No entanto, aconteceu exatamente o contrário. Meu pai se fechou como um marisco. Inapelavelmente. Na noite do dia do sepultamento de minha mãe – eu estava de férias da faculdade; ela morrera em fevereiro, exatamente um mês antes de’u completar 22 anos – antes de dormirmos, Celinho sentou-se demoradamente na cama onde minha mãe sofrera por longos nove anos.
Silenciosamente ele orava. Me aproximei dele, nos abraçamos e choramos sem palavras.
Nos dias seguintes, ele passara em casa. E em pouco tempo, ele despediu-se daquela vida desregrada que levava. Vendeu ou deu, não sei – livrou-se do fusquinha muquirana que guiava, ou melhor, que esculhambava. Parou de se encharcar de cerveja – só bebia uma ou duas comigo, Claudia, minha mulher, e Chris, meu sobrinho, portanto, neto dele, nas noites de sábado, quando invariavelmente, jantávamos no Mattos, restaurante especializado em comida portuguesa que servia de tudo.
Acho que nunca mais pisou no Pontal, em Angra, onde tínhamos uma casinha mínima, e para onde meu pai ia, frequentemente, em busca de paz, sem saber que carregava consigo o signo do desasossego.
Tão logo ele morreu, em meados de 1993, fomos, eu, minha mulher, Claudia, Nora, minha irmã, Betão, meu cunhado, e o Chris, até o Pontal. Descobrimos que a meia-água, que achávamos que estava alugada, na verdade tinha sido vendida. A nova dona sacou uma série de duplicatas que, somadas, eram uma ninharia. A venda não tinha validade legal, já que ele só poderia dispor de 50 por cento do imóvel; os outros 50 por cento eram meus e da Nora. E segundo combinação prévia, a meia-água de Angra ficaria comigo. Mas diante das evidências – ele vendera a casa – não restou muito o que fazer.
-- Ele vendeu mesmo, por uma ninharia. Bem, vendeu, tá vendido. Se ele estivesse maluco, eu contestaria. Mas tava bonzinho das idéias – eu disse, lançando um último olhar de despedida à casa, já modificada, recusando o copo d’água oferecido e cumprimentando a moradora e irmos até o Iate Clube de Angra dos Reis (ICAR), onde almoçamos e demos uma última olhada também.
Fechando os parênteses sobre a herança não herdada de Angra, e voltando ao Celinho minha mãe pós-mortem, em pouquíssimo tempo, ele tornou-se um misantropo. Quando avistava alguém conhecido com quem iria fatalmente cruzar, mudava de calçada. Assim, não teria porque parar e sair-se com aqueles evasivos comentários sobre o estado de fulano ou sobre seu próprio estado. Não lhe interessava saber de ninguém, assim como não lhe interessava que soubessem como passara o dia!!!
Não mais tocou bandolim. Só saia de casa para buscar ou levar Dirélia, mãe de Josélia – mau gosto pode ser hereditário ou vingativo – no ponto de ônibus que levava ao Barreira Cravo, bairro um tanto distante da Vila. Dirélia era um caso antigo – sepultado por vários anos em que meu pai tivera como amante oficial Abner. Minha mãe, eu e Nora chegamos a viajar para Angra com Abner e meu pai. O pragmatismo de minha mãe era acintoso:
-- Célio, não faz sentido você se privar de sexo por minha causa. Eu já estou mais pra lá do que pra cá. Não me importa que falem. E eu gosto da Abner, acho que você fez uma boa escolha.
Abner era enfermeira na ativa; Dirélia também era enfermeira, mas quando o pai morreu, já estava aposentada. Ele tinha uma notória queda pela categoria. Abner e meu pai formavam um casal engraçado. Ela, mais grande do que gorda, era muito mais alta que o Celinho, um baixinho mulato, cabelo pixaim (quando digo que tenho aquilo roxo, neguim me sacaneia) que multiplicava sua estatura com sua arrogância e intempestividade. Quando minha mãe era viva usava indefectíveis óculos escuros, independentemente de chover canivetes. Ele tinha uma ânsia – num sei se era de viver ou morrer – sei que tocava a vida intensamente, até a morte de minha mãe.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Desasossego 1.3
Tão logo minha mãe morreu, restou-me um único pensamento que não de alívio: o que seria agora do meu pai? Não, não temia por um surto de depressão profunda ou por uma crise de abstinência de vida. Temia que a vida de meu pai degringolasse, que se descaralhasse de vez.
