra o jugo que André tinha sobre mim. Pela primeira vez me relacionava com outras pessoas que não as mesmas com as quais mantínhamos – os três, eu, André e Flávio – algum contato. E eram poucas, muito poucas...

Sei que minha amizade com Patrícia me franqueou acesso a muita gente. Vou lista-los: Kiko, Ramon, Beleza, Tiago, Pedro, Evandro, Claudio Lyra, Joanna, Denise Formoso e sua irmã, Lucinha, todos de Belo Horizonte; mais uma dezena e meia de amigos, tanto calouros como veteranos que, como eu, gravitava em torno do alto astral da turma de 80. Tinha trêsss cariocasss no grupo: o Jorjão – não fazia sentido chamá-lo de Georjão – Renata e Majo. Em minha débil lógica, achava que chamava-se Marjot, era descendente de franceses. Era linda. Uma tez queimada de sol e algumas sardinhas na altura do nariz. Uma versão aloirada de Malu Mader. Só que Majo – sem o t que imaginava gozar de ascendência francesa – era a abreviatura de seus dois nomes: Maria José.

Bem, nem preciso dizer que me apaixonei. E como andava seguro demais, disse isto a ela. Só identifiquei lisonja em seu rosto. Nem um sim, nem um não. Também seriam respostas e num perguntei nada a ela. Só evidenciei algo que estava estampado na minha cara.

A sinceridade, o bom-mocismo, a afabilidade e sobretudo, o entusiasmo, foram vitais para que ganhasse a total confiança daquelas pessoas que viam Viçosa com olhos muito mais carinhosos que os meus. Mas estes sentimentos que geraram esta empatia com o povo que entrara em 1980 era genuíno (Alcione, bem sei que eu só disse o quanto era venerado pelos calouros. Não há uma passagem sequer que mostre o quão agudo era meu senso de equipe e quão rápido era meu tirocínio. É que isso não é ficção, aconteceu mesmo comigo. E as lembranças...algumas foram-se com os meus cabelos...). Era e me sentia um herói.
Por um perigoso lapso de tempo, ignorei completamente o que era medo. Um exemplo cabal dei uns dias antes de subir no Fiat da polícia do campus. Foi durante a semana, por volta das dez da noite. Depois de um dia cheio numa universidade vazia de alunos, mas repleta de novidades para mim, estou eu entrando numa padaria para comprar pão integral e queijo. Nunca me chamou à atenção aquele séquito de bêbados atrás da monarca “branquinha”. Até porque estes eram figurinhas fáceis em Viçosa. Nunca vi cidade com tantos botequins, e consequentemente, bebuns. Assim, os pinguços se proliferavam nas esquinas feito moscas.

Mas eu não era detentor desta razão tão mesquinha que caracteriza a imensa maioria dos mortais. Ou melhor, eu não detinha, naquele momento qualquer resquício de sentimentos baixos. E me veio tão tola quanto altruísta pergunta, seguindo-se a um óbvio comentário: “Nunca levei um bêbado até a casa dele. Num é que uma boa idéia?”

Estavam fechando a padaria, os empregados já abaixavam o gradil das portas e acordavam um bêbado conhecido deles e de clientes contumazes.

-- Acorda, Adão. Vá para casa...Já estamos fechando... – disse-lhe o cara que há pouco me vendera pão e presunto.
Àquela altura, ele era o único bêbado no local, dormindo no chão do estabelecimento. E era tratado com um misto de complacência e pena pelos empregados.
Adão, um escurinho ensebado com roupas idem, acordara, mas não saíra do transe imposto aos bêbados. Com voz pastosa dirigiu-se ao sujeito que lhe acordara:
-- Que horas são, Paulinho?
-- A mesma (sic) de ontem. A gente fecha a padaria sempre 20 pras dez e toca você – respondeu-lhe o atendente, com uma vassoura na mão.
Adão só se arrastou pra fora da padaria, se esparramando na calçada em frente.
Foi quando cheguei para ele e me apresentei, como às minhas intenções.
Adão me olhou tão ressabiado quão um cara às vésperas de coma alcóolica pode olhar. De quebra, emendei:
-- E a gente leva ainda presunto e pão para a sua casa.
Adão ainda tentou ficar de pé para me encarar “olho no olho” e descobrir meus reais interesses. Afinal, por que um menino branco se interessaria por um bebum preto e sujo como ele?

Mas a tentativa de ficar em pé quase resultou em tombaço. Assim, quando, ofereci ajuda -- referia-me, agora, a algo mais imediato, a dificuldade de ficar de pé – foi suscinto.
-- Acho que bêbo como tô, num vô conseguir chegar em casa –- disse Adão, com fala pastosa e que só prestando muita e exclusiva atenção era possível compreender e, assim mesmo, não tudo.

Incapaz de ficar de pé sozinho, respondeu com um grunhido, o que entendi como um “sim” à minha proposta, formulada mais uma vez.

Tratei de pôr logo mãos à obra, primeiro passando a corrente com o cadeado prendendo a bicicleta num postinho magro e há muito esquecido pela CEMIG, a companhia de eletricidade de Minas. Sem mais me preocupar com a bicicleta, cuidei de meu objeto de atenção: o encachaçado Adão.

-- Onde você mora, companheiro?
O cara tava tão bêbado que não me respondia por absoluta surdez etílica.
Olhei em volta e o cara que o acordara, Paulinho, já tomava o rumo de casa, quando lhe abordei, perguntando se sabia onde Adão morava.
-- Sei que tem que descer esta ladeira toda – nós estávamos no alto de uma rua íngreme pacas – Mas precisar onde ele mora, não posso – disse-me Paulinho, capanga (um dos acessórios mais bregas do vestuário masculino, ainda mais brega que a pochete) presa ao pulso direito.
Emendou uma pergunta na resposta:
-- Cê num tá pensando em leva-lo em casa, não, tá?

Diante da minha confirmação com a cabeça e um vago “hum, hum”, ouvi a primeira de várias advertências sobre a inutilidade do meu ato.
-- Este sujeito é um pinguço! Amanhã ele volta a encher a cara e ficar num canto, feito um cão. Deixa ele. Amanhã quando acordar, ele toma o rumo de casa – falou Paulinho, a quem agradeci, já amparando Adão, e seguindo o caminho que o funcionário da padaria indicara.
Adão exalava aquele fedor típico de quem não via banho há dias; aquele cheiro ocre de suor
várias vezes seco, sem ver água. As roupas também estavam imundas. Adão ostentava um machucado no alto do nariz, que já tinha alguns dias, uma vez que apresentava aquela casquinha de cicatrização. Pelo local do machucado, era fruto de alguma queda do bebum.

Inicei na padaria, uma autêntica via-crúcis, com as bíblicas estações substituídas por pés-sujos. Como não sabia exatamente onde o cara morava e no caminho da casa dele tinha mais de uma dezena de botequins, de tempos em tempos, eu perguntava se conheciam Adão e se sabiam onde ele morava.

Eu me imaginei personagem de uma parábola. A “Parábola da Negação”. Pois a cada parada, só ouvia “deixa ele aí”, “ele é um vagabundo cachaceiro”, “amanhã vai estar bêbado de novo” e outras sandices semelhantes.

E enquanto levava Adão para casa, fui percebendo que o cara tinha medo! Não consegui saber de que, pois a fala era muito arrastada, incompreensível. Falamos pouco durante o trajeto, isto é, eu falei. Pedi que facilitasse a mim, que além de estar escorando um cara um pouquinho mais pesado do que eu, no meio do caminho resolvera deitar na calçada e apagar por ali mesmo.

