quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Desasossego 1.3

Tão logo minha mãe morreu, restou-me um único pensamento que não de alívio: o que seria agora do meu pai? Não, não temia por um surto de depressão profunda ou por uma crise de abstinência de vida. Temia que a vida de meu pai degringolasse, que se descaralhasse de vez.

Ele estava muito perto disso quando minha mãe morreu. Os meus queixumes dos seus excessos já não surtiam efeitos. Ele bebia cada vez mais e se tornava cada vez mais um risco maior para si e para os outros. Sua irresponsabilidade era irritante.

Coisa de dois meses antes de minha mãe morrer, ele fraturara duas costelas e o tornozelo direito ao ter o lado do carona do fusca invadido por uma caminhonete. Não me lembro se a culpa havia sido dele, mas as possibilidades eram grandes: sóbrio, já dirigia mal; quando bebia então...

Eu, que já estudava em Viçosa na época, viajei tão logo soube que ele se acidentara. Peguei um ônibus cedo para Juiz de Fora e de lá rodei mais 3h e meia até Volta Redonda. Cheguei em casa por volta de 15h30m, aflito. E em vez de encontrá-lo acamado, ao menos se refazendo das dores naturais da batida, só fui vê-lo à meia-noite e quinze, quando, meio bêbado, chegou em casa a bordo de um outro fusca, dirigido por um “amigo” de copo.


Sequer demonstrou qualquer sentimento de arrependimento diante de meu olhar apreensivo e de reprovação:

-- E aí, filhão??!!! Foi a Nora que ligou para você, né?? Num precisava vir não. Eu, tua mãe estamos ótimos.... -- disse-me ele, manquitolando e com um bafo de cerveja que vinha das entranhas.

Naquele instante notei que algo se quebrara. A única luz que o guiava para fora do túnel escuro em que mergulhara começava a se apagar. Ele decidira ir mesmo até o fundo do poço. E volta não havia do lodaçal em que o Celinho estava prestes a fincar os pés.

Assim, quando minha mãe morreu, tinha certeza de que ele meteria de vez o pé na jaca. Afinal, era ela, presa a uma cama, o motivo para o meu pai ainda dormir em casa. Verdade que cada vez ele passava menos tempo na Rua 27 n°30. Eu colecionava histórias tristes e constrangedoras provocadas pela ausência ou pelos excessos de meu pai nos nove anos que minha mãe passara presa à cama. Mas ele nunca abandonara o barco. Agora que minha mãe morrera, ele sequer tinha porque remar.

2 comentários:

  1. Por mim... início, meio e fim.

    Não sei o que poderia vir mais, nesta série de quatro posts.

    Este já atingiu seu clímax, já emocionou o suficiente.

    Pense nisso, que as outras narrativas que faltam venham com outros títulos.

    Ou me surpreenda.

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  2. décio


    prefiro tentar te surpeender do que ser conciso. acho que sempre falta algo no texto e pelo menos nessa vou manter os quatro posts. espero que se surpreenda..

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