Ele estava muito perto disso quando minha mãe morreu. Os meus queixumes dos seus excessos já não surtiam efeitos. Ele bebia cada vez mais e se tornava cada vez mais um risco maior para si e para os outros. Sua irresponsabilidade era irritante.
Coisa de dois meses antes de minha mãe morrer, ele fraturara duas costelas e o tornozelo direito ao ter o lado do carona do fusca invadido por uma caminhonete. Não me lembro se a culpa havia sido dele, mas as possibilidades eram grandes: sóbrio, já dirigia mal; quando bebia então...
Eu, que já estudava em Viçosa na época, viajei tão logo soube que ele se acidentara. Peguei um ônibus cedo para Juiz de Fora e de lá rodei mais 3h e meia até Volta Redonda. Cheguei em casa por volta de 15h30m, aflito. E em vez de encontrá-lo acamado, ao menos se refazendo das dores naturais da batida, só fui vê-lo à meia-noite e quinze, quando, meio bêbado, chegou em casa a bordo de um outro fusca, dirigido por um “amigo” de copo.
Sequer demonstrou qualquer sentimento de arrependimento diante de meu olhar apreensivo e de reprovação:
-- E aí, filhão??!!! Foi a Nora que ligou para você, né?? Num precisava vir não. Eu, tua mãe estamos ótimos.... -- disse-me ele, manquitolando e com um bafo de cerveja que vinha das entranhas.
Naquele instante notei que algo se quebrara. A única luz que o guiava para fora do túnel escuro em que mergulhara começava a se apagar. Ele decidira ir mesmo até o fundo do poço. E volta não havia do lodaçal em que o Celinho estava prestes a fincar os pés.
Assim, quando minha mãe morreu, tinha certeza de que ele meteria de vez o pé na jaca. Afinal, era ela, presa a uma cama, o motivo para o meu pai ainda dormir em casa. Verdade que cada vez ele passava menos tempo na Rua 27 n°30. Eu colecionava histórias tristes e constrangedoras provocadas pela ausência ou pelos excessos de meu pai nos nove anos que minha mãe passara presa à cama. Mas ele nunca abandonara o barco. Agora que minha mãe morrera, ele sequer tinha porque remar.
Ele estava muito perto disso quando minha mãe morreu. Os meus queixumes dos seus excessos já não surtiam efeitos. Ele bebia cada vez mais e se tornava cada vez mais um risco maior para si e para os outros. Sua irresponsabilidade era irritante.
Coisa de dois meses antes de minha mãe morrer, ele fraturara duas costelas e o tornozelo direito ao ter o lado do carona do fusca invadido por uma caminhonete. Não me lembro se a culpa havia sido dele, mas as possibilidades eram grandes: sóbrio, já dirigia mal; quando bebia então...
Eu, que já estudava em Viçosa na época, viajei tão logo soube que ele se acidentara. Peguei um ônibus cedo para Juiz de Fora e de lá rodei mais 3h e meia até Volta Redonda. Cheguei em casa por volta de 15h30m, aflito. E em vez de encontrá-lo acamado, ao menos se refazendo das dores naturais da batida, só fui vê-lo à meia-noite e quinze, quando, meio bêbado, chegou em casa a bordo de um outro fusca, dirigido por um “amigo” de copo.
Sequer demonstrou qualquer sentimento de arrependimento diante de meu olhar apreensivo e de reprovação:
-- E aí, filhão??!!! Foi a Nora que ligou para você, né?? Num precisava vir não. Eu, tua mãe estamos ótimos.... -- disse-me ele, manquitolando e com um bafo de cerveja que vinha das entranhas.
Naquele instante notei que algo se quebrara. A única luz que o guiava para fora do túnel escuro em que mergulhara começava a se apagar. Ele decidira ir mesmo até o fundo do poço. E volta não havia do lodaçal em que o Celinho estava prestes a fincar os pés.