--- Adão! Adão! Vamos embora... Já estamos perto de sua casa. Falta pouco. Vamos lá. Eu te levo na cacunda – sugestão prontamente acatada pelo neguinho cujo cheiro empesteava o ar.
Paramos para tentar localizar a casa do cara em quatro botequins, duas padarias
e um mercadinho. Isso em pouco mais de um quilômetro e cem metros – distância da padaria onde encontrara Adão e o casebre onde morav. Não podia dar chance ao azar. Não queria andar um metro a mais sequer com o bebum a tira-colo. A mesma cantilena repetiu-se em todos os lugares em que pedira informação. “Deixa o cara aí. Tá chapadaço.”, “Amanhã esse bebum volta a encher a cara e você cisma de levá-lo no casebre onde ele mora?” “Larga a mão disso, rapá! Encosta este pé-de-cana num canto qualquer!” Ouvi frases como esta em meio a outros estimulantes comentários.

Se enchesse Adão de bicudas, cobrisse o cara de porrada, acho que ninguém ia intervir; era até bem provável que me ajudassem a espancá-lo. Eles podiam não saber por que batiam, mas o bebum certamente sabia porque apanhava, deviam pensar.

Negociei com o bêbado, e só andei com ele nas costas uns 200 metros. À medida que nos aproximávamos daquilo que era o segundo lar de Adão; o primeiro, sem dúvida, era as calçadas e sarjetas imundas da cidade, onde dormia e acordava dias seguidos depois de “cachaçadas” homéricas, notara uma inquietação no rosto dele.

Pois descobri a razão da inquietação de Adão no penúltimo lugar onde paramos e perguntei se o dono ou algum atendente do pé-imundo sabia onde o cara morava.
--- Porra, Adão!! Cê num se emenda, né, seu merda!? Num é à toa que o Julião vive te enchendo de porrada! – disse-lhe o caboclo atrás do balcão, curto até mesmo para um mínimo pé-inchado, como aquele boteco xexelento.
--- Amigo, alguém aqui te xingou? – interpelei o atendente, que já desconfiou que fez besteira ao xingar Adão.
Modulando seu tom uma oitava abaixo, o sujeito tentou minimizar o que fizera:
-- Não. É que este cara vive bêbado; tá sempre caindo pelas tabelas e até obrigou o senhor a trazê-lo aqui...
-- Primeiro, ao que me consta, ele não perturba ninguém aqui. Do contrário, num estaria bebendo cachaça lá na (rua) Adamastor (Nunes), há quase um quilômetro deste pé-sujo. Segundo, ninguém sequer me pediu para trazer o cara em casa. Tô fazendo isso porque quero. E terceiro, e o mais importante: não fossem pinguços como ele, você num teria emprego.
E não parei não:
-- Ou acha que o dono deste botequim ia precisar de você só para servir média com pão com manteiga de manhã? Por isso, acho que todo dia, antes de dormir, você deveria agradecer a Deus por existir cachaceiros como ele. E rogar para que bêbados que nem o Adão continuem a encher a cara de cachaça.

Disse isso e imediatamente chamei Adão para deixarmos o pé-sujo. Já íamos descendo a rua, quando o funcionário do boteco – chamava-se Ernesto ou algo parecido – veio de dentro do botequim aos berros de Ei, Ei – obviamente tentando chamar minha atenção – enquanto tremulava freneticamente um pano
com qual ora limpava as mesas, ora enxugava o suor que escorria abundantemente do rosto gordo, agora vermelho e cansado, embora a distância que nos separava não chegasse a 20 metros.
Paramos e nos viramos para o gordo.
-- Olha, cê me desculpe. Não tive intenção.... – falou o atendente, sem completar a frase, ofegante que estava, com a corrida para nos alcançar.
Eu levantei a mão, em sinal de que estava tudo bem. E já me virava rumo onde achava ser a casa de Adão, quando Ernesto nos alcançou.
-- Peraí, moço – disse o cara do boteco, acrescentando a urgência de me contar algo.
–- Se vai levar o Adão pra casa dele, é bom se prevenir. Este caboclo tem um irmão que desce o cacete nele. É só encontrar com ele naquele barraco – e apontou para uma casinha isolada, a uns 300 metros do botequim, com o jardim, ou melhor, o capim, que a cercava, recém-aparado – que o Julião desce porrada nele.

-- E ninguém, vizinho algum, faz nada? Simplesmente, deixam o cara apanhar? E bêbado assim é alvo fácil...
-- Ninguém se mete. O irmão até bebe uma vez ou outra. Mas nunca como este aí. É trabalhador e num fosse ele, o Adão não teria onde dar com os costados. Ou comer um prato de comida. Pro povo, o cara tá certo. Também acho que tá certo. Só acho que às vezes, o cara extrapola. Tem dia que o Adão sequer consegue andar. Uma vez o sujeito quebrou uma cadeira nas costas do Adão. O bebum quebrou três costelas. E os dentes, então? Se Adão é banguela, certamente
Não é por causa dos tabacos que ele vive
tomando. A razão é outra. Os murros do Julião deixam a cara do Adão em petição de miséria – contou-me Ernesto, cessando a ladainha por breves segundos, só o tempo suficiente para tomar fôlego. E continuou: --E Julião num é o nome do cabra. É aumentativo de Júlio. Já viu, né? É um negão que mais parece um armário de Sicupira... Por isso é bom tomar cuidado. Se eu fosse o senhor, deixava o sujeito aí. Deixa ele decidir
se quer dormir na rua ou prefere entrar na porrada e dormir sobre um teto.
Agradeci ao atendente antes que ele engatasse um outro papo sobre as proezas etílicas do armário de Sicupira.
O medo estava agora estampado no rosto de Adão. A conversa ccom Ernesto teve um efeito devastador para o bebum. Mas não me abalara nem um pouco.
Pois se o que me faltava em fortaleza física (era magro e nanico -- media mais ou menos ínfimos 1,65m, hoje sou dois ou três centímetros mais baixo) me sobrava em têmpera, determinação e coragem. Nada a ver com o cara que hoje hesita até diante de um cágado -- ou do adjetivo, sem acento.

Mas Adão pelava-se de medo. Estava até mais lívido, não fossem as nódoas de sujeira que lhe conferiam, junto com a voz pastosa de bêbado, um ar abjeto, miserável.

Agora o cara queria fugir dali, ficar o mais distante possível do irmão violento, dos murros e pontapés aos quais nunca reagira e que deixavam marcas. Fiquei sabendo depois de muito insistir em compreender seus grunhidos, que fazia uns dois meses que não aparecia em casa.
--- Mas a casa não é sua também? Não foi o único bem que seu pai deixou para vocês dois? Então a casa é tanto sua quanto dele -- observei, apresentando argumentos oferecidos pelo próprio Adão, na longa marcha de pouco mais de um quilômetro, que já durava perto de duas horas.

Prometi a ele que não deixaria o irmão violento tocar nele. O encachaçado Adáo limitou-se a me olhar de cima abaixo como a dizer "e é você que vai impedí-lo de me dar porrada? rarárá...conta outra".


Não arredou o pé de onde estávamos até que o convenci a irmos até o botequim quase em frente à pequena casa caiada de branco, com borrões escuros nas partes inferiores das paredes, vindos do chão úmido. Se não ouvíssemos barulho nem víssemos luzes acesas, era sinal de que Julião não estava em casa. Afinal, era sexta-feira. E as possibilidades de seu irmão estar enchendo a cara em outro canto da cidade eram grandes.


Adão foi comigo até o pé-sujo, menos por acreditar no meu poder de defesa, mais pela chance de dormir uma noite, uma única noite sem acordar com bicudos e safanões de funcionários dos bares, gente que não se importava que bebessem até cair, desde que não tivessem que põ-los de pé no dia seguinte.

