No entanto, aconteceu exatamente o contrário. Meu pai se fechou como um marisco. Inapelavelmente. Na noite do dia do sepultamento de minha mãe – eu estava de férias da faculdade; ela morrera em fevereiro, exatamente um mês antes de’u completar 22 anos – antes de dormirmos, Celinho sentou-se demoradamente na cama onde minha mãe sofrera por longos nove anos.
Silenciosamente ele orava. Me aproximei dele, nos abraçamos e choramos sem palavras.
Nos dias seguintes, ele passara em casa. E em pouco tempo, ele despediu-se daquela vida desregrada que levava. Vendeu ou deu, não sei – livrou-se do fusquinha muquirana que guiava, ou melhor, que esculhambava. Parou de se encharcar de cerveja – só bebia uma ou duas comigo, Claudia, minha mulher, e Chris, meu sobrinho, portanto, neto dele, nas noites de sábado, quando invariavelmente, jantávamos no Mattos, restaurante especializado em comida portuguesa que servia de tudo.
Acho que nunca mais pisou no Pontal, em Angra, onde tínhamos uma casinha mínima, e para onde meu pai ia, frequentemente, em busca de paz, sem saber que carregava consigo o signo do desasossego.
Tão logo ele morreu, em meados de 1993, fomos, eu, minha mulher, Claudia, Nora, minha irmã, Betão, meu cunhado, e o Chris, até o Pontal. Descobrimos que a meia-água, que achávamos que estava alugada, na verdade tinha sido vendida. A nova dona sacou uma série de duplicatas que, somadas, eram uma ninharia. A venda não tinha validade legal, já que ele só poderia dispor de 50 por cento do imóvel; os outros 50 por cento eram meus e da Nora. E segundo combinação prévia, a meia-água de Angra ficaria comigo. Mas diante das evidências – ele vendera a casa – não restou muito o que fazer.
-- Ele vendeu mesmo, por uma ninharia. Bem, vendeu, tá vendido. Se ele estivesse maluco, eu contestaria. Mas tava bonzinho das idéias – eu disse, lançando um último olhar de despedida à casa, já modificada, recusando o copo d’água oferecido e cumprimentando a moradora e irmos até o Iate Clube de Angra dos Reis (ICAR), onde almoçamos e demos uma última olhada também.
Fechando os parênteses sobre a herança não herdada de Angra, e voltando ao Celinho minha mãe pós-mortem, em pouquíssimo tempo, ele tornou-se um misantropo. Quando avistava alguém conhecido com quem iria fatalmente cruzar, mudava de calçada. Assim, não teria porque parar e sair-se com aqueles evasivos comentários sobre o estado de fulano ou sobre seu próprio estado. Não lhe interessava saber de ninguém, assim como não lhe interessava que soubessem como passara o dia!!!
Não mais tocou bandolim. Só saia de casa para buscar ou levar Dirélia, mãe de Josélia – mau gosto pode ser hereditário ou vingativo – no ponto de ônibus que levava ao Barreira Cravo, bairro um tanto distante da Vila. Dirélia era um caso antigo – sepultado por vários anos em que meu pai tivera como amante oficial Abner. Minha mãe, eu e Nora chegamos a viajar para Angra com Abner e meu pai. O pragmatismo de minha mãe era acintoso:
-- Célio, não faz sentido você se privar de sexo por minha causa. Eu já estou mais pra lá do que pra cá. Não me importa que falem. E eu gosto da Abner, acho que você fez uma boa escolha.
Abner era enfermeira na ativa; Dirélia também era enfermeira, mas quando o pai morreu, já estava aposentada. Ele tinha uma notória queda pela categoria. Abner e meu pai formavam um casal engraçado. Ela, mais grande do que gorda, era muito mais alta que o Celinho, um baixinho mulato, cabelo pixaim (quando digo que tenho aquilo roxo, neguim me sacaneia) que multiplicava sua estatura com sua arrogância e intempestividade. Quando minha mãe era viva usava indefectíveis óculos escuros, independentemente de chover canivetes. Ele tinha uma ânsia – num sei se era de viver ou morrer – sei que tocava a vida intensamente, até a morte de minha mãe.
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É, houve uma reversão de expectativa.
ResponderExcluirPois deixemos isso de lado, então. Pelo menos por enquanto.
Parece Machado escrevendo, e estou falando do "de Assis".
Egocentricamente (ou algo assim) eu fico bolado de não ter tido conhecimento de tudo isso enquanto estava rolando.
Décio
ResponderExcluirTenho que ser o mais completo e fiel ás minhas lembranças possível. às vezes, caio na vala comum da repetição. mas em outros casos -- mais raros -- acerto a mão. Acho que este texto vai ter 3 e não 4 posts. E, não se culpe. Embora já nos conhececêmos há pelo menos 3 anos e meio quando o Celinho morreu, o processo de emperdecimento dele foi muito posterior a isso. Este último post poderia figurar no outro blog. tem bobeiras pacas.
Não achei bobeiras, não. Este post está no lugar certo.
ResponderExcluirAlexandre Santos