Assim, quando minha mãe morreu, tinha certeza de que ele meteria de vez o pé na jaca. Afinal, era ela, presa a uma cama, o motivo para o meu pai ainda dormir em casa. Verdade que cada vez ele passava menos tempo na Rua 27 n°30. Eu colecionava histórias tristes e constrangedoras provocadas pela ausência ou pelos excessos de meu pai nos nove anos que minha mãe passara presa à cama. Mas ele nunca abandonara o barco. Agora que minha mãe morrera, ele sequer tinha porque remar.
terça-feira, 13 de abril de 2010
A flor
Quando minha mãe morreu, tinha absoluta convicção de que todas as minhas vicissitudes tinham se acabado. Uma certeza de que dali para frente só viriam coisas boas. Todas as minhas mágoas e tristezas tinham-se acabado. Ledo engano.
Era 19 de fevereiro de 1983 e estava de férias da faculdade em casa. Cursava o segundo ano de agronomia, em Viçosa, cidade mineira que ficava a quase 400 quilômetros de minha Volta Redonda natal. Era verão e minha mãe tinha sido internada no Hospital da Companhia Siderúrgica Nacional(CSN), com dificuldade de respirar, tão gripada estava. Naquela época, ela pesava algo em torno de 40 quilos, vitimida que estava pelo galope da doença de Machado Joseph, mal que afeta o cerebelo, conseqüentemente, o equilíbrio, e vai drenando as forças de quem tem esta bosta de doença até o imobilismo total, isto é, a morte. Estava sozinho em casa quando o telefone tocou. Era do hospital.
-- O seu Célio está? -- perguntou o homem, depois de identificar-se como sendo do hospital.
-- Ele saiu. Quem fala é o filho dele. Algum problema com a minha mãe? – respondi, perguntando.
O cara foi direto e disse que ela acabara de morrer. Desliguei o telefone e segui a pé até o hospital, a uns 600 metros da minha casa, na Vila. Fui acompanhando o riacho, que corria em frente lá de casa. Primeiro, peguei uma rosa no jardim, atravessei a rua, fui até a pinguelinha que cruza o rio. Costumava ir lá sempre com minha mãe na cadeira de rodas. Ela atirava uma flor no rio e acompanhávamos a trajetória dela, levada pela correnteza, até perdê-la de vista.
Naquela manhã, estava sozinho sobre a ponte. Chorava. Joguei a rosa no riacho, só que desta vez, acompanhava sua trajetória não apenas com os olhos, mas caminhando por uma trilha de brita às margens do Brandão. Segui pela rua 31 -- Volta Redonda é uma cidade planificada, ou era, e as ruas eram todas numeradas -- vendo sua evolução nas águas nada turvas, embora sujas, do riacho. Seguia me lembrando de diálogos, de conselhos, de trejeitos, de expressões.
-- Filho, vai ser bom quando eu morrer. Um alívio para mim e para vocês -- dizia ela, não sem algum esforço, pois a doença compromete a fala também.
-- É verdade, mãe. Vamos todos parar de sofrer -- respondia, afagando-lhe o rosto fino.
A gente -- eu, minha mãe, meu pai e Norinha, minha irmã -- era cardecista. E os cardecistas acreditam na reencarnação e na necessidade de purgar erros passados. Conseqüentemente, a principal virtude de um cardecista é – ou deveria ser -- a resignação. Hoje tenho minhas dúvidas quanto ao título da maior das virtudes, mas na época era inconcebível não ser resignado. Inútil (mas humano pacas) se revoltar contra tudo e todos; acho que só torna ainda mais pesado o fardo que nos cabe. E durante longos nove anos, não havia melhor sentimento que definisse minha mãe: resignação.
Ele fora uma mulher bela, de olhos grandes (esbugalhados, posteriormente), pernas bem torneadas. Era moderna para os padrões vetustos e bolorentos da época; trabalhou durante 18 anos como contadora da Companhia Siderúrgica Nacional. Só aposentou-se porque já não conseguia andar sem amparar-se em alguma coisa. E como nas ruas não há necessariamente paredes...
Inda hoje tenho uma foto dela esbelta, com óculos gatinhos e calças capri. Além da indumentária, a modernidade era patente em sua atitude: ela era mulher até a medula.
A flor seguiu flutuando, a pista da Rua 31 obrigava o Brandão a submeter-se a uma breve ponte, de onde saia dividindo duas ruas, a 18.A e a 18.B. Segui a rosa pela 18-B com as últimas imagens de minha mãe latejando na mente.
