Eu já voltara de Viçosa, onde perdera três anos de vida acadêmica e ganhara o dobro de vivência pessoal; estava no segundo ano de jornalismo no Rio e quase todo fim de semana ia a Volta ver como estavam las coisas. Mas quem as acompanhava de perto, peludas ou não, era meu sobrinho, o Chris. Enquanto os pais trabalhavam – e almoçavam – fora, no serviço, o Chris estudava num colégio na Vila, o Nossa Senhora do Rosário -- onde a Norinha reinou soberana, como uma das melhores alunas, senão a melhor - e acompanhava o Celinho nos almoços simples, preparados por dona Luzia. Meu sobrinho passava as tardes na casa do meu pai, na Vila, muito mais vendo televisão e lendo gibis do que estudando. Talvez mais inteligente que a mãe, só muito mais tarde veio a usufruir desta faculdade. Hoje, é auxiliar administrativo dos campi da UFF. Foi o primeiro concurso público que participou e sem pretensões dado ao pouquíssimo tempo para estudar. Entre os cerca de 1.700 candidatos, passou em segundo lugar.
Eu adorava e ainda o adoro e acho que o sentimento é recíproco. Eu, 15 anos mais velho, consequentemente mais forte do que ele até vê-lo me passar quer em cumprimento quer em largura – sou tísico, magro de causar inveja em vara de bambu. Dava-lhe uns tabefes – muito mais para mostrar minha sobrepujança sobre meu sobrinho do que qualquer outra coisa. Eram chaves de braço, mata-leões muito mais carinhosos do que agressivos. E eu contava com a desmedida predileção do Celinho por mim. Bastava eu dar uma gravata no Chris enquanto íamos de casa – eu, minha mulher, a Claudia, meu pai e meu sobrinho -- até o restaurante onde éramos fregueses assíduos e o Celinho intervinha:
-- Ah, Filhinho (o Chris) deixa o Filhão (eu) em paz.
Nós brincávamos com ele. E emendávamos, imitando seu tom baixo de voz:
-- Ah, Filhinho, não começa. Tira a cara da mão do Filhão, num perturba. Num vê que ele está cansado???
Ele assumira o seu lado velho rabugento e o Chris, como convivia diariamente com ele, era quem mais sofria. Mas meu sobrinho entendia perfeitamente bem o Celinho, e hoje, passados 17 anos de sua morte, só tem palavras carinhosa para o vô dele.
Mas aos arroubos de misantropo (contrassenso, não? Digamos tratar-se de licença poética), Celinho juntava todos os cacoetes de velhinho massacrado pelo tempo. Andava meio curvadinho. A gente tem uma baita veia tartarugal; minha adorada tia Elza, irmã mais velha do Celinho, de 88 anos, o próprio, minha irmã e eu temos um quê do quelônio.
Meu pai adotara uma postura explicitamente reticente, não conversava nem com meus amigos mais chegados, os cumprimentava rapidamente e imergia no seu quarto. Nem retrucava a gracejos ou lembranças de tempos imemoriais; se preocupava em sumir de vista o mais rápido possível. Tinha o hábito de esfregar as mãos e era chegar em casa, trocar a calça de tergal – que invariavelmente usava quando saia de casa – por uma bermuda e calçava chinelos sobre o par de meias geralmente esticado até a canela. O quê, convenhamos, transforma até Cauã Reymond num velhinho mocorongo que dirá do Dr. Célio (era advogado dos amigos e gostava do título nos tempos de desespero).
Eu só lembro de vê-lo gargalhando uma única vez, por causa de um gracejo meu sem qualquer pretensão. Não sei porque motivo, Toquinho, violonista e célebre parceiro de Vinícius de Moraes, visitou momentaneamente nosso papo, enquanto marchávamos, os quatro, rumo ao Mattos. Foi o suficiente para eu disparar, sem qualquer juízo de valor – adoro Toquinho, tinha em vinil um genial solo dele chamado “Boca da noite”:
-- Bah!! Toquinho...Toquinho de merda!!!
Acho que foi o despropósito da frase. Sei que ele se dobrou de tanto rir. Nunca mais o vi gargalhar daquela maneira.
Chris o viu às gargalhadas certa ocasião anterior. Foi quando o meu sobrinho baixou na casa do Celinho usando óculos pela primeira vez:
-- Eu fiquei meio estranho, mesmo. Mas o Celinho me achincalhou. Riu de se fartar.
Quando Dr. Célio morreu em julho de 1993, vítima de complicações decorrentes de um AVC, que lhe paralisou o lado direito do corpo. Era a segunda vez que ele tinha um ACV. Da primeira vez, sobraram lembranças de uma paralisia temporária e uma história pra lá de saborosa, contada pela Norinha, que teria presenciado o episódio:
-- Entre o esgar natural de quem está indo pro brejo, Celinho sentiu que o lado direito estava paralisando. Mais que depressa, antes que a pressão arterial subisse a um grau que lhe tolhesse qualquer ato, tratou de arrumar o pinto o mais à esquerda possível. Vai que precisa...
Infelizmente não precisou. Embora Dirélia tenha passado três noites lá em casa, nada rolou. E Nora ouviu ao telefone a senha definitiva para o que viria a ser a morte do pai:
-- Norinha, corre para cá! Seu pai num tá nada bem. Acho que esta tendo outro AVC.
Nesta segunda internação, Nora resolveu me “incomodar” e me ligou.