Pedi uma água sem gás; Adão um traçado com mel. Mas diante da minha negativa muda de pagar pela cachaça quando o cara que nos serviu hesitara e me olhara como que pedindo meu aval, de nada adiantaram as seguidas reclamações de Adão. Ouvi a mesma ladainha: que o cara era um bebum --- como se isso pudesse ser novidade a qualquer um que passasse a cinco metros do sujeito, quanto mais a mim, que vinha sustentando o cachaçeiro com seu cheiro azedo há duas horas; que já estava acostumado a dormir na calçada; e pasmem!, antes de ser um aviso a minha integridade física, a existência do irmão violento era a justiça encarnada, quase uma lei bíblica tão arcaica quanto a dantesca '"olho por olho, dente por dente".

Bem, mas eu e Adão permánecemos dez, 15 minutos observando atentos se havia alguma movimentação na casa , e nada! Barulho nenhum; na casinha reinava uma escuridão só. Isso era sinal de que Julião passaria a noite fora e na manhã seguinte chegaria tão cansado que só notaria a presença do irmão inúti quando acordasse, geralmente, no meio da tarde seguinte. Segundo Adão, quando o irmão acordasse, há muito ele estaria longe da casinha.

Seguros de que não encontraríamos com Julião na casa, atravessamos a rua e fomos logo invadindo o capinzal/jardim da casinha caiada de branco. Uma dúvida me fez parar antes mesmo de divisar a porta da casa.

--- Ih!! Me diz uma coisa: cumé que a gente vai entrar na casa? Duvido que você carregue uma chave consigo...-- falei, enquanto freiava bruscamente o quase galope que nos conduzia rumo á porta.



Nisso, vislumbrei, graças a um relâmpago que a todo escuro iluminou, um tanque em frente à porta da modesta casinha. Havia um amontoado de panelas e pratos sujos. Imundos, ainda com resto de comida mixado a um filete de água que insistia em pingar, embora a torneira exibisse um pano preso à guiza de contenção do vazamento. Diante da minha súbita brecagem, Adão seguiu em frente e estabacou-se. Mas agarrando-se a mim, ergueu-se e respondeu minha pergunta:
--- Tem erro não. Nas sextas, ele deixa sempre a chave num vaso de guiné e comigo-ninguém-pode -- disse, procurando a chave num dos vasos que ladeiavam a porta da casa.

Nisso, esbarrei na porta, que não dispunha de maçaneta, e ela se escancarrou toda, emitindo um gincho à medida que se abria.

Mal notou que a porta da casa abrira, Adão tratou de entrar, tropeçando em mim e se esborrachando no chão averrmelhado. Mas não se machucou. Rapidamente, levantou-se, apoiando-se na porta semi-aberta e procurou o interruptor.Click, click e necas de luz.

-- Caramba, será que cortaram a luz? -- falou em tom normal, Adão, nem baixo nem alto.

Estava um bréu dentro da casa. Minhas pupilas não se acostumaram rapidamente à escuridão, de modo que quando percebi que diante de mim tinha uma esteira, chamei Adão, ainda confuso diante da falta de luz, mantendo a porta semi-aberta.

-- Deita aqui logo e encosta este treco -- um aquecedor a gás, também conhecido como 'rabo-quente' -- na porta. Pesa o suficiente para manter a porta encostada, e não impedirá seu irmão de entrar -- disse, enquanto Adão se aninhava na esteira.

Estava me preparando para deixar a casa, quando ouço uma voz tonitruante berrar comigo, me cortando a saída.

-- Que porra é essa?Agora este cachaceiro precisa que playboys tragam ele em casa? -- perguntou, Julião, já esculachando nós dois.

Apesar da estrondosa voz, ainda era impossível divisar a silhueta de quem emitira a ofensa no bréu do quarto. Mesmo sem conseguir vê-lo, fui bem direto e ousado:

-- Você deve ser o Julião, o irmão que desce porrada no bebum do Adão. E só espanca o caboclo quando ele sequer pode reagir... Bonito... e covarde.

--- Você num sabe da missa a metade. Este puto que deve estar todo cagado de medo atrás de você só faz encher a cara, num bota um vintém sequer em casa -- a voz agora era esganiçada, contrastando com o tom gutural da primeira vez.
--- Desculpe, senhora, sequer podia imaginar que estivesse aqui... --- disse, sendo bruscamente interrompido pela "gentil dama":

--- Senhora é o caralho!! Sou puta mesmo e só estou debaixo
do Julião porque depois ele me paga.

Diaante de tamanha finura, senti que seria perda de tempo tentar catequizá-los e fui na canela.

-- Me faz um favor, Julião? Num desce o braço no seu irmão hoje não, tá? -- e concluí: -- E quando ele acordar, dê um café da manhã decente pra ele, sim? Tô deixando 40 paus. Compra pão, manteiga, leite e dá pra ele, beleza?

E antes que o armário de Sicupira viesse até mim -- o cara devia estar pelado -- encostei a porta da casinha caiada de branco, dei-lhes um audível "Boa noite"
e parti de minha aventura mundo-cão.


Antes do terceiro passo rumo ao meu universo -- aquilo ali nada tinha a ver comigo, pensei e agradeci -- Julião pôs a cabeça -- encimada por uma carapinha curta -- e com voz que nada lembrava a tonicidade de dois minutos atrás.

-- Pode deixar que não vou bater nele, não. Adeus e muito obrigado. Vai com Deus -- disse num "gutural suave". Olhei para trás, vi o rosto do irmão que espancava porque se achava dentro do sistema, sorri para ele e bati continência com dois dedos em riste.


Isso aconteceu sexta à noite. Portanto, não era de se espantar que no dia seguinte eu pulasse em cima de um fiat da polícia do czmpuss.
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Filhos de Machado Joseph

terça-feira, 8 de novembro de 2011
surto 2.4
A cena era chapliniana. À frente de uma multidão, que se aglomerava nas escadarias do refeitório, descia pela calçada e alcançava o estacionamento, uma figura pequena, magra, esquálida até, gritava palavras de ordem na mais concorrida assembléia realizada naquele começo de ano, o último da década de 70 do século passado, 1980.



- A gente não pode continuar se curvando diante dos desmandos da reitoria. Senão em breve o bandejão vai estar custando 50 merrecas (não tenho mesmo como lembrar da moeda vigente). Só que aí num vai dar mais para lutar não. A gente tem que contestar este aumento no bandejão hoje, agora – fremia Noel, um baiano de bigodinho e alguma influência sobre a audiência, embora fosse notoriamente radical.



Era apenas a segunda pessoa a falar naquela assembléia que decidiria se haveria greve ou não. Mas antes que ele terminasse seu inflamado discurso, André e Flávio já tiravam o cadeado de suas bicicletas e preparavam-se para voltar ao nosso apartamento.

-- Vam’bora, Eros. Vai ser a ladainha de sempre e este bando de vagabundos vai decidir pela greve. A gente se adianta e começa a fazer as malas. Assim, amanhã a gente pode estar indo pro Voltaço – disse-me André.



Eu permaneci sentado no meio-fio, de onde ouvia bem o discurso e via as peripécias corporais de Noel, segundo muitos alunos, um estudante profissional, havia pelo menos seis anos em Viçosa.

-- Vou não, André. Vou ficar até o fim da assembléia. Aí eu conto em primeira mão se a greve foi decretada ou não – prometia.

André achou absurda minha posição:

-- Cara, cê num vai ficar aqui escutando este monte de baboseira, dita por um monte de jeca, vai?

- Vou, André. Vou ver no que vai dar – finquei pé, enquanto André e Flávio montavam em suas bicicletas.

- Então vamos logo, André. Deixa ele aí... Tô morrendo de sono – disse Flavão, referindo-se a uma prática mantida religiosamente por nós três, depois do almoço de domingo: tirar uma sesta de uma, uma hora e meia.