Me fustigava um inoportuno -- porque pequeno, em razão do justo tamanho do que de fato deveria sentir -- arrependimento por não tê-la levada mais vezes para ouvir música no meu quarto. Mais do que isso: o que me vinha à mente agora eram as vezes em que algum amigo me chama à porta de casa e a levava, carregando-a nos braços para seu próprio quarto -- é bem verdade, sempre um pedido dela mas que eu nunca objetivara. Ela tinha vergonha de estar naquelas condições ou melhor, eu é que tinha vergonha da minha mãe. E embora guardasse isso só para mim, posando de hercúleo e bom filho, relativizando minha vergonha diversas vezes, ela, obviamente com seu sonar de mãe captara meu desconforto com sua trágica presença junto a amigos meus e sempre que possível, buscava afastar qualquer constrangimento. E ela gostava tanto de ouvir música no meu quarto...
Ia me torturando com estas lembranças, deixando uma lágrima rolar aqui, outra acolá. Quando o riacho mergulhou novamente, desta vez sob a pista da Rua 33, tentei rezar um Pai-Nosso, mas fiquei só nos dois primeiros versos: minha rosa tinha sumido. Me passou uma estranha sensação de solidão, de orfandade com o sumiço da flor nas águas do Brandão. Mas depois de alguns segundos, a rosa emergiu de um redemoinho e seguiu rumo ao hospital. Eu sorri um sorriso triste e a segui ainda pela Rua 18-B até o riacho desaguar num afluente do Paraíba, na Rua 41.
Dali até a entrada do hospital foi um pulo. O Hospital da CSN ficava, mais ou menos, na metade da rua. O sol começara agora, por volta de 11h30m, a despontar no céu, abrindo espaço entre muitas nuvens. A distância era curta, a flor não demorou mais de três minutos para rodopiar, pega por uma correnteza mais forte, em frente ao hospital, para onde eu seguia. Ao todo, caminhando lentamente para acompanhar a rosa, não levei mais de que 20 minutos. Tempo suficiente para que passasse a limpo e rememorasse as principais paradas do suplício de minha mãe.
Do diagnóstico errôneo de Parkinson -- mas o único cabível na Volta Redonda dos anos 60 -- o caminhar sempre escorando uma parede, o tombo no quarto da minha irmã, a decisão de não mais andar, de só se locomover de cadeira de rodas -- Meu Deus! E nós acatamos esta estupidez, que agravou e tornou irreversível seu quadro de imobilidade. As noites passadas dormindo na cama logo abaixo da sua, ajudando-a a se mexer durante a noite, a dificuldade para se expressar, as escaras, aquele corpo que mal chegava aos 35 quilos e cuja rigidez caminhava para assumir a posição fetal e final.
Tenho certeza, certeza não, impressão, de que quando joguei um beijo para a rosa, numa despedida definitiva, a flor rodopiou ao descer uma correnteza e deslizou lentamente, como também despedindo-se de mim para, em seguida, seguir o caminho do rio. Àquela hora,chorava. E no peito, trazia um alívio indescritível.
Era 19 de fevereiro de 1983 e estava de férias da faculdade em casa. Cursava o segundo ano de agronomia, em Viçosa, cidade mineira que ficava a quase 400 quilômetros de minha Volta Redonda natal. Era verão e minha mãe tinha sido internada no Hospital da Companhia Siderúrgica Nacional(CSN), com dificuldade de respirar, tão gripada estava. Naquela época, ela pesava algo em torno de 40 quilos, vitimida que estava pelo galope da doença de Machado Joseph, mal que afeta o cerebelo, conseqüentemente, o equilíbrio, e vai drenando as forças de quem tem esta bosta de doença até o imobilismo total, isto é, a morte. Estava sozinho em casa quando o telefone tocou. Era do hospital.
-- O seu Célio está? -- perguntou o homem, depois de identificar-se como sendo do hospital.
-- Ele saiu. Quem fala é o filho dele. Algum problema com a minha mãe? – respondi, perguntando.
O cara foi direto e disse que ela acabara de morrer. Desliguei o telefone e segui a pé até o hospital, a uns 600 metros da minha casa, na Vila. Fui acompanhando o riacho, que corria em frente lá de casa. Primeiro, peguei uma rosa no jardim, atravessei a rua, fui até a pinguelinha que cruza o rio. Costumava ir lá sempre com minha mãe na cadeira de rodas. Ela atirava uma flor no rio e acompanhávamos a trajetória dela, levada pela correnteza, até perdê-la de vista.