-- Oi, querido. Como vai você? (tempo) E a Claudia? (tempo)...
Depois de muito tangenciar, Norinha foi ao motivo da ligação:
-- Tô ligando pra te dizer que ontem o pai passou mal e que foi internado no Hospital da CSN. Mas tá tudo bem. Ele está ótimo. Foi só precaução mesmo.
Sabia que naquele angu tinha carroço. Era óbvio que ele não estava ótimo. Se realmente estava porque não recebia cuidados médicos em casa? Senti que a Nora tava me poupando. Talvez fizesse o mesmo. De que serviria eu estar lá? Nada, mas para mim era fundamental estar.
Acho que a Nora me encontrou no serviço, de onde sai batido para casa – morava na Glória. Avisei a um dos meus editores, o Luisão, Luis Noronha, hoje produtor-executivo da Conspiração Filmes. Ele me liberou imediatamente com a recomendação de que mantivesse o povo do Segundo Caderno, minha editoria.
Fui o mais rápido que pude para a rodoviária. Cheguei em Volta três horas mais tarde. Aflito, fui direto para o hospital, que vindo da rodoviária é mais próximo do que da minha casa. Norinha e Chris já me esperavam na porta do hospital e, embora estivesse fora do horário de visita, me deixaram subir e vê-lo.
Qual não foi o susto que tomei ao ver meu pai semi-paralisado!! Ele tentava me acalmar – era flagrante o meu desespero – mas quanto mais ele falava com aquela desenvoltura hemiplegíca, mais aflito eu ficava. E não deu outra: minha pressão caiu, quase desmaiei e efetivamente botei o bloco na rua. Felizmente tinha um balde bem próximo de mim. Bem, depois de algum tempo, aprumei-me, tranquilizei o Celinho, assegurei-me de que passaria a noite bem e prometi voltar de manhã cedo para dar-lhe o banho matinal.
Quando desci, ainda branco como um fantasma, dei um esporro na Nora. Eu esperava encontrá-lo apenas acamado, mas arrumadinho, falando normalmente, tranquilo.
No entanto, encontrei um cara aflito, visivelmente constrangido por estar aos meus olhos naquele estado... Falava com extrema dificuldade, mas insistia em falar, para me tranquilizar. Eu não consegui evitar o choro, enquanto ele se esforçava para mostrar que estava tudo bem, apesar daquele fio de baba insistir em pairar no canto direito da boca. Além disso, ele estava numa enfermaria com mais dois leitos, um dos quais ocupados. Mas acho que consegui contornar a péssima impressão que a imagem do Celinho me causou e passei uma serenidade – que nem de longe era sentimento meu -- ao pai.
No dia seguinte, pude lhe dar um banho e rimos com suas limitações (antes gargalhar do que chorar). Acho que estava mais resignado e encarei tudo com mais naturalidade. Só na noite anterior fiquei sabendo do primeiro infarto que ele havia sofrido na segunda-feira.
Bem, dia seguinte dei-lhe um banho logo cedo. Coincidentemente era sábado, e fiz uma faxina e tanto no Cia trocar elinho. Me foram facultadas entradas no hospital para dar-lhe almoço e jantar.
Estava visivelmente abalado com o estado do meu pai. Um cara superindependente, sendo obrigado a aceitar ajuda até para limpar a bunda. Conversei com Claudia, que fora pra Volta no sábado, sobre a possibilidade de levarmos meu pai para morar conosco. Conversei com a Nora; ela achava que o Celinho não trocar Volta pelo Rio nunca e já estava armando um esquema que pudesse atender o Celinho em casa; possivelmente ela, Beto e Chris passariam a morar na casa da 27, com meu pai. E já estavam vendo um cara que pudesse acompanhá-lo em tempo integral.
Mas a um sábado tranquilo sucedeu um domingo que parecia reconduzir a situação à normalidade. Isso até a hora do almoço. Quando fui dar almoço para ele, soube que já havia almoçado. Não o encontrei na enfermaria; sofrera uma broncoaspiração e dali mesmo foi para a UTI. Não mais vi meu pai cônscio e o domingo, dia de visita, e ele tinha uma muito ilustre – a de sua irmã mais velha, tia Elza, e sua filha, Selminha, que já moravam no interior paulista, desde os meados dos anos 1970, quando meu tio Rubens morreu. Como se estivesse eternamente de luto – sem o estar, pois dificilmente falava do marido morto, ou trazia no semblante alguma nódoa de sua vida difícil. Pois, caso raríssimo, minhas tia e prima estavam a postos, na porta do hospital, umas três horas antes do horário de visita.
Cheguei 15 minutos mais tarde do que pretendia. Tempo suficiente para ele bronco-aspirar e ir capotando lentamente até que quarta-feira – acho que era uma quarta – ele sucumbiu.
No velório, entre semblantes tristes e resignados, uma conversa me saltou aos olhos. O seu Sílvio, que conhecia meu pai e minha mãe quando eles se conheceram, na C.S.N. e era um sujeito de notório mau humor, encontrou-se com a Norinha, que era emoção só. Ela recebeu os cumprimentos de pêsames e chorosa, reclamou da falta que o pai faria. Seu Sílvio foi de uma virulência suprema:
-- Não entendo seu desespero. Seu pai já estava morto há dez anos, no dia em que sua mãe morrera.
Dita por um sujeito
mau humorado à bessa e fora de contexto, era a mais límpida das verdades.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
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