Flávio era um conterrâneo que só tínhamos conhecido lá em Viçosa, logo nos nossos primeiros dias de faculdade. Nos demos hiperbem e duas semanas mais tarde, ele já tinha se mudado para a pocilga, ou melhor, para a pensão onde resistimos o primeiro semestre de UFV. Ele era da mesma igreja, batista, eu acho, que o Muel, um vizinho e amigo de infância. A igreja ficava no bairro do Aterrado, em Volta Redonda, e Flávio não morava muito longe da igreja, não.



Não deu outra. Depois de uma hora e meia de falação, procedeu-se uma votação entre os presentes e tomou-se a greve como decisão majoritária. Fui voto vencido. Eu e mais uns dez manés que tiveram coragem de externar sua discordância diante de uns 500 fanáticos defensores da greve. O motivo para a paralisação imposta pelos alunos: uma elevação de três (3) merrecas no preço do bandejão. A refeição iria de oito para 11 merrecas.



Continuaria a custar porra nenhuma, ainda mais levando-se em conta a qualidade da comida.



Era excelente. Um nutricionista sempre acompanhava in loco as refeições e estava aberto a reclamações (muitas, como em qualquer serviço público) e sugestões (poucas). Tudo era anotado em folhas dispostas sobre pranchetas coloridas.



Não havia como comparar com a comida servida na Federal do Rio, por exemplo. Tá, o bandejão custava centavos, mas assemelhava-se a lavagem servida a porcos. Frequentemente eram encontrados pregos, arruelas e parafusos na comida; até um band-aids foi achado em meio aos grãos de feijão e virou foto ilustrando reportagens nos jornais cariocas.



Bem, decidida a paralisação tratei logo de me inteirar dos comitês de greve e do que cada cuidava. Estava interessado em um que era para comprovar que o aumento de três merrecas ia bagunçar a vida financeira dos alunos que dependiam do Crédito Educativo.

Era um sistema de crédito com o qual o Governo Federal subvencionava a permanência do aluno na faculdade. Três anos depois de formado – acho que era este o intervalo -- o estudante era obrigado a começar a ressarcir a União.

E em Viçosa era grande o número de alunos que dependiam do crédito. Nós conhecíamos um cara, colega de dois baianos “porretas” dos quais nós (eu, André e Flavão) nos aproximamos muito nos primeiros tempos de Viçosa.

O cara chamava-se Sérgio, morava num quarto na mesma pensão em que Artur e Boca, os baianos, moraram no primeiro semestre de 1979, primeiro ano de todos nós em Viçosa.

E o sujeito cortava um dobrado para se manter. Sua única fonte de renda era o Crédito Educativo. Os pais, moradores de Niterói, não podiam bancá-lo, mesmo numa escola pública.

E agora Serginho estava numa sinuca de bico. Tudo que não queria era uma paralisação que lhe frustrasse os planos de se formar no fim do ano. Mas não havia como ser contrário à greve. Segundo garantira para mim, André,o baiano Artur, e pra quem se aproximasse dele.



Agora, imagina o Serginho, um pusta CDF, com uma média de nota superior a 8,5, fazendo piquete no prédio de Solos, onde era monitor da matéria Solos 4?!!!!!

A bolsa do Crédito Educativo era reajustada de dois em dois meses. E naquela década, a de 1980, a inflação galopava na casa de dois dígitos mensais. Sobreviver com a grana do crédito era algo impensável para nós, filhinhos de papais da classe média.

Tudo aumentava. Era mais do que compreensível que subisse também o preço do bandejão, o que não acontecia há pelo menos três anos. Ainda que dobrasse o preço da comida, a universidade continuaria a subvencionar, com muita verba, a ótima bóia servida no restaurante central.



Estes dramas pessoais, como o do Serginho, e a sincera disposição de dar uma guinada de 180 graus na minha vida em relação à cidade, à UFV e a seus estudantes foram o que motivara a transformação de meus dias de greve num vendaval de reais e doloridas mudanças.



Na mesma noite em que foi decretada a greve, fiquei conhecendo um camarada chamado William, um dos líderes da greve. Sua estampa nem de longe lembrava um típico grevista. Nada de cabeleiras e barbas que remetiam a Che e a Fidel, a clássica figura de um revolucionário. Uma imagem limpa que contrastava com outros líderes grevistas, que faziam questão de parecer o mais sujo possível. Acho que a sujeira ajudava a consolidar o ar obscuro e o par de olhos verdes naquela cara dissipava aquele pedantismo tão arraigado àqueles que faziam política estudantil.

-- Ué, mas você não foi contrário à greve? – perguntou-me William antes de passar instruções a mim e à uma menina, que ficaria incumbida do dormitórios femininos mantidos pela universidade para quem não tinha como se bancar.

Dei-lhe a resposta mais politicamente correta possível.

-- Sou contra a greve, mas fui voto vencido. Eu quero participar agora, Ver se esta bosta de greve tem alguma razão de ser – disse-lhe, sendo sincero.



William, que era aluno de um curso não muito comum, algo parecido com técnico em laticínio olhou para mim e para Goretti, era assim que se chamava a garota que investigaria os alojamentos femininos, e disse:

-- Amanhã, lá pelas nove da manhã, cês começam. Ao longo do trabalho, se vocês sentirem dificuldades, coloco mais gente para ajudar vocês. E a gente se encontra às sete e meia da noite para vermos como foi o primeiro dia de trabalho – disse William, despedindo-se de nós.

Fiz o mesmo com Goretti e fui de bicicleta para casa.

Passava de nove da noite quando cruzei a porta dos fundos lá de casa. A da frente, de vidro e de correr, davamorto, que bem representava nossa relação com a cidade. O cômodo mais nobre da casa estava cheio de tralhas.

Encontrei Flávio e André ouvindo Queen. A primeira coisa que ouvi foi uma pergunta feita em uníssimo pelos dois:

-- Declararam greve?

-- Ham, ham – respondi.

-- E você ficou na assembleia até o final? Aquela chatura, insuportável. Cê é um pastel mesmo – disse-me André.

-- Nós já começamos a fazer as malas e zarpar amanhã cedo pro Voltaço – falou Flávio, acrescentando: -- Começa a fazer a sua ainda hoje...Se tivermos sorte, vão ser, pelo menos, duas semanas no Voltaço...Êba!



Eu tirei os tênis e mergulhei na minha cama. Disse-lhes de maneira a não deixar dúvidas quanto à minha decisão de não estender as férias recém-encerradas:

­-- Olha, eu não vou para Volta com vocês. Quero entender o porque desta greve. E já que vou passar pelo menos mais três anos aqui, vou tentar conviver com os nativos e os jecas da cidade.



Eu já sabia de cor e salteado o que o André achava dos grevistas, e até certo ponto concordava com ele. Mas, ainda assim, seguiu-se a velha cantilena enfatizando “vagabundos”, “grevistas profissionais”, “greve por umas merrecas”. Seu discurso trazia uma novidade: a surpresa por eu passar para o lado dos “vagabundos”. Flávio nada dizia, limitando-se a balançar a cabeça nos pontos mais fortes do discriminatório e recorrente discurso de André.



-- André, eu ainda tenho pelo menos três anos e meio de Viçosa. Não quero passar todo este tempo odiando a universidade e os alunos daqui, esta jecaiada , como você diz. Quero e vou me integrar, fazer novos amigos – disse.

Acho que foi nesta ocasião que o André emendou de bico, com uma frase lapidar.

-- Eros, os amigos que eu tinha que fazer eu já fiz. Daqui pra frente serão só colegas e conhecidos -- disparou, convicto, no alto de seus recém-completados 19 anos.

Confesso que a sentença, extrema e descabida de propósito (o cara era muito novo para uma afirmação tão taxativa) em vez de me alarmar, me deixou foi muito lisonjeado. Eu sabia fazer parte daquele seleto clube de eleitos por André – ainda hoje um sujeito muito seletivo.