Naquela manhã, estava sozinho sobre a ponte. Chorava. Joguei a rosa no riacho, só que desta vez, acompanhava sua trajetória não apenas com os olhos, mas caminhando por uma trilha de brita às margens do Brandão. Segui pela rua 31 -- Volta Redonda é uma cidade planificada, ou era, e as ruas eram todas numeradas -- vendo sua evolução nas águas nada turvas, embora sujas, do riacho. Seguia me lembrando de diálogos, de conselhos, de trejeitos, de expressões.
-- Filho, vai ser bom quando eu morrer. Um alívio para mim e para vocês -- dizia ela, não sem algum esforço, pois a doença compromete a fala também.
-- É verdade, mãe. Vamos todos parar de sofrer -- respondia, afagando-lhe o rosto fino.
A gente -- eu, minha mãe, meu pai e Norinha, minha irmã -- era cardecista. E os cardecistas acreditam na reencarnação e na necessidade de purgar erros passados. Conseqüentemente, a principal virtude de um cardecista é – ou deveria ser -- a resignação. Hoje tenho minhas dúvidas quanto ao título da maior das virtudes, mas na época era inconcebível não ser resignado. Inútil (mas humano pacas) se revoltar contra tudo e todos; acho que só torna ainda mais pesado o fardo que nos cabe. E durante longos nove anos, não havia melhor sentimento que definisse minha mãe: resignação.
Ele fora uma mulher bela, de olhos grandes (esbugalhados, posteriormente), pernas bem torneadas. Era moderna para os padrões vetustos e bolorentos da época; trabalhou durante 18 anos como contadora da Companhia Siderúrgica Nacional. Só aposentou-se porque já não conseguia andar sem amparar-se em alguma coisa. E como nas ruas não há necessariamente paredes...
Inda hoje tenho uma foto dela esbelta, com óculos gatinhos e calças capri. Além da indumentária, a modernidade era patente em sua atitude: ela era mulher até a medula.
A flor seguiu flutuando, a pista da Rua 31 obrigava o Brandão a submeter-se a uma breve ponte, de onde saia dividindo duas ruas, a 18.A e a 18.B. Segui a rosa pela 18-B com as últimas imagens de minha mãe latejando na mente.
Me fustigava um inoportuno -- porque pequeno, em razão do justo tamanho do que de fato deveria sentir -- arrependimento por não tê-la levada mais vezes para ouvir música no meu quarto. Mais do que isso: o que me vinha à mente agora eram as vezes em que algum amigo me chama à porta de casa e a levava, carregando-a nos braços para seu próprio quarto -- é bem verdade, sempre um pedido dela mas que eu nunca objetivara. Ela tinha vergonha de estar naquelas condições ou melhor, eu é que tinha vergonha da minha mãe. E embora guardasse isso só para mim, posando de hercúleo e bom filho, relativizando minha vergonha diversas vezes, ela, obviamente com seu sonar de mãe captara meu desconforto com sua trágica presença junto a amigos meus e sempre que possível, buscava afastar qualquer constrangimento. E ela gostava tanto de ouvir música no meu quarto...
Ia me torturando com estas lembranças, deixando uma lágrima rolar aqui, outra acolá. Quando o riacho mergulhou novamente, desta vez sob a pista da Rua 33, tentei rezar um Pai-Nosso, mas fiquei só nos dois primeiros versos: minha rosa tinha sumido. Me passou uma estranha sensação de solidão, de orfandade com o sumiço da flor nas águas do Brandão. Mas depois de alguns segundos, a rosa emergiu de um redemoinho e seguiu rumo ao hospital. Eu sorri um sorriso triste e a segui ainda pela Rua 18-B até o riacho desaguar num afluente do Paraíba, na Rua 41.
Dali até a entrada do hospital foi um pulo. O Hospital da CSN ficava, mais ou menos, na metade da rua. O sol começara agora, por volta de 11h30m, a despontar no céu, abrindo espaço entre muitas nuvens. A distância era curta, a flor não demorou mais de três minutos para rodopiar, pega por uma correnteza mais forte, em frente ao hospital, para onde eu seguia. Ao todo, caminhando lentamente para acompanhar a rosa, não levei mais de que 20 minutos. Tempo suficiente para que passasse a limpo e rememorasse as principais paradas do suplício de minha mãe.
Do diagnóstico errôneo de Parkinson -- mas o único cabível na Volta Redonda dos anos 60 -- o caminhar sempre escorando uma parede, o tombo no quarto da minha irmã, a decisão de não mais andar, de só se locomover de cadeira de rodas -- Meu Deus! E nós acatamos esta estupidez, que agravou e tornou irreversível seu quadro de imobilidade. As noites passadas dormindo na cama logo abaixo da sua, ajudando-a a se mexer durante a noite, a dificuldade para se expressar, as escaras, aquele corpo que mal chegava aos 35 quilos e cuja rigidez caminhava para assumir a posição fetal e final.
Tenho certeza, certeza não, impressão, de que quando joguei um beijo para a rosa, numa despedida definitiva, a flor rodopiou ao descer uma correnteza e deslizou lentamente, como também despedindo-se de mim para, em seguida, seguir o caminho do rio. Àquela hora,chorava. E no peito, trazia um alívio indescritível.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Entre e fique à vontade para não se sentir à vontade
Desculpe-me se você é portador de Machado Joseph e encontrou casualmente este blog em busca de novidades na cura da doença.
Eu também sou portador deste mal. Tenho 49 anos, mas nunca perguntei nada sobre a doença ao dr. Google. Primeiro, porque sou altamente sugestionável e as definições da doença são as mais aflitivas possíveis, de acordo com quem já procurou saber. Segundo, porque acho que qualquer cura que a ciência encontrar (e há de encontrar, não tenho a menor dúvida) não chegará a me beneficiar. Terceiro, e talvez a razão mais forte, busco a ignorância porque quanto mais turva for minha relação com a doença, menos eu me envolvo com ela (bah!!, como se a ignorância fosse algo a ser tomada).
Digo isso sem qualquer mágoa no coração. Resignado? Talvez... O que tenho certeza que sou é um pusta privilegiado. Tenho uma mulher fantástica e três filhos (são trigêmeos fraternos, dois moleques, João e Caio, e uma menina, Clara). Moro num apartamento legal, tenho comida fresca todo o dia e a óbvia restrição social que a doença me impôe é minimizada um tanto pela internet.
Por isso, se leu até aqui, leia meus textos. Não garanto qualidade, apenas catarse. É o que me resta. Eu tenho outro blog chamado “Tolices & Memórias”, com textos bem mais amenos que os que se seguem.
Mas fique à vontade para dar as costas e sair do blog. Sem constrangimento. Siga procurando sites sérios sobre a doença, mas diminua o volume da ansiedade. Ela só faz atrapalhar. Digo isso de carteirinha. Um grande e afetuoso abraço.
Eu também sou portador deste mal. Tenho 49 anos, mas nunca perguntei nada sobre a doença ao dr. Google. Primeiro, porque sou altamente sugestionável e as definições da doença são as mais aflitivas possíveis, de acordo com quem já procurou saber. Segundo, porque acho que qualquer cura que a ciência encontrar (e há de encontrar, não tenho a menor dúvida) não chegará a me beneficiar. Terceiro, e talvez a razão mais forte, busco a ignorância porque quanto mais turva for minha relação com a doença, menos eu me envolvo com ela (bah!!, como se a ignorância fosse algo a ser tomada).
Digo isso sem qualquer mágoa no coração. Resignado? Talvez... O que tenho certeza que sou é um pusta privilegiado. Tenho uma mulher fantástica e três filhos (são trigêmeos fraternos, dois moleques, João e Caio, e uma menina, Clara). Moro num apartamento legal, tenho comida fresca todo o dia e a óbvia restrição social que a doença me impôe é minimizada um tanto pela internet.
Por isso, se leu até aqui, leia meus textos. Não garanto qualidade, apenas catarse. É o que me resta. Eu tenho outro blog chamado “Tolices & Memórias”, com textos bem mais amenos que os que se seguem.
Mas fique à vontade para dar as costas e sair do blog. Sem constrangimento. Siga procurando sites sérios sobre a doença, mas diminua o volume da ansiedade. Ela só faz atrapalhar. Digo isso de carteirinha. Um grande e afetuoso abraço.
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