Mas sabia que ouviria muito por minha decisão de ficar. E realmente André falou pra caramba, tentou me convencer a ir com ele e Flavão pro Voltaço. Mas eu também estava irredutível. Desta vez, iria me integrar a Viçosa.

No dia seguinte, tão logo André e Flávio seguiram para Volta Redonda, eu também deixei a casa, de bicicleta, rumo à universidade.
Fui direto para os alojamentos masculinos, que ficavam num prédio recém-construído em frente ao lago. Tão novo quanto os alojamentos, era o lago, que brotara do desvio do curso de um riacho que passava nos fundos da pensão/república/pocilga na qual resistimos o primeiro semestre em Viçosa.

Conversei com uns camaradas que conhecia e subi rapidamente para os quartos. Eram dois prédios relativamente pequenos. Tinham três andares cada um, algo entre dez e 14 quartos em cada andar e dois beliches por quarto, que ainda contavam com duas escrivaninhas e dois armários. Ou seja, o espaço para circulação era mínimo.

Obedecendo a um esquema simples e óbvio, fui primeiro ao primeiro quarto do primeiro andar, o 101. Lá, encontrei os quatro alunos que dividiam o apartamento.

Apresentei-me e fiz um inventário montado com perguntas sugeridas por Williams e outras de cunho próprio. Os dois primeiros casos o que os caras gastavam não fechavam com o crédito educativo e só com a parca grana mandada de casa conseguiam equilibrar o orçamento. Com um aumento de sete merrecas por dia, além do aumento de três no almoço e no jantar, o café da manhã aumentara de três para quatro merrecas, teriam que cortar um os maços de cigarros; o outro teria que cortar radicalmente o cineminha dos fins de semana. E olha que nem computei gastos com roupas e calçados. Ouvi os dois outros moradores do 101 e apertando muito o cinto – os pais não eram tão pobres – dava para manter os pequenos vícios (meio maço de cigarros e porres de cachaça quinzenalmente em qualquer botequim), além de fazer as duas refeições mais o café da manhã devidamente majorados.

Em questão de minutos, minha presença, ou melhor, a presença de um recenseador, se espalhou pelos alojamentos masculinos.
E a informalidade tomou conta de meu questionário de maneira indelével . Foi uma manhã e uma tarde – separadas pelo almoço, por incrível que pareça o bandejão da universidade continuava a servir café da manhã, almoço e jantar pelo preço antigo para os grevistas – atípicas. Conversei longa e amistosamente com sujeitos que em outros tempos, sequer trocaria xingamentos.
Donos de sotaques típicos do interior de Minas e São Paulo eram motivo de galhofa pelos três volta-redondenses. Mas eu quebrei a cara. Os sujeitos que falavam o dialeto da poRteira veRde do BeRnaRdo eram legais. As únicas diferenças conosco eram o sotaque e os hábitos caipiras arraigados – como a adoração àquelas fivelonas nos cintos e o uso indiscriminado de botas.

Mas tinham as mesmas inseguranças que eu, André e Flávio. Os mesmos medos, as mesmas incertezas, hoje borrões esmaecidos em personas de 50 anos ou quase.

E foi naquele recenseamento, informal, uma verdadeira festa onde conversei com muita gente e coletei opiniões congruentes e bem embasadas que virei implacável, ardoroso e intransigente defensor da greve.
Sem percorrer os 90 apartamentos dos dois prédios, conversei com quase todos moradores. A carência era grande, sim. Assim como descobri uma verve que não sabia ser minha. Tinha resposta para todo questionamento e acho que pela primeira vez na vida, me senti protagonista. Afinal, minha presença tinha catalisado a atenção de perto de 300 estudantes.

A anarquia e a espontaneidade daquele primeiro contato com os grevistas foram marcantes. Foi a minha primeira ação sem a tutela de André, até hoje meu melhor amigo, e desde aquela época um direitista com tendência a deletar posturas de esquerda. E sempre que discutíamos sobre política, ele argumentava (argumenta) muito bem, enquanto eu não conseguia expandir meus pontos de vista; era (sou) uma hesitação só.

E pela primeira vez, estava vendo Viçosa como realmente era e estava gostando do que via. Apesar de ter entrada na UFV em 1979, foi com calouros do ano seguinte que me sentia à vontade. Dois fatores contribuíram para minha integração com este povo.

Primeiro, tinha uma conterrânea entre os calouros de 1980. Uma menina chamada Patrícia Bustamante. Sorriso farto e sincero, companhia e papo agradabilíssimos. Teria me apaixonado, tivesse alguma dúvida quanto ganharia com sua amizade.

Ao mesmo tempo em que me maravilhava com a genuinidade agreste de uma menina nascida em Volta Redonda, fui me encantando com caras e meninas dispostos a vivenciar e conhecer pra valer Viçosa. Se a universidade estava em greve, não faltava o que fazer por lá.

Havia uma dezena de atividades a serem desenvolvidas pelos alunos em greve em Viçosa. Os habitantes de Viçosa eram, em sua maioria, pequenos agricultores. E embora minha experiência fosse nenhuma, assim como a dos calouros, eram mais braços e disposição para ajudar a semear, limpar terrenos e podar árvores. Ou seja, mais gente para obedecer aos aldeões. E mão-de-obra gratuita. Sem amigos entre os poucos alunos do segundo ano que ficaram na cidade, expandi exponencialmente minhas amizades. Os calouros achavam que era um deles – e eu era. Meu debut em Viçosa estava sendo no meu segundo ano de faculdade.

Nunca, em toda a minha vida, me senti tão livre. Sim, eu fugia de minha mãe e de sua maldita doença, que gradualmente reduzia sua capacidade de lutar contra aquela ferida aberta no seio da família. A doença de Machado Joseph fechava todas as rotas de fuga.

Quando bati em retirada de casa para estudar em Viçosa, minha mãe há muito já não andava, e a doença já comprometera os movimentos de braços e mãos – minha mãe já precisava que lhe déssemos comida na boca. Era difícil entender o que falava – a desfasia era outro legado da Machado Joseph – e até para mudar o corpo de lado na cama precisava de ajuda.
Meu pai, nos últimos anos de vida de minha mãe, entrara em rota de colisão com a vida e deixar minha casa foi um pusta ato de corvadia, mas não me arrependo dele. Com 18 anos incompletos, eu achava legítimo – e continuo a achar -- querer ter minha própria vida. Acho que a distância de Volta a Viçosa foi, na época – inconscientemente, é claro – uma opção para ficar o mais distante possível do caos emocional que era minha vida em Volta Redonda. Afinal, tinha uma mãe jurada de morte por uma doença degenerativa e um pai ausente por incapacidade de lidar com nossa vida de merda.
E eu estava sozinho em Viçosa. Não tinha a quem prestar qualquer tipo de satisfação: não tinha hora para comer ou dormir. Ficava acordado a noite inteira, ouvindo todo tipo de música. Ia dormir com o dia clareando, acordava no começo da tarde, comia se e quando tinha fome.

Repeti ações politicamente corretas feitas sempre por calouros como caiar uma escola estadual, fazer hortas que pudessem contribuir para a merenda escolar. Paralelamente a estas atividades, me lembro de ajudar na área de zootecnia, botando porções de capim para cavalos em baias, e ia a uma área agrícola, era um tipo de fazenda onde desenvolvíamos alguns projetos e de onde eu avistei a plantação mais linda que jamais vi na vida. Um plantio de aveia, segundo alguém da universidade. Uma mancha verde, de um verde tão escuro, tão intenso, que parecia uma ilustração.

Foi de lá que vim montado em minha bicicleta como se montasse um cavalo. É uma imagem recorrente e lembro que estava sozinho e por algum tempo “cavalguei” minha Peugeout verde, como se ela fosse/estivesse animada, tivesse vida mesmo. Era óbvio que algo estava muito errado comigo!

Mas antes da zoeira absolutamente careta – o quê chega a ser muito mais preocupante se eu tivesse feito uso de maconha, por exemplo – falemos da minha conquista de corações e mentes de uma galera que entrou em Viçosa, em 1980.
Conterrâneo, coisa rara em Viçosa – só conhecia Flávio e André, até então – me apresentei à Patrícia alguns dias antes da Marcha Nico Lopes. A marcha era como um desfile de carnaval – era guiada por uma banda contratada pelo DCE. Acontecia sempre antes de completar um mês de aulas.

Todo mundo fantasiado e muita gente bêbada de tropicar nas próprias pernas. A Nico Lopes – que nunca me inteirei sobre quem foi e nem com o Google aberto me interesso – obedece, ano após ano, a um tema político. Sua finalidade maior é integrar calouros e veteranos. Há os que participam do desfile, indo atrás do trio-elétrico improvisado; e os que apenas acompanham, das calçadas, colegas pagando mico. Eu e a Patrícia fomos juntos e encontramos no desfile ou fora dele, um monte de amigos dela e alguns conhecidos meus.
Conheci Denise Formoso, um pouco mais velha – uns 29 anos – uma das companheiras de apartamento de Patrícia. Baixinha e nada bonita compensava estes indesejáveis atributos com uma simpatia única. Fomos de cara um com o outro. Quem cumprimentou efusivamente Patrícia e a tentou levar, sem sucesso, para a Marcha, foi Maria, a mais desatinada de todas as meninas que conheci em Viçosa. Natural de Petropólis, morava em apartamento próprio – o pai dela tinha grana -
num prédio de três andares, bem em frente ao nosso apartamento na rua Olívia....—só me lembro do primeiro nome, sequer guardei o nome do bairro. Também adorei minha vizinha, dona de uma Variant branca.

Encontrei também Ricardinho, uma das boas amizades que fiz naquela pocilga onde moramos no primeiro semestre, mamadaço. E logicamente encontrei com André e Flávio, no comecinho da marcha, ainda no campus.

Cumprimentamo-nos como velhos amigos que sempre haveremos de ser, mas acho que naquela noite caíra por terra o jugo que André tinha sobre mim. Pela primeira vez me relacionava com outras pessoas que não as mesmas com as quais mantínhamos – os três, eu, André e Flávio – algum contato. E eram poucas, muito poucas...

Sei que minha amizade com Patrícia me franqueou acesso a muita gente. Vou lista-los: Kiko, Ramon, Beleza, Tiago, Pedro, Evandro, Claudio Lyra, Joanna, Denise Formoso e sua irmã, Lucinha, todos de Belo Horizonte; mais uma dezena e meia de amigos, tanto calouros como veteranos que, como eu, gravitava em torno do alto astral da turma de 80. Tinha trêsss cariocasss no grupo: o Jorjão – não fazia sentido chamá-lo de Georjão – Renata e Majo. Em minha débil lógica, achava que chamava-se Marjot, era descendente de franceses. Era linda. Uma tez queimada de sol e algumas sardinhas na altura do nariz. Uma versão aloirada de Malu Mader. Só que Majo – sem o t que imaginava gozar de ascendência francesa – era a abreviatura de seus dois nomes: Maria José.

Bem, nem preciso dizer que me apaixonei. E como andava seguro demais, disse isto a ela. Só identifiquei lisonja em seu rosto. Nem um sim, nem um não. Também seriam respostas e num perguntei nada a ela. Só evidenciei algo que estava estampado na minha cara.

A sinceridade, o bom-mocismo, a afabilidade e sobretudo, o entusiasmo, foram vitais para que ganhasse a total confiança daquelas pessoas que viam Viçosa com olhos muito mais carinhosos que os meus. Mas estes sentimentos que geraram esta empatia com o povo que entrara em 1980 era genuíno (Alcione, bem sei que eu só disse o quanto era venerado pelos calouros. Não há uma passagem sequer que mostre o quão agudo era meu senso de equipe e quão rápido era meu tirocínio. É que isso não é ficção, aconteceu mesmo comigo. E as lembranças...algumas foram-se com os meus cabelos...). Era e me sentia um herói.
Por um perigoso lapso de tempo, ignorei completamente o que era medo. Um exemplo cabal dei uns dias antes de subir no Fiat da polícia do campus. Foi durante a semana, por volta das dez da noite. Depois de um dia cheio numa universidade vazia de alunos, mas repleta de novidades para mim, estou eu entrando numa padaria para comprar pão integral e queijo. Nunca me chamou à atenção aquele séquito de bêbados atrás da monarca “branquinha”. Até porque estes eram figurinhas fáceis em Viçosa. Nunca vi cidade com tantos botequins, e consequentemente, bebuns. Assim, os pinguços se proliferavam nas esquinas feito moscas.

Mas eu não era detentor desta razão tão mesquinha que caracteriza a imensa maioria dos mortais. Ou melhor, eu não detinha, naquele momento qualquer resquício de sentimentos baixos. E me veio tão tola quanto altruísta pergunta, seguindo-se a um óbvio comentário: “Nunca levei um bêbado até a casa dele. Num é que uma boa idéia?”

Estavam fechando a padaria, os empregados já abaixavam o gradil das portas e acordavam um bêbado conhecido deles e de clientes contumazes.

-- Acorda, Adão. Vá para casa...Já estamos fechando... – disse-lhe o cara que há pouco me vendera pão e presunto.
Àquela altura, ele era o único bêbado no local, dormindo no chão do estabelecimento. E era tratado com um misto de complacência e pena pelos empregados.
Adão, um escurinho ensebado com roupas idem, acordara, mas não saíra do transe imposto aos bêbados. Com voz pastosa dirigiu-se ao sujeito que lhe acordara:
-- Que horas são, Paulinho?
-- A mesma (sic) de ontem. A gente fecha a padaria sempre 20 pras dez e toca você – respondeu-lhe o atendente, com uma vassoura na mão.
Adão só se arrastou pra fora da padaria, se esparramando na calçada em frente.
Foi quando cheguei para ele e me apresentei, como às minhas intenções.
Adão me olhou tão ressabiado quão um cara às vésperas de coma alcóolica pode olhar. De quebra, emendei:
-- E a gente leva ainda presunto e pão para a sua casa.
Adão ainda tentou ficar de pé para me encarar “olho no olho” e descobrir meus reais interesses. Afinal, por que um menino branco se interessaria por um bebum preto e sujo como ele?

Mas a tentativa de ficar em pé quase resultou em tombaço. Assim, quando, ofereci ajuda -- referia-me, agora, a algo mais imediato, a dificuldade de ficar de pé – foi suscinto.
-- Acho que bêbo como tô, num vô conseguir chegar em casa –- disse Adão, com fala pastosa e que só prestando muita e exclusiva atenção era possível compreender e, assim mesmo, não tudo.

Incapaz de ficar de pé sozinho, respondeu com um grunhido, o que entendi como um “sim” à minha proposta, formulada mais uma vez.

Tratei de pôr logo mãos à obra, primeiro passando a corrente com o cadeado prendendo a bicicleta num postinho magro e há muito esquecido pela CEMIG, a companhia de eletricidade de Minas. Sem mais me preocupar com a bicicleta, cuidei de meu objeto de atenção: o encachaçado Adão.

-- Onde você mora, companheiro?
O cara tava tão bêbado que não me respondia por absoluta surdez etílica.
Olhei em volta e o cara que o acordara, Paulinho, já tomava o rumo de casa, quando lhe abordei, perguntando se sabia onde Adão morava.
-- Sei que tem que descer esta ladeira toda – nós estávamos no alto de uma rua íngreme pacas – Mas precisar onde ele mora, não posso – disse-me Paulinho, capanga (um dos acessórios mais bregas do vestuário masculino, ainda mais brega que a pochete) presa ao pulso direito.
Emendou uma pergunta na resposta:
-- Cê num tá pensando em leva-lo em casa, não, tá?

Diante da minha confirmação com a cabeça e um vago “hum, hum”, ouvi a primeira de várias advertências sobre a inutilidade do meu ato.
-- Este sujeito é um pinguço! Amanhã ele volta a encher a cara e ficar num canto, feito um cão. Deixa ele. Amanhã quando acordar, ele toma o rumo de casa – falou Paulinho, a quem agradeci, já amparando Adão, e seguindo o caminho que o funcionário da padaria indicara.
Adão exalava aquele fedor típico de quem não via banho há dias; aquele cheiro ocre de suor
várias vezes seco, sem ver água. As roupas também estavam imundas. Adão ostentava um machucado no alto do nariz, que já tinha alguns dias, uma vez que apresentava aquela casquinha de cicatrização. Pelo local do machucado, era fruto de alguma queda do bebum.

Inicei na padaria, uma autêntica via-crúcis, com as bíblicas estações substituídas por pés-sujos. Como não sabia exatamente onde o cara morava e no caminho da casa dele tinha mais de uma dezena de botequins, de tempos em tempos, eu perguntava se conheciam Adão e se sabiam onde ele morava.

Eu me imaginei personagem de uma parábola. A “Parábola da Negação”. Pois a cada parada, só ouvia “deixa ele aí”, “ele é um vagabundo cachaceiro”, “amanhã vai estar bêbado de novo” e outras sandices semelhantes.

E enquanto levava Adão para casa, fui percebendo que o cara tinha medo! Não consegui saber de que, pois a fala era muito arrastada, incompreensível. Falamos pouco durante o trajeto, isto é, eu falei. Pedi que facilitasse a mim, que além de estar escorando um cara um pouquinho mais pesado do que eu, no meio do caminho resolvera deitar na calçada e apagar por ali mesmo.

--- Adão! Adão! Vamos embora... Já estamos perto de sua casa. Falta pouco. Vamos lá. Eu te levo na cacunda – sugestão prontamente acatada pelo neguinho cujo cheiro empesteava o ar.
Paramos para tentar localizar a casa do cara em quatro botequins, duas padarias
e um mercadinho. Isso em pouco mais de um quilômetro e cem metros – distância da padaria onde encontrara Adão e o casebre onde morav. Não podia dar chance ao azar. Não queria andar um metro a mais sequer com o bebum a tira-colo. A mesma cantilena repetiu-se em todos os lugares em que pedira informação. “Deixa o cara aí. Tá chapadaço.”, “Amanhã esse bebum volta a encher a cara e você cisma de levá-lo no casebre onde ele mora?” “Larga a mão disso, rapá! Encosta este pé-de-cana num canto qualquer!” Ouvi frases como esta em meio a outros estimulantes comentários.

Se enchesse Adão de bicudas, cobrisse o cara de porrada, acho que ninguém ia intervir; era até bem provável que me ajudassem a espancá-lo. Eles podiam não saber por que batiam, mas o bebum certamente sabia porque apanhava, deviam pensar.

Negociei com o bêbado, e só andei com ele nas costas uns 200 metros. À medida que nos aproximávamos daquilo que era o segundo lar de Adão; o primeiro, sem dúvida, era as calçadas e sarjetas imundas da cidade, onde dormia e acordava dias seguidos depois de “cachaçadas” homéricas, notara uma inquietação no rosto dele.

Pois descobri a razão da inquietação de Adão no penúltimo lugar onde paramos e perguntei se o dono ou algum atendente do pé-imundo sabia onde o cara morava.
--- Porra, Adão!! Cê num se emenda, né, seu merda!? Num é à toa que o Julião vive te enchendo de porrada! – disse-lhe o caboclo atrás do balcão, curto até mesmo para um mínimo pé-inchado, como aquele boteco xexelento.
--- Amigo, alguém aqui te xingou? – interpelei o atendente, que já desconfiou que fez besteira ao xingar Adão.
Modulando seu tom uma oitava abaixo, o sujeito tentou minimizar o que fizera:
-- Não. É que este cara vive bêbado; tá sempre caindo pelas tabelas e até obrigou o senhor a trazê-lo aqui...
-- Primeiro, ao que me consta, ele não perturba ninguém aqui. Do contrário, num estaria bebendo cachaça lá na (rua) Adamastor (Nunes), há quase um quilômetro deste pé-sujo. Segundo, ninguém sequer me pediu para trazer o cara em casa. Tô fazendo isso porque quero. E terceiro, e o mais importante: não fossem pinguços como ele, você num teria emprego.
E não parei não:
-- Ou acha que o dono deste botequim ia precisar de você só para servir média com pão com manteiga de manhã? Por isso, acho que todo dia, antes de dormir, você deveria agradecer a Deus por existir cachaceiros como ele. E rogar para que bêbados que nem o Adão continuem a encher a cara de cachaça.

Disse isso e imediatamente chamei Adão para deixarmos o pé-sujo. Já íamos descendo a rua, quando o funcionário do boteco – chamava-se Ernesto ou algo parecido – veio de dentro do botequim aos berros de Ei, Ei – obviamente tentando chamar minha atenção – enquanto tremulava freneticamente um pano
com qual ora limpava as mesas, ora enxugava o suor que escorria abundantemente do rosto gordo, agora vermelho e cansado, embora a distância que nos separava não chegasse a 20 metros.
Paramos e nos viramos para o gordo.
-- Olha, cê me desculpe. Não tive intenção.... – falou o atendente, sem completar a frase, ofegante que estava, com a corrida para nos alcançar.
Eu levantei a mão, em sinal de que estava tudo bem. E já me virava rumo onde achava ser a casa de Adão, quando Ernesto nos alcançou.
-- Peraí, moço – disse o cara do boteco, acrescentando a urgência de me contar algo.
–- Se vai levar o Adão pra casa dele, é bom se prevenir. Este caboclo tem um irmão que desce o cacete nele. É só encontrar com ele naquele barraco – e apontou para uma casinha isolada, a uns 300 metros do botequim, com o jardim, ou melhor, o capim, que a cercava, recém-aparado – que o Julião desce porrada nele.

-- E ninguém, vizinho algum, faz nada? Simplesmente, deixam o cara apanhar? E bêbado assim é alvo fácil...
-- Ninguém se mete. O irmão até bebe uma vez ou outra. Mas nunca como este aí. É trabalhador e num fosse ele, o Adão não teria onde dar com os costados. Ou comer um prato de comida. Pro povo, o cara tá certo. Também acho que tá certo. Só acho que às vezes, o cara extrapola. Tem dia que o Adão sequer consegue andar. Uma vez o sujeito quebrou uma cadeira nas costas do Adão. O bebum quebrou três costelas. E os dentes, então? Se Adão é banguela, certamente
Não é por causa dos tabacos que ele vive
tomando. A razão é outra. Os murros do Julião deixam a cara do Adão em petição de miséria – contou-me Ernesto, cessando a ladainha por breves segundos, só o tempo suficiente para tomar fôlego. E continuou: --E Julião num é o nome do cabra. É aumentativo de Júlio. Já viu, né? É um negão que mais parece um armário de Sicupira... Por isso é bom tomar cuidado. Se eu fosse o senhor, deixava o sujeito aí. Deixa ele decidir
se quer dormir na rua ou prefere entrar na porrada e dormir sobre um teto.
Agradeci ao atendente antes que ele engatasse um outro papo sobre as proezas etílicas do armário de Sicupira.
O medo estava agora estampado no rosto de Adão. A conversa ccom Ernesto teve um efeito devastador para o bebum. Mas não me abalara nem um pouco.
Pois se o que me faltava em fortaleza física (era magro e nanico -- media mais ou menos ínfimos 1,65m, hoje sou dois ou três centímetros mais baixo) me sobrava em têmpera, determinação e coragem. Nada a ver com o cara que hoje hesita até diante de um cágado -- ou do adjetivo, sem acento.

Mas Adão pelava-se de medo. Estava até mais lívido, não fossem as nódoas de sujeira que lhe conferiam, junto com a voz pastosa de bêbado, um ar abjeto, miserável.

Agora o cara queria fugir dali, ficar o mais distante possível do irmão violento, dos murros e pontapés aos quais nunca reagira e que deixavam marcas. Fiquei sabendo depois de muito insistir em compreender seus grunhidos, que fazia uns dois meses que não aparecia em casa.
--- Mas a casa não é sua também? Não foi o único bem que seu pai deixou para vocês dois? Então a casa é tanto sua quanto dele -- observei, apresentando argumentos oferecidos pelo próprio Adão, na longa marcha de pouco mais de um quilômetro, que já durava perto de duas horas.

Prometi a ele que não deixaria o irmão violento tocar nele. O encachaçado Adáo limitou-se a me olhar de cima abaixo como a dizer "e é você que vai impedí-lo de me dar porrada? rarárá...conta outra".


Não arredou o pé de onde estávamos até que o convenci a irmos até o botequim quase em frente à pequena casa caiada de branco, com borrões escuros nas partes inferiores das paredes, vindos do chão úmido. Se não ouvíssemos barulho nem víssemos luzes acesas, era sinal de que Julião não estava em casa. Afinal, era sexta-feira. E as possibilidades de seu irmão estar enchendo a cara em outro canto da cidade eram grandes.


Adão foi comigo até o pé-sujo, menos por acreditar no meu poder de defesa, mais pela chance de dormir uma noite, uma única noite sem acordar com bicudos e safanões de funcionários dos bares, gente que não se importava que bebessem até cair, desde que não tivessem que põ-los de pé no dia seguinte.

Pedi uma água sem gás; Adão um traçado com mel. Mas diante da minha negativa muda de pagar pela cachaça quando o cara que nos serviu hesitara e me olhara como que pedindo meu aval, de nada adiantaram as seguidas reclamações de Adão. Ouvi a mesma ladainha: que o cara era um bebum --- como se isso pudesse ser novidade a qualquer um que passasse a cinco metros do sujeito, quanto mais a mim, que vinha sustentando o cachaçeiro com seu cheiro azedo há duas horas; que já estava acostumado a dormir na calçada; e pasmem!, antes de ser um aviso a minha integridade física, a existência do irmão violento era a justiça encarnada, quase uma lei bíblica tão arcaica quanto a dantesca '"olho por olho, dente por dente".

Bem, mas eu e Adão permánecemos dez, 15 minutos observando atentos se havia alguma movimentação na casa , e nada! Barulho nenhum; na casinha reinava uma escuridão só. Isso era sinal de que Julião passaria a noite fora e na manhã seguinte chegaria tão cansado que só notaria a presença do irmão inúti quando acordasse, geralmente, no meio da tarde seguinte. Segundo Adão, quando o irmão acordasse, há muito ele estaria longe da casinha.

Seguros de que não encontraríamos com Julião na casa, atravessamos a rua e fomos logo invadindo o capinzal/jardim da casinha caiada de branco. Uma dúvida me fez parar antes mesmo de divisar a porta da casa.

--- Ih!! Me diz uma coisa: cumé que a gente vai entrar na casa? Duvido que você carregue uma chave consigo...-- falei, enquanto freiava bruscamente o quase galope que nos conduzia rumo á porta.



Nisso, vislumbrei, graças a um relâmpago que a todo escuro iluminou, um tanque em frente à porta da modesta casinha. Havia um amontoado de panelas e pratos sujos. Imundos, ainda com resto de comida mixado a um filete de água que insistia em pingar, embora a torneira exibisse um pano preso à guiza de contenção do vazamento. Diante da minha súbita brecagem, Adão seguiu em frente e estabacou-se. Mas agarrando-se a mim, ergueu-se e respondeu minha pergunta:
--- Tem erro não. Nas sextas, ele deixa sempre a chave num vaso de guiné e comigo-ninguém-pode -- disse, procurando a chave num dos vasos que ladeiavam a porta da casa.

Nisso, esbarrei na porta, que não dispunha de maçaneta, e ela se escancarrou toda, emitindo um gincho à medida que se abria.

Mal notou que a porta da casa abrira, Adão tratou de entrar, tropeçando em mim e se esborrachando no chão averrmelhado. Mas não se machucou. Rapidamente, levantou-se, apoiando-se na porta semi-aberta e procurou o interruptor.Click, click e necas de luz.

-- Caramba, será que cortaram a luz? -- falou em tom normal, Adão, nem baixo nem alto.

Estava um bréu dentro da casa. Minhas pupilas não se acostumaram rapidamente à escuridão, de modo que quando percebi que diante de mim tinha uma esteira, chamei Adão, ainda confuso diante da falta de luz, mantendo a porta semi-aberta.

-- Deita aqui logo e encosta este treco -- um aquecedor a gás, também conhecido como 'rabo-quente' -- na porta. Pesa o suficiente para manter a porta encostada, e não impedirá seu irmão de entrar -- disse, enquanto Adão se aninhava na esteira.

Estava me preparando para deixar a casa, quando ouço uma voz tonitruante berrar comigo, me cortando a saída.

-- Que porra é essa?Agora este cachaceiro precisa que playboys tragam ele em casa? -- perguntou, Julião, já esculachando nós dois.

Apesar da estrondosa voz, ainda era impossível divisar a silhueta de quem emitira a ofensa no bréu do quarto. Mesmo sem conseguir vê-lo, fui bem direto e ousado:

-- Você deve ser o Julião, o irmão que desce porrada no bebum do Adão. E só espanca o caboclo quando ele sequer pode reagir... Bonito... e covarde.

--- Você num sabe da missa a metade. Este puto que deve estar todo cagado de medo atrás de você só faz encher a cara, num bota um vintém sequer em casa -- a voz agora era esganiçada, contrastando com o tom gutural da primeira vez.
--- Desculpe, senhora, sequer podia imaginar que estivesse aqui... --- disse, sendo bruscamente interrompido pela "gentil dama":

--- Senhora é o caralho!! Sou puta mesmo e só estou debaixo
do Julião porque depois ele me paga.

Diaante de tamanha finura, senti que seria perda de tempo tentar catequizá-los e fui na canela.

-- Me faz um favor, Julião? Num desce o braço no seu irmão hoje não, tá? -- e concluí: -- E quando ele acordar, dê um café da manhã decente pra ele, sim? Tô deixando 40 paus. Compra pão, manteiga, leite e dá pra ele, beleza?

E antes que o armário de Sicupira viesse até mim -- o cara devia estar pelado -- encostei a porta da casinha caiada de branco, dei-lhes um audível "Boa noite"
e parti de minha aventura mundo-cão.


Antes do terceiro passo rumo ao meu universo -- aquilo ali nada tinha a ver comigo, pensei e agradeci -- Julião pôs a cabeça -- encimada por uma carapinha curta -- e com voz que nada lembrava a tonicidade de dois minutos atrás.

-- Pode deixar que não vou bater nele, não. Adeus e muito obrigado. Vai com Deus -- disse num "gutural suave". Olhei para trás, vi o rosto do irmão que espancava porque se achava dentro do sistema, sorri para ele e bati continência com dois dedos em riste.


Isso aconteceu sexta à noite. Portanto, não era de se espantar que no dia seguinte eu pulasse em cima de um fiat da polícia